A crescente incidência de casos de mpox na República Democrática do Congo (RDC) tem chamado a atenção de autoridades sanitárias globais. Segundo informações da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), a situação se deteriorou nos últimos meses, principalmente devido a uma mutação do vírus que ampliou a transmissão entre humanos. Esse cenário preocupante levou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, a considerar a convocação de um comitê de emergência para avaliar se o surto deve ser declarado uma emergência de saúde pública de interesse internacional.
A mpox, doença viral zoonótica, é endêmica na África Central e na África Ocidental desde a década de 1970, com duas variantes principais. O surto atual na RDC se agravou nos últimos dois anos, com um aumento substancial de infecções a partir de 2022. Em 2023, o país registrou 14,6 mil casos notificados e 654 mortes. Entre janeiro e julho de 2024, mais de 12,3 mil casos suspeitos foram relatados em 23 das 26 províncias do país, o que levou as autoridades a declararem epidemia em dezembro de 2022.
A MSF destacou que a mutação do vírus, identificada na província de Kivu do Sul, tem permitido a transmissão sustentada de humano para humano, algo que não havia sido observado anteriormente na cepa da Bacia do Congo. Esse comportamento é semelhante ao da cepa da África Ocidental, que causou uma epidemia global em 2022, afetando mais de 110 países.
A variante identificada na RDC apresenta uma letalidade elevada, particularmente entre crianças pequenas, com taxas de mortalidade superiores a 10%. Em contraste, a cepa que desencadeou a epidemia global em 2022 teve uma taxa de letalidade inferior a 1%. Em junho de 2023, a OMS alertou sobre o perigo representado pela nova variante, à medida que o número de infecções continuava a crescer, somando mais de 95 mil casos confirmados em 117 países e mais de 200 mortes.
Além da mutação e da alta letalidade, outro fator que agrava a situação na RDC é a disseminação da doença em acampamentos de pessoas deslocadas, especialmente na região de Kivu do Norte. Esses acampamentos, que abrigam pessoas que fugiram de conflitos internos, apresentam alta densidade populacional, o que facilita a propagação do vírus. A MSF expressou preocupação com o potencial de agravamento da epidemia, dado o fluxo contínuo de pessoas deslocadas e a falta de condições adequadas de controle da doença nos acampamentos.
A situação é exacerbada pela escassez de vacinas contra a mpox na RDC. Embora o país tenha validado ao menos duas vacinas, as doses ainda não estão disponíveis. A MSF afirmou que negociações estão em andamento para a obtenção das vacinas e que as áreas prioritárias estão sendo identificadas para uma eventual campanha de vacinação. Enquanto isso, a organização destaca a necessidade de apoio internacional para outros aspectos da resposta, como vigilância epidemiológica, análise laboratorial, isolamento de casos e campanhas de conscientização.
A mpox, também conhecida como varíola dos macacos, é transmitida para humanos através do contato com animais infectados, pessoas contaminadas ou materiais contaminados. Os sintomas incluem erupções cutâneas, linfonodos inchados, febre, dores no corpo, dor de cabeça e fraqueza. As lesões cutâneas podem se espalhar por todo o corpo e, em casos graves, a doença pode ser fatal, especialmente quando não tratada adequadamente.
A OMS já havia declarado, em maio de 2023, que a mpox não configurava mais uma emergência de saúde pública de importância internacional, após um surto global que começou em 2022. Contudo, a escalada recente de casos na África Central, especialmente na RDC, pode levar a uma reavaliação dessa decisão. Tedros Adhanom ressaltou que, apesar do fim do status de emergência global, a mpox continua a representar desafios significativos para a saúde pública, especialmente em regiões com alta vulnerabilidade como a África Central.
*Com informações da Agência Brasil.








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