A trajetória de Feira de Santana está profundamente ligada à presença da Igreja Católica, cuja atuação antecede a própria organização político-administrativa do município. Desde o início do século XVIII, a instituição religiosa exerceu papel central na formação territorial, social e simbólica da região, influenciando decisões administrativas, a ocupação urbana e a consolidação da identidade local.
Origem do catolicismo na região
A presença Igreja Católica em Feira de Santana remonta a 1732, com a construção de uma capela dedicada a Sant’Ana e São Domingos, no então povoado de São José das Itapororocas, atual distrito de Maria Quitéria. Essa capela representou o primeiro núcleo estruturado de religiosidade cristã na região e funcionou como ponto de convergência espiritual e social para a população local.
Ainda vinculada à Vila de Cachoeira, a área que viria a se tornar Feira de Santana passou a se organizar em torno do Arraial de Santana, cuja centralidade religiosa contribuiu decisivamente para o crescimento do povoado. A capela não era apenas espaço de culto, mas também local de reuniões, decisões comunitárias e articulação social.
Em 1832, o arraial foi elevado à condição de Vila de Santana dos Olhos d’Água da Feira, marco jurídico-administrativo que antecedeu a emancipação municipal. No ano seguinte, em 18 de setembro de 1833, a instalação do governo municipal ocorreu dentro da própria capela de Santana, evidenciando a íntima relação entre Igreja e poder público naquele período.
Consolidação da Matriz e fortalecimento institucional
A transferência definitiva da sede paroquial para a Igreja Matriz de Santana, em 1846, consolidou a centralidade religiosa no núcleo urbano em formação. A Matriz passou a exercer influência não apenas espiritual, mas também institucional, acompanhando o crescimento econômico e populacional de Feira de Santana ao longo do século XIX.
No início do século XX, a cidade vivenciou uma série de eventos simbólicos que reforçaram o protagonismo da Igreja. Em 1914, a chamada Festa das Torres celebrou a inauguração das torres da Matriz, marco arquitetônico e religioso. No ano seguinte, foi inaugurado o altar-mor, projetado pelo arquiteto Kalman Linhart, acompanhado de amplas festividades.
Em 1916, a construção de um coreto no entorno da Matriz reforçou o caráter cívico-religioso da área central, integrando práticas culturais e devoções populares. Já em 1932, foi instalado o Altar do Coração de Jesus, ampliando o conjunto simbólico e devocional do templo.
Criação da Diocese e elevação a Arquidiocese
O reconhecimento institucional da importância religiosa de Feira de Santana ocorreu em 1962, com a criação da Diocese de Feira de Santana pelo Papa João XXIII. Na ocasião, Dom Jackson Berenguer Prado foi nomeado primeiro bispo, e a antiga Igreja Matriz foi elevada à condição de Catedral.
Inicialmente, a Diocese foi organizada em quatro paróquias, número que se ampliou progressivamente em resposta ao crescimento urbano e populacional do município e da região. Em 1973, Dom Silvério Albuquerque assumiu o episcopado, dando continuidade ao processo de expansão pastoral e administrativa.
Em 1995, a Diocese passou a ser conduzida por Dom Itamar Vian, terceiro bispo da instituição. Sua gestão culminou em um marco decisivo: em 16 de janeiro de 2002, a Diocese foi elevada à Arquidiocese de Feira de Santana, conferindo maior autonomia e protagonismo regional à Igreja local. Dom Itamar tornou-se, assim, o primeiro arcebispo da cidade.
Atualmente, a Arquidiocese é conduzida por Dom Zanoni Demettino Castro, que ocupa o cargo de arcebispo metropolitano e lidera a instituição em um contexto de desafios pastorais, sociais e culturais contemporâneos.
Igreja, poder e identidade urbana
A história de Feira de Santana revela uma simbiose clara entre Igreja Católica e formação institucional do município. Desde a instalação do governo municipal em uma capela até a elevação à condição de Arquidiocese, a presença religiosa não foi periférica, mas estrutural no processo de organização social e política local.
Esse protagonismo também evidencia como, ao longo do tempo, a Igreja funcionou como mediadora entre poder público, sociedade civil e cultura, especialmente em períodos em que o Estado possuía estrutura limitada. Ao mesmo tempo, a centralidade religiosa moldou o espaço urbano, os rituais públicos e a memória coletiva da cidade.
No contexto atual, a Arquidiocese herda um legado histórico robusto, mas enfrenta o desafio de dialogar com uma sociedade plural, urbanizada e marcada por transformações sociais profundas. A compreensão desse percurso histórico é fundamental para interpretar o papel institucional da Igreja em Feira de Santana no presente.
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