Desmatamento no Cerrado ameaça segurança hídrica em todo o Brasil

Em algumas das regiões mais afetadas pelo desmatamento do Cerrado, as preocupações com a segurança hídrica são cada vez mais urgentes. Agricultores locais e especialistas alertam que o impacto das mudanças ambientais já está afetando os rios, e as consequências podem se espalhar por todo o Brasil.

Adão Batista Gomes, um agricultor de 61 anos que passou toda a vida em Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia, lamenta a rápida diminuição do nível do rio na região. Ele aponta para o desmatamento nas cabeceiras do Cerrado como uma das principais razões para essa preocupação. Jamilton Santos de Magalhães, também conhecido como Carreirinha, líder comunitário em Correntina, compartilha essas preocupações e observa que o desmatamento e o consequente desaparecimento de nascentes se tornaram mais frequentes nas últimas décadas.

Essas áreas, parte do Matopiba, que engloba partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, enfrentam alguns dos maiores níveis de desmatamento no Cerrado. Este bioma, muitas vezes chamado de “berço das águas do Brasil”, é crucial para as nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas mais importantes do país. Além disso, abriga o segundo maior reservatório subterrâneo de água do mundo, composto pelos aquíferos Guarani e Urucuia.

O estudo publicado pela revista científica Sustainability alerta para os riscos que o desmatamento do Cerrado representa para a segurança hídrica e energética do Brasil. Segundo Yuri Salmona, doutor em Ciências Florestais e um dos pesquisadores do estudo, as árvores do Cerrado possuem raízes profundas que são responsáveis por levar a água das chuvas para o subsolo. Durante o período seco, essa água é liberada gradualmente, alimentando rios vitais em todo o país.

No entanto, o desmatamento compromete essa dinâmica natural, fazendo com que a água escorra superficialmente, resultando em erosão e desequilíbrio nas vazões dos rios. A situação piora durante a seca, quando a água é usada em grande quantidade para irrigar plantações do agronegócio, ameaçando o próprio futuro dessas atividades.

O estudo revela que as bacias hidrográficas do Cerrado perderam em média 15,4% da vazão dos rios entre 1985 e 2022. Para 2050, a previsão é de uma redução de até 34%, mesmo com a diminuição do desmatamento.

Além das implicações nacionais, a pesquisa destaca que o Brasil exporta água na forma de “água virtual” para China, União Europeia e Estados Unidos, através das commodities agrícolas. De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), quase metade da água consumida no país em 2019 foi usada na irrigação da agricultura.

A falta de transparência nas outorgas de uso da água no Cerrado é outra preocupação. Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Cerrado, enfatiza que a água, um recurso compartilhado, está sendo usada para a produção agrícola e, em seguida, exportada, prejudicando a disponibilidade de água para as comunidades locais.

Em áreas com alta demanda de água para a irrigação em larga escala, como Correntina (BA), as populações locais têm enfrentado a redução das vazões dos rios, resultando em protestos e conflitos.

Isabel Azevedo, coordenadora do Programa Cerrado e Caatinga do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), argumenta que as autorizações para suprimir vegetação e as outorgas de uso da água na região são fornecidas sem um controle adequado, tornando o sistema irregular e vulnerável a influências do agronegócio.

O futuro da segurança hídrica do Brasil está na balança, e a preservação do Cerrado torna-se fundamental para garantir um abastecimento sustentável de água e a proteção do ambiente para as gerações futuras.

*Com informações da Agência Brasil.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da CMFS: Campanha de abril de 2026 2.
Banner do Governo da Bahia: Campanha sobre Feiras Literárias.
Banner do INSV 20260303.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading