Pesquisa revela como Brasil julga crimes raciais contra pessoas negras cometidos em redes sociais

Um estudo inovador elaborado pela Faculdade Baiana de Direito, em parceria com o portal jurídico Jus Brasil e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), oferece uma análise profunda e abrangente sobre como o sistema judiciário brasileiro julga crimes de injúria racial e racismo cometidos contra vítimas negras em redes sociais. O estudo, que compreende o período de julho de 2010 a outubro de 2022, mapeou casos e analisou decisões dos tribunais do país relacionadas a esse tema complexo e relevante.

Os principais resultados dessa pesquisa inédita serão apresentados pela primeira vez no Seminário “Desafios do Racismo nas Redes”, realizado em conjunto pelo Ministério da Igualdade Racial e o PNUD. Essas instituições têm um projeto de cooperação técnica internacional para o fortalecimento do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir), a principal estratégia do governo federal para combater o racismo no Brasil. Atualmente, o Sinapir engloba 25 estados e 195 municípios em seu esforço de promoção da igualdade racial.

A pesquisa desempenha um papel estratégico ao fornecer informações relevantes que podem orientar as iniciativas subnacionais de igualdade racial e o sistema judiciário em relação aos desafios envolvidos na responsabilização de autores de crimes raciais na internet. As evidências destacadas no estudo também podem ajudar o Estado a oferecer melhor apoio às vítimas ao longo dos processos judiciais e a desenvolver ações eficazes de prevenção ao ódio racial nas redes.

No total, a pesquisa analisou 107 acórdãos, que são decisões colegiadas dos tribunais, disponíveis no banco de dados do JusBrasil, uma plataforma que coleta informações públicas do Sistema Judiciário.

A seguir, alguns dos principais resultados da pesquisa:

Principais Vítimas: As mulheres representam quase 60% das vítimas de crimes de racismo e injúria racial julgados em segunda instância no Brasil, enquanto os homens compõem apenas 18,29% desse grupo. Cerca de 23,17% dos casos não possuem identificação de gênero, sendo geralmente relacionados à discriminação racial, um tipo de crime que afeta uma coletividade indeterminada, tornando impossível classificar o gênero da vítima individual.

Tipos de Agressão: Os principais tipos de agressão envolvem a atribuição de nomes pejorativos e a prática de animalização, sendo predominantes tanto nos casos contra homens quanto contra mulheres.

Perfil dos Agressores: A pesquisa revela que 55,56% dos agressores são do gênero masculino, 40,74% do gênero feminino e 3,70% não tiveram gênero identificado. A presença de mulheres entre as agressoras em crimes raciais nas redes é mais alta do que a encontrada em pesquisas sobre outros tipos de criminalidade.

Condenações: Das 82 apelações identificadas no âmbito dos Tribunais de Justiça e Tribunais Regionais Federais, a maioria (51 casos) resultou em condenação dos agressores. Isso significa que em 83,6% das apelações penais, as decisões dos tribunais consideraram a pessoa agressora culpada, seja confirmando uma condenação anterior ou revertendo uma decisão que a havia considerado inocente.

Tipos de Pena Aplicada: As penas privativas de liberdade foram mais frequentemente aplicadas aos condenados por injúria racial (25%) em comparação com aqueles condenados por discriminação racial (11,11%). A reincidência específica dos agressores parece ser o fator que influencia essa diferença.

Regime Prisional Inicial do Crime Racial: Entre as 54 condenações analisadas, nenhum réu foi condenado a pena em regime fechado. A maioria (49 casos) teve regime aberto, três em regime semiaberto e dois não tiveram informações disponíveis.

Duração Média da Pena: A pesquisa constatou que a duração média da pena por injúria racial foi de 16,4 meses, um pouco mais do que um terço além da pena mínima. Isso sugere que a cultura judicial de aplicação da pena mínima prevalece nos casos de crimes raciais.

Principais Tipos de Prova: Os tipos de prova mais frequentes em casos de condenação foram “prints” (capturas de tela que funcionam como provas documentais), boletins de ocorrência e depoimentos de testemunhas.

Embora a pesquisa tenha identificado uma maioria de casos resultando em condenações, indicando avanços no tratamento dessas questões no âmbito jurídico, é preocupante observar a quantidade significativa de situações em que as vítimas não obtiveram justiça, seja pela ausência de sanções ou pela falta de clareza na definição das condutas discriminatórias.

O relatório visa contribuir para o debate sobre o combate ao racismo nas redes sociais no Brasil, fornecendo informações essenciais para que instituições e a sociedade civil possam atuar de maneira mais eficaz na luta contra esse fenômeno.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading