Governo Lula acelera recrutamento de médicos para atender distritos indígenas; Médico relata grave crise humanitária que afeta os yanomami

Neste domingo (22/01/2023), o Ministério da Saúde brasileiro anunciou que estuda acelerar um edital do Programa Mais Médicos devido à crise sanitária da população do território Yanomami. Os profissionais convocados atuariam nos chamados Distritos Sanitários Indígenas (Dsei) — unidades de responsabilidade sanitária federal em terras indígenas.

De acordo com a Saúde, o recrutamento seria para médicos brasileiros e estrangeiros e serviria a um projeto de atuação permanente. Conforme publicou o portal G1, o secretário de Atenção Primária à Saúde, Nésio Fernandes, a convocação conjunta de profissionais formados no Brasil e no exterior, se deve à situação emergencial no território Yanomami.

“Tínhamos um edital só para brasileiros. Só em seguida que faríamos um edital para brasileiros formados no exterior e, depois, para estrangeiros. Frente à necessidade de levarmos assistência à população dos distritos indígenas, especialmente aos Yanomami, queremos fazer um edital em que todos se inscrevam de uma única vez”, afirmou.

Segundo Fernandes, o território Yanomami é um dos mais que carece de médicos atualmente dentre os Dsei e tem apenas 5% das vagas ocupadas.

Emergência pública nacional

Na sexta-feira (20), a pasta criou uma Sala de Situação para apoiar ações na Terra Indígena Yanomami e declarou emergência em saúde pública de importância nacional devido ao quadro de desassistência sanitária na região.

No dia seguinte (21) o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, foi a Roraima, ao lado de uma equipe de ministros, para visitar o Dsei Yanomami, onde por volta de 100 crianças morreram ao longo do ano passado. Segundo o governo federal, o número chega a 570 crianças mortas menores de cinco anos nos últimos quatro anos.

Em discurso no local, Lula prometeu ações de combate ao garimpo ilegal e de assistência à população indígenas do território Yanomami. Nas redes sociais, o presidente chamou situação de “genocídio” e “crime premeditado”.

“Se alguém me contasse que aqui em Roraima tinha pessoas sendo tratadas de forma desumana, como vi o povo Yanomami ser tratado aqui, eu não acreditaria”, disse Lula durante a visita.

“A pior situação humanitária que já vi”; Os relatos de médico que foi atender os yanomami

O médico tropicalista André Siqueira, do Instituto Nacional de Infectologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estava em terras yanomami desde segunda-feira (16/01). Nos últimos dias, ele diz ter testemunhado “a pior situação de saúde e humanitária” que já viu.

Enviado ao local pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas-OMS), o especialista em malária visitou o polo-base de Surucucu, em Roraima, e passou por outras comunidades da região.

“Nosso objetivo era fazer um diagnóstico rápido da situação e criar um plano de ação para mitigar ou resolver essas questões, em parceria com o Ministério da Saúde e as lideranças yanomami”, contextualiza o médico.

“O que vimos foi uma situação muito precária em termos de saúde, com pacientes acometidos por desnutrição grave, infecções respiratórias, muitos casos de malária e doenças diarreicas. Junto a isso, uma escassez de equipes e de estrutura”, relata.

Siqueira diz que se deparou com casos de desnutrição extrema em famílias inteiras. Emocionado, o médico confessou que é muito difícil enfrentar essa situação, que classifica como “catastrófica” e “desastrosa”.

“Presenciar na prática esse nível de sofrimento é muito pesado. Na hora a gente encara e vai no automático. Mas depois, quando cai a ficha, vemos como é uma situação difícil.”

“A gente compara com nossos filhos. Vemos os pais, as crianças e toda a comunidade sofrendo. E, mesmo diante de tanta dificuldade, há um senso de coletividade muito grande. Mesmo as pessoas com fome, quando recebem algum alimento, tentam dividir com quem está ali”, completa.

MPF denuncia situação desde 2020

A criação da Sala de Situação foi recomendada pelo Ministério Público Federal (MPF) para o território Yanomami ainda em novembro do ano passado, após o órgão identificar na região um quadro de “descontrolado surto de malária e desnutrição, e da crônica falta de medicamentos”.

O MPF também recomendou o combate ao garimpo ilegal na região. O órgão entrou com ações judiciais nesse sentido ainda em 2020, já sinalizando a necessidade de um plano emergencial para monitoramento no território. De acordo com o MPF, apesar das denúncias nos últimos anos, não houve ações por parte dos órgãos requeridos.

O órgão aponta ainda um ofício foi encaminhado para o então governo de transição no final do ano passado apontando a situação e pedindo ações devido aos “impactos que o garimpo gera no meio ambiente, economia e segurança locais, além da ameaça à sobrevivência de indígenas”.

*Com informações da Sputnik Brasil e de André Biernath, da BBC Brasil.


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