A Venezuela enfrenta uma crescente crise política e social após o anúncio da reeleição de Nicolás Maduro como presidente, em pleito realizado no domingo (29). A notícia, divulgada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na última segunda-feira (30/07/2024), desencadeou uma onda de protestos em várias regiões do país, em especial na capital, Caracas, onde as manifestações têm sido marcadas por confrontos entre civis e forças de segurança.
De acordo com a ONG Fórum Penal, ao menos onze pessoas morreram em decorrência dos protestos, sendo a maioria das vítimas na capital venezuelana. Além disso, a Pesquisa Nacional de Hospitais registrou mais de 84 feridos, enquanto o Procurador Geral da Venezuela, Tarek William Saab, informou que 749 pessoas foram presas durante as manifestações.
Diosdado Cabello, uma das principais figuras do chavismo, confirmou nesta terça-feira (30) a prisão de dez opositores, incluindo Freddy Superlano, sob acusações de envolvimento em “atos de violência”. Superlano, líder do partido opositor Vontade Popular, foi detido em sua residência por forças de segurança sem a apresentação de um mandado judicial, e seu paradeiro permanece desconhecido. O partido classificou a detenção como sequestro, alegando que Superlano está sendo torturado para incriminar a opositora María Corina Machado.
Em resposta aos protestos, Nicolás Maduro anunciou que mobilizará militares para patrulhar as ruas do país, com o objetivo declarado de “restituir a paz”. Durante uma reunião com seus partidários no Palácio de Miraflores, Maduro também anunciou o lançamento de um aplicativo para que a população possa denunciar manifestantes, ampliando o controle estatal sobre as ações de dissidência.
A situação no país agrava-se com o temor de uma nova crise de desabastecimento. Na terça-feira (30), filas se formaram em supermercados e postos de gasolina em Caracas, enquanto no interior do país, a população sofre com cortes de eletricidade e problemas de conexão à internet, que dificultam o acesso a informações e mantêm os moradores isolados.
A legitimidade do processo eleitoral tem sido amplamente contestada, tanto internamente quanto pela comunidade internacional. A ausência da divulgação das atas de votação pelo CNE é uma das principais críticas, levando observadores internacionais a deixarem o país. O Centro Carter, uma das organizações responsáveis pela observação eleitoral, retirou seus 17 analistas da Venezuela e decidiu não publicar o relatório parcial sobre o processo, em uma demonstração de descontentamento com a falta de transparência.
Celso Amorim, assessor especial da presidência do Brasil, também deixou a Venezuela, retornando a Brasília nesta terça-feira. A saída de observadores ocorre em meio a um ambiente de crescente repressão. Maduro ordenou a expulsão dos embaixadores de Argentina, Chile, Costa Rica, Peru, Panamá, República Dominicana e Uruguai, países que se posicionaram contra a condução do processo eleitoral.
A escalada de tensões inclui um pedido formal de prisão para María Corina Machado e Edmundo González, feito por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, durante uma sessão parlamentar. Rodríguez acusa os opositores de conspirarem contra o governo, classificando suas ações como uma “conspiração fascista” contra as eleições presidenciais. Diosdado Cabello, vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), declarou que os partidários do chavismo estão em “modo de combate” para enfrentar os manifestantes.
Nas próximas horas, são esperadas novas prisões de opositores e manifestantes, à medida que o governo intensifica suas medidas para conter os protestos. María Corina Machado, que recebeu uma oferta de asilo político da Costa Rica, afirmou que permanecerá no país para “lutar com o povo”, mesmo diante da possibilidade de prisão iminente.
No cenário internacional, ao menos quinze países, incluindo o Brasil, solicitaram uma contagem transparente dos votos. A Organização dos Estados Americanos (OEA) denunciou o que chamou de “aberrante manipulação” das eleições, afirmando que o processo ocorreu sem garantias de lisura. A União Europeia também expressou preocupação com a falta de verificação dos resultados e a ONU criticou o uso excessivo da força contra os manifestantes.
Enquanto isso, alguns países como China, Rússia, Bolívia, Cuba e Nicarágua, além do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, reconheceram a reeleição de Nicolás Maduro. O Peru, por sua vez, reconheceu Edmundo González como presidente eleito, posição que foi apoiada pelos Estados Unidos, cujo presidente Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris afirmaram que “a vontade do povo venezuelano deve ser respeitada”.
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