O Foro Privilegiado | Por Luiz Holanda

Foro privilegiado -ou foro especial por prerrogativa de função-, é um mecanismo jurídico pelo qual determinadas autoridades são julgadas apenas por tribunais superiores. O julgamento se dá por crime comuns ou de responsabilidade, e o objetivo é impedir que essas autoridades sejam acionadas em qualquer instância no exercício de suas funções. No Brasil, os privilegiados chegam a 60 mil.

Os tribunais competentes para julgar essas autoridades são o Supremo Tribunal Federal, o Superior Tribunal de Justiça, os Tribunais de Justiça Estadual e os Tribunais Regionais Federais. Teoricamente, a função do foro especial é proteger as pessoas que ocupam uma importante função em determinados cargos públicos. Esse direito é garantido pela Constituição Federal. No STF são julgados o presidente da República, o vice-presidente, ministros de Estado, senadores, deputados federais, integrantes dos tribunais superiores, do Tribunal de contas da União e os embaixadores. As outras autoridades são julgadas pelos demais tribunais superiores, de acordo com a CF/88.

Nos Estados Unidos, o presidente só é julgado pelo Senado no impeachment. De resto, vai tudo para a primeira instância.  Na Itália, com exceção do presidente, todas as autoridades são submetidas à Justiça comum. Na Alemanha, a mais alta corte do país julga o impeachment do presidente. Não há privilégios para congressistas. Na Inglaterra os parlamentares não têm foro privilegiado. Aqui, o foro privilegiado atinge 60 mil, sendo que o os dos deputados federais e senadores se aplica aos crimes que tenham acontecido durante o mandato, assim mesmo aos que tenham alguma relação com a função que eles desempenham enquanto membros do Poder Legislativo. A grande quantidade das autoridades privilegiadas contribui para atrasar os trabalhos dos tribunais superiores.

Considerando as críticas quanto ao exagero na quantidade de pessoas com foro privilegiado, o STF resolveu analisar uma proposta para restringir o alcance do foro, que, segundo o relator, só devem ser julgados pela corte os deputados e senadores que cometerem crimes durante e em razão do cargo ou mandato. O ministro Luís Roberto Barroso considerou que os políticos que têm direito ao foro privilegiado só devem ser julgados pelo STF se os crimes imputados a eles ocorrerem durante e em razão do cargo ou mandato. Outras tentativas de mudanças foram consideradas, porém, sem sucesso.

Agora, mais uma está sendo feita para os políticos. Até o momento o placar está 5 a 0 pela sua ampliação. O julgamento vai atingir deputados e senadores que respondem a processo na Corte. A tese é do ministro Gilmar Mendes, relator do caso. Por ela, o foro de um político fica mantido se o crime tiver sido cometido durante o exercício da função de parlamentar. Contudo, no caso de renúncia, não reeleição ou cassação, o processo será mantido no STF.

A Corte julga um habeas Corpus impetrado pelo senador Zequinha Marinho, do Podemos do Pará, acusado de fazer “rachadinha” com funcionários do seu gabinete quando ele era deputado federal, em 2013. O processo foi transferido para a justiça comum depois que o privilegiado foi eleito vice-governador do seu estado.   Registre-se que o Senado aprovou, por unanimidade, a PEC 233/2017, propondo o fim do foro privilegiado. A proposta está há seis anos na Câmara dos Deputados, aguardando tramitação. Entretanto, tudo indica que vai prevalecer a interpretação do ministro Gilmar Mendes. Acabar não vai, pois, como disse Herbert Alexandre Galdino, “Foro privilegiado é o mecanismo de racionalização de impunidade, que foi criado pelos políticos desta nação”.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading