“Já o li esta manhã” | Por Luiz Holanda

Jamais fui íntimo do ex-governador e ex-senador Antonio Carlos Magalhães. Tampouco privei do círculo de amigos que o visitava todos os domingos, pela manhã. Sempre o achei atencioso e delicado comigo, sem, contudo, termos qualquer intimidade. Como seus adversários diziam tratar-se de um homem que mudava de comportamento conforme as circunstâncias, nada mais natural do que agir com prudência, sem me aproximar demasiadamente de sua pessoa nem tentar fazer parte do grupo de sua compadrice.

Comovia-me, porém, a sua gentileza. Senti, como todo ser humano, o seu pranto  durante a missa de sétimo dia em memória do seu filho, Luís Eduardo Magalhães. Durante a vida inteira ele o preparara para ser presidente da República. Ao me aproximar para dar-lhe as condolências, ele – chorando copiosamente-, disse-me que guardaria para sempre o artigo que eu escrevera sobre o fatídico acontecimento, publicado no jornal Tribuna da Bahia sob o título “A morte não ganha da vida”.

Por sua indicação assumi diversos cargos na administração estadual, entre os quais o de Superintendente Parlamentar na Assembléia Legislativa da Bahia. Certo dia, em visita àquela Casa, adentrou no meu gabinete à minha procura. Como não me encontrou, deixou recado para que eu o visitasse no “Correio da Bahia”. Lá chegando, na manhã seguinte, anunciou que iria me indicar para assumir a função de conselheiro no Conselho Estadual de Eduacação, órgão integrante da Secretaria de Educação do Estado da Bahia.

Quando lhe perguntei se teria que deixar o cargo de Superintende da Assembléia Legislativa, ele me respondeu que não, e que estava me indicando porque eu era um “intelectual” e que iria ganhar uns “jetonsinhos”. Certa feita me chamou em seu gabinete para tratar de um assunto relacionado à Assembléia. Tão logo me apresentei, a secretária pediu-me para aguardar porque ele iria atender  a um determinado governador em visita ao nosso estado. Qual não foi minha surpresa ao ser recebido imediatamente, deixando o governador à espera. Preocupado, disse-lhe que aguardaria ele atender, primeiramente, o governador. Resposta: “Ele pode esperar”.

Dificilmente eu poderia compreender uma personalidade acostumada a exercer o poder e ser, por temperamento, extremamente complexa, pelo menos para mim. Daí o meu cuidado em nunca demonstrar qualquer intimidade. Tratava-o com todo o respeito e reverência, sempre dentro das regras do trato social. Considerando que sou uma pessoa reservada e pouco afeita à efusividade, vez por outra rememoro -intimamente-, certos acontecimentos que tiveram algum significado em minha modesta existência,  principalmente as manifestações dos meus leitores, entre os quais o velho ACM, que, sempre quando me encontava dizia,  com aquele jeito que lhe era peculiar: “Já o li esta manhã”.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading