A Ordem do Capital desvenda origens intelectuais da austeridade e ascensão do fascismo; Livro de Clara Mattei é elogiado por Thomas Piketty

Sexta-feira, 16/02/2024 — No livro A Ordem do Capital: Como Economistas Inventaram a Austeridade e Abriram Caminho Para o Fascismo, a economista Clara E. Mattei, professora da The New School for Social Research, propõe uma leitura crítica das políticas econômicas de austeridade, situando-as como um instrumento de reprodução das estruturas de poder do capitalismo industrial moderno. Lançada em 2023, a obra baseia-se em ampla pesquisa arquivística e em fundamentos teóricos da economia política heterodoxa, articulando contribuições do marxismo, da história econômica e da sociologia crítica.

Fundamentação teórica: economia como ideologia

Ao longo do livro, Mattei rejeita a separação tradicional entre ciência econômica e política, defendendo que as políticas de austeridade são manifestações concretas de um projeto ideológico. A autora se apoia na crítica marxista da economia política e em autores como Antonio Gramsci, Michel Foucault e Karl Polanyi para sustentar que a austeridade atua como uma tecnologia de poder, moldando subjetividades, comportamentos e relações sociais.

No plano teórico, Mattei argumenta que a austeridade não é uma resposta técnica a desequilíbrios fiscais, mas uma “ordem de valor” que prioriza a estabilidade dos mercados e a segurança dos investimentos privados em detrimento dos direitos sociais e da soberania popular. Esse arcabouço conceitual insere a obra na tradição da crítica à racionalidade neoliberal e à fetichização da neutralidade econômica.

Austeridade como forma de governamentalidade

Inspirando-se também em Foucault, especialmente no conceito de “governamentalidade”, Mattei identifica na austeridade uma forma de disciplina social: ela impõe limites às demandas populares por redistribuição e legitima o sofrimento das classes subalternas como preço necessário à “ordem”. Assim, o que se apresenta como política fiscal é, na verdade, um modo de governar corpos, expectativas e afetos, promovendo a docilização da força de trabalho e a desmobilização de movimentos sociais.

Além disso, a autora examina como a linguagem técnica da economia – deficit público, equilíbrio fiscal, produtividade – funciona como linguagem de exclusão política, ao retirar das massas o direito de contestar as políticas que as afetam diretamente. O tecnocratismo, nesse sentido, é apresentado como um dispositivo de despolitização deliberada da economia.

Crítica à neutralidade da ciência econômica

Mattei também dirige severa crítica ao papel dos economistas como produtores de consensos ideológicos. A partir de exemplos históricos da Grã-Bretanha e da Itália no entreguerras, demonstra como teóricos da economia pública, finanças e contabilidade atuaram como arquitetos de reformas regressivas, ao fornecerem argumentos aparentemente racionais para cortes em salários, previdência e investimentos públicos, consolidando a ordem do capital.

A autora propõe, portanto, uma revisão epistemológica da economia, sustentando que o discurso da austeridade está enraizado em escolhas políticas que privilegiam a manutenção da hierarquia social e da acumulação de capital. Para Mattei, reconhecer essa dimensão ideológica é o primeiro passo para construir alternativas que articulem justiça social e soberania democrática.

Austeridade e autoritarismo: uma relação estrutural

Diferentemente da interpretação comum que associa a ascensão do fascismo ao colapso econômico ou à crise da democracia liberal, Mattei sustenta que a austeridade preparou politicamente o caminho para o autoritarismo, ao desorganizar o tecido social e enfraquecer os mecanismos de proteção coletiva. No caso italiano, evidencia como as reformas econômicas anteriores ao advento do fascismo já haviam desmantelado conquistas sindicais, reprimido greves e criminalizado a mobilização popular — criando um vácuo político que foi rapidamente ocupado por Mussolini.

A autora demonstra ainda que a austeridade tem efeitos políticos duradouros, pois desloca o eixo da decisão pública do campo democrático para o campo tecnocrático, dificultando o debate sobre alternativas econômicas e fortalecendo regimes que se apresentam como “necessários”, mesmo quando são excludentes e autoritários.


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