Negritude, pobreza e populismo | Por Joaci Góes 

Na última segunda-feira (20/11/2023), estivemos na cidade de Irecê (lençol subterrâneo, segundo O Tupi na Geografia Nacional de Teodoro Sampaio), a convite da Presidente da OAB local, a dinâmica, inteligente e culta advogada e professora de Direitos Humanos, Leonellea Pereira, para falar sobre a Consciência Negra e o polímata Teodoro Fernandes Sampaio(1855-1937), nascido em Santo Amaro, Bahia, o mais notável engenheiro brasileiro, filho da escrava Domingas com o padre Manoel Fernandes Sampaio.

Foi unânime a compreensão geral de que, sem a esmerada educação que recebeu, Teodoro Sampaio teria sido, apenas, mais um escravo forro, graças à sua nata inteligência, sem qualquer distinção que lhe assegurasse lugar de destaque na posteridade. Todos ficaram sabendo, também, que o heroico e guerreiro Zumbi, morto a 20 de novembro de 1695, foi uma criação ideológica do anarquista Astrogildo Pereira (1890-1965), um dos fundadores do Partido Comunista, em 1922,  com o propósito de fazer crer na falsa noção de que é nato o impulso humano pela igualdade.

Depois de breve escorço histórico, esclarecemos que a escravidão é a mais antiga instituição humana que substituiu o completo aniquilamento dos vitoriosos sobre os vencidos nas batalhas tribais, bem como o fato de que a escravização de africanos foi a última etapa do processo escravagista, coincidentemente o único em que senhores e escravos se distinguiam pela cor da pele. O auditório franziu o cenho quando ouviu que, segundo Laurentino Gomes, em sua trilogia sobre a Escravidão, há, na atualidade, cerca de quarenta milhões de pessoas escravizadas, mundo afora, inclusive no Brasil, maior contingente de todos os tempos, em números absolutos. Decidimos omitir, para não chocar, que a escravidão foi algo tão natural, desde tempos imemoriais, a ponto de Abrahão, Buda, Confúcio, Jesus e Maomé terem tido escravos, como o tiveram Castro Alves e Ruy Barbosa, aproveitando para condenar, como anacronismo, o pecado sociológico de julgar uma época pelos valores de outra. Destacamos, ainda, nomes de pessoas negras que foram e têm sido exponenciais em seus domínios, postos de lado para dar lugar a condenáveis episódios que são exceção e não a regra, como se pretende, com o propósito de ampliar as tensões sociais, como fator de disputa eleitoral. É verdade que esse discurso separatista perde força nas regiões mais bem educadas, prosperando em espaços onde se praticam os mais baixos níveis educacionais do País, a exemplo do Norte e Nordeste.

Mencionamos nomes de negros exponenciais da sociedade brasileira, aqui elencados por ordem cronológica de nascimento, a exemplo do Aleijadinho(1738-1814); Mestre Valentim (1745-1813);  Padre José Maurício (1767-1830); Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882); Gonçalves Dias (1823-1864); André Rebouças(1838-1898); Tobias Barreto (1839-1889); Machado de Assis (1839-1908); Manuel Querino (1851-1923; José do Patrocínio (1853-1905); O poeta simbolista Cruz e Souza (1861-1898); Psiquiatra Juliano Moreira (1872-1933); Romancista Lima Barreto; (1881-1922). Pixinguinha- Alfredo da Rocha Viana Filho (1897-1975); Cartola – Angenor de Oliveira (1908-1980); Abdias do Nascimento (1914-2011); Carolina (Maria) de Jesus (1914-1977); Dorival Caymmi (1914-2008); Grande Otelo (Sebastião Bernardes de Souza Prata) 1915-1993); Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982); Milton Santos (1926-2001) ; Elza Soares (1930-2022); Edvaldo Britto (1937- ). Pelé (1940-2022); Gilberto Gil(1942- ); Milton Nascimento (1942- ); Glória Maria (1949-2023), e muitos mais.

A ênfase, porém, dos populistas que usam a negritude com propósitos exclusivamente eleitorais é nas tensões, nos conflitos, no quanto pior melhor. Nunca põem o dedo na ferida para dizer que o único caminho para extinguir a vinculação da  negritude com as carências sociais é o acesso universal a educação de qualidade, para que o negro possa competir na sociedade do conhecimento em que estamos imersos.

O populismo irresponsável que reina no Brasil de nossos dias tem horror ao ouvir que a educação é o caminho mais curto entre a pobreza e a prosperidade; o atraso e o desenvolvimento; o estado de barbárie em que nos encontramos e a sociedade próspera e feliz que desejamos.

O primeiro grande passo da Consciência Negra reside no rompimento com os  que a usam como massa de manobra para conquistar o poder.

*Joaci Góes, advogado, jornalista, empresário, ex-deputado federal constituinte e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB).


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