Povos tradicionais do Cerrado resistem à expansão da agricultura

O Cerrado, uma das riquezas naturais do Brasil, está no centro de uma luta silenciosa e persistente travada pelos povos tradicionais da região. Essas comunidades, que possuem conhecimentos ancestrais sobre a terra e suas riquezas, enfrentam diariamente os desafios do desmatamento e da redução da vazão dos rios, resultantes da expansão da agricultura na savana brasileira.

Os povos do Cerrado abrangem indígenas de diferentes troncos, como Jê e Tupi-Guarani, quilombolas, comunidades tradicionais como quebradeiras de coco-babaçu e pescadoras artesanais, entre outros. Para essas comunidades, o Cerrado é muito mais do que apenas uma paisagem; é a base de sua cultura e subsistência.

No sudoeste do Piauí, as 78 famílias indígenas da etnia Akroá-Gamela enfrentam a invasão da soja em terras que consideram historicamente suas. José Wylk Brauna da Silva, líder da Associação dos Povos Indígenas de Laranjeiras, denuncia ameaças, invasões e violações de direitos humanos. Eles lutam pela demarcação de seus territórios e pela preservação do ambiente que é essencial para suas vidas.

A história do povo Akroá-Gamela no Piauí se assemelha à dos moradores do Quilombo de Mesquita, em Goiás, que também sofrem com o avanço do desmatamento causado principalmente por fazendeiros de soja. Essa comunidade com mais de 250 anos de existência luta para obter a titulação de suas terras e preservar o Cerrado.

Em Correntina, na Bahia, as comunidades tradicionais protestaram em 2017 contra o uso excessivo da água pelas fazendas, que afetava a vazão dos rios essenciais para suas necessidades. No entanto, mesmo com os protestos, as outorgas para o uso da água continuaram, deixando as comunidades em uma situação difícil.

O Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) atua em apoio aos povos do Cerrado que enfrentam a expansão do agronegócio. Segundo a coordenadora do Programa Cerrado e Caatinga do ISPN, Isabel Figueiredo, a expansão irregular do agronegócio muitas vezes usa fraudes para ocupar terras tradicionais e recorre à violência, incluindo milícias rurais.

Recentemente, em uma audiência pública no Senado, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, anunciou um novo plano de combate ao desmatamento do Cerrado. No entanto, destacou que o sucesso desse plano depende da participação ativa dos estados e da revisão das licenças de desmatamento, considerando que mais de 70% dos desmatamentos no Cerrado ocorrem legalmente.

Nossa reportagem buscou comentários de representantes do agronegócio, como a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) e a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), sobre o desmatamento do Cerrado, mas não obteve resposta até a publicação deste relato.

Em um Brasil onde o Cerrado é vital não apenas para a biodiversidade, mas também para as culturas e modos de vida de comunidades tradicionais, a luta pela preservação desse bioma continua, na esperança de garantir um futuro sustentável para todos.

*Com informações da Agência Brasil.


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