Em uma carta aberta direcionada aos irmãos da Devoção do Senhor do Bonfim (Irmandade do Bonfim) e à comunidade baiana, os mesários da secular fraternidade católica soteropolitana revelaram detalhes sobre a crise interna que abalou a instituição e apontaram condutas questionáveis do padre Edson da Silva, reitor da Basílica do Senhor Bom Jesus do Bonfim. A carta, intitulada “Manifesto da Irmandade“, com data de 25 de setembro de 2023, surge como uma tentativa de esclarecer as recentes polêmicas que envolvem a instituição religiosa.
Segundo o manifesto, a controvérsia teve início quando o padre Edson da Silva alegou ser vítima de perseguição e ameaças por parte do Juiz da Devoção, Jorge Nunes Contreiras, e outros mesários da Irmandade. Isso desencadeou uma série de notícias na mídia e gerou desconforto entre aqueles que tomaram como verdade absoluta as declarações do padre, sem que os mesários tivessem a oportunidade de se pronunciar.
No manifesto, os mesários negaram veementemente a existência de perseguição, competição ou ameaças em relação ao padre Edson da Silva. Eles argumentaram que a nova gestão da Devoção, liderada pelo Christovão Rios de Brito, juiz da Devoção, desde janeiro de 2022, buscou aplicar as melhores práticas de governança e se esforçou para cumprir rigorosamente o Estatuto e o Regimento Interno da Irmandade, algo que, segundo eles, não era observado há muitos anos.
O manifesto ressaltou a gestão financeira da Irmandade, destacando que o juiz Christovão Rios conseguiu reverter um déficit de R$ 118.000,00 herdado da administração anterior, transformando-o em um superávit de R$ 182.000,00 em apenas sete meses. No entanto, a implementação dessas medidas de reabilitação financeira gerou pressões e desavenças no seio da Devoção.
O conflito atingiu o ápice quando o Padre Edson da Silva supostamente tentou inviabilizar uma negociação que estava em andamento entre a Devoção e uma grande empresa de eventos. Essa negociação poderia resultar em uma significativa soma mensal de recursos para a Irmandade, destinada ao pagamento das despesas administrativas. A oposição do padre à negociação se deveu ao seu desejo de manter o controle da propriedade em questão, pretendendo dar-lhe uma destinação diferente, o que, segundo o manifesto, não contribuiria para os cofres da Irmandade.
Outro ponto levantado no manifesto foi a resistência do Padre Edson em ser contratado como celetista, indo contra o que determina o Regimento Interno da Irmandade e o artigo 51 do mesmo documento, que ele próprio havia subscrito. A obrigatoriedade desse registro se deve à previsão regimental e ao fato de a Devoção do Senhor do Bonfim ser considerada uma organização religiosa de direito privado, regida pelas leis brasileiras.
O manifesto também enfatizou que a Igreja do Bonfim, bem como seus acervos e outros imóveis, são patrimônio privado da própria Devoção, com escrituras registradas em cartório, não estando sob jurisdição da Arquidiocese. A interferência da Arquidiocese na administração da Irmandade foi apontada como ilegal e alvo de demandas judiciais.
Além disso, os mesários denunciaram que o padre Edson administrava o Projeto Bom Samaritano de forma indevida, uma prerrogativa exclusiva da Devoção. Eles questionaram se a verdadeira finalidade do projeto era beneficiar pessoas carentes ou administrar os recursos da Irmandade.
Outro ponto controverso revelado no manifesto foi a suposta apropriação pelo padre Edson das coletas das sextas-feiras e metade da arrecadação dos cofres laterais da igreja, resultando em estimados R$ 40 mil a R$ 50 mil mensais sem a devida prestação de contas.
O manifesto também mencionou depósitos em contracorrente em nome da Arquidiocese, sem explicação clara sobre sua finalidade. Esses depósitos, alguns assinados pelo próprio padre reitor, totalizaram aproximadamente R$ 200 mil, sem previsão estatutária para sua existência.
A administração anterior da Irmandade também foi criticada por pagamentos duplicados de salários a colaboradores em 2019, sem evidências de devolução dos valores ou de compensação. Além disso, o manifesto apontou a assinatura de um contrato de comodato para a exploração de três imóveis da Devoção por um restaurante, sem que a Irmandade obtivesse lucro com a transação.
No entanto, quando a Irmandade pretendia iniciar uma auditoria para esclarecer essas questões, a Arquidiocese emitiu um Decreto de Intervenção, assumindo o controle da administração da Irmandade e impedindo a Mesa Diretora de investigar as alegadas irregularidades. Isso gerou controvérsias adicionais e levou à destituição da Mesa Diretora legalmente eleita.
A Arquidiocese, ao intervir na administração de uma organização religiosa privada com quase trezentos anos de existência, optou por acobertar supostos desregramentos na Irmandade e tentou destituir a Mesa Diretora, sem tomar providências em relação ao padre Edson da Silva, segundo o manifesto.
A carta aberta também criticou a convocação de uma assembleia geral ordinária, considerada autoritária e sem justificativa aparente, para eleição do Conselho Econômico Fiscal e da Mesa Administrativa em 2023/2025, quando os mesários eleitos ainda estavam em mandato.
O manifesto encerrou com um apelo ao respeito aos direitos de todos os envolvidos, o fim das interferências indevidas e a busca por uma solução pacífica que preserve o patrimônio da Devoção e fortaleça a fé em Bom Jesus do Bonfim.









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