O ex-secretário executivo do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), general Carlos José Russo Assumpção Penteado, trouxe revelações chocantes à Comissão Parlamentar de Inquérito dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Em seu depoimento na segunda-feira (04/09/2023), Penteado alegou que o ex-ministro Gonçalves Dias não compartilhou os alertas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre o risco de invasões de prédios públicos durante os atos de 8 de janeiro. Segundo o general, essa omissão comprometeu severamente o esquema de segurança estabelecido para o dia.
A falta de informações completas sobre a conjuntura e os riscos reais da ação de vândalos e golpistas foi o ponto central das alegações de Penteado. Ele afirmou que nem mesmo ele, ocupando o segundo cargo mais importante no GSI, tinha conhecimento dos alertas produzidos pela Abin e entregues a Gonçalves Dias. Essas declarações lançam uma sombra de dúvida sobre a capacidade de resposta das autoridades à situação de segurança na capital federal naquele fatídico dia de janeiro.
“Todas as ações conduzidas pelo GSI no dia 8 de janeiro estão diretamente relacionadas à retenção, pelo ministro Gonçalves Dias, dos alertas produzidos pela Abin, que não foram disponibilizados oportunamente para que fossem acionados todos os meios do Plano Escudo,” disse Penteado durante sua declaração inicial perante a CPI.
“Nesse ponto é necessário destacar que se a Coordenação de Análise de Risco, responsável pela elaboração da matriz de criticidade, tivesse tido acesso ao teor dos alertas que o [então] diretor da Abin, Saulo Moura [da Cunha], encaminhou ao ex-ministro Gonçalves Dias, as ações previstas no Plano Escudo teriam impedido a invasão do Palácio do Planalto,” acrescentou o general, enfatizando que os alertas da Abin nunca chegaram às mãos dos responsáveis pela execução da segurança do Palácio do Planalto e da segurança presidencial.
Essas alegações reacendem a polêmica em torno dos eventos de 8 de janeiro, quando manifestantes invadiram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF). O ex-diretor da Abin, Saulo Moura da Cunha, havia declarado à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso Nacional que a agência produziu 33 alertas de inteligência sobre os protestos contra a vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, ele também afirmou que até 5 de janeiro, a Abin não via grande risco de atos golpistas.
Foi somente nos dias 6 e 7 de janeiro que a percepção mudou, quando a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) relatou um número inesperadamente elevado de ônibus chegando a Brasília.
“Na tarde do dia 7 [de janeiro], os órgãos de segurança do GDF [governo do Distrito Federal] e alguns órgãos do governo federal já tinham ideia de que teríamos uma manifestação com grande número de pessoas,” destacou Cunha em seu depoimento anterior à CPMI.
O ex-ministro do GSI, Gonçalves Dias, também reconheceu sua falha na avaliação da situação e admitiu ter recebido informações conflitantes na manhã do dia 8 de janeiro. Ele afirmou que suas decisões foram baseadas em informações divergentes recebidas de contatos diretos, levando-o a verificar pessoalmente a situação no Palácio do Planalto. Penteado, no entanto, contestou essa versão dos eventos, afirmando que ele próprio soube dos alertas da Abin apenas pela imprensa, após o dia 8 de janeiro.
A surpreendente revelação de Penteado levanta questões sobre a transparência e a eficácia dos sistemas de segurança e inteligência do governo na época dos eventos de 8 de janeiro. A falta de comunicação entre os órgãos envolvidos pode ter contribuído para a escalada da violência naquela data.
Penteado também mencionou que, naquele dia, “praticamente todos” os cargos de decisão do GSI eram ocupados por remanescentes do governo Bolsonaro. Isso destaca a importância de uma revisão completa dos protocolos de segurança e inteligência do país, a fim de evitar falhas semelhantes no futuro.
À medida que a CPI dos Atos Antidemocráticos continua suas investigações, as revelações de Penteado lançam luz sobre um aspecto crucial dos eventos de janeiro que poderá ter implicações significativas para o entendimento dos acontecimentos daquele dia e para a responsabilização das autoridades envolvidas.
*Com informações da Agência Brasil.









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