O artigo intitulado “Pedaladas do Atraso”, escrito por Joaci Góes e publicado em 29 de agosto de 2024 no Jornal Tribuna da Bahia, oferece uma análise contundente sobre a administração pública brasileira e seus impactos na evolução do país. Góes, através de reflexões e leituras acumuladas ao longo do tempo, levanta questões fundamentais sobre a trajetória histórica do Brasil, destacando o contraste entre as potencialidades do país e a realidade vivida pela população.
O escritor, pesquisador presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), inicia sua análise observando a ausência de guerras entre democracias ao longo da história, enfatizando que os conflitos ocorrem quando pelo menos um dos lados é governado por uma ditadura. Ele estende essa lógica ao comportamento humano, sugerindo que disputas entre indivíduos só acontecem quando há intolerância de uma das partes.
A partir dessa premissa, o autor desenvolve seu segundo ponto, afirmando que até a Revolução Americana de 1776, todos os governos do mundo, independentemente da época ou localização, poderiam ser classificados como regimes fascistas. Embora o termo tenha sido cunhado apenas no início do século XX, a essência de tais governos sempre esteve presente, segundo Góes.
O cerne do artigo, contudo, está na terceira reflexão de Góes, onde ele argumenta que o Brasil tem sido historicamente um dos países mais mal administrados do mundo. O autor faz uma comparação direta entre o que o país é e o que poderia ser, considerando seu vasto território, população e riquezas naturais. Góes coloca o Brasil em paralelo com países como Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e Austrália, na tentativa de demonstrar como o Brasil, com potencial similar, deveria oferecer uma qualidade de vida de primeiro mundo a seus cidadãos. No entanto, ele destaca que o Brasil, em alguns momentos, conseguiu taxas expressivas de desenvolvimento econômico, mas que, na prática, ainda fica atrás até mesmo do Haiti, o país mais pobre das Américas.
O autor ressalta que a Sociedade do Conhecimento, na qual o mundo moderno está imerso, estabelece uma relação direta entre a qualidade da educação e o desenvolvimento das nações. Nessa perspectiva, Góes critica a situação do Brasil, que, segundo ele, se encontra entre os últimos colocados entre os países com maior renda per capita quando o assunto é educação. Ele aponta para a predominância da preparação ideológica dos jovens sobre o desenvolvimento acadêmico, caracterizando isso como um fator que compromete o futuro do país. Góes critica a política partidária brasileira, onde, segundo ele, a manutenção do poder a qualquer custo se tornou o critério predominante, com poucas exceções que não alteram a regra geral.
O desdobramento dessa situação, conforme descrito por Góes, é o que se observa nos dias atuais: um cenário onde cada um dos três poderes da República atua em defesa de seus próprios interesses, impedindo que o Brasil atinja um estágio de desenvolvimento compatível com suas possibilidades. Ele menciona a obra “Brasil, País do Futuro”, de Stefan Zweig, como um presságio malfadado do que o país poderia ter se tornado, mas que, na prática, ainda não se concretizou.
Góes critica duramente o governo atual, começando pelo Presidente da República, a quem acusa de proferir declarações historicamente incorretas, gerando perplexidade e indignação entre sua própria equipe. Ele também aponta o protagonismo do Judiciário, que, segundo ele, subverte princípios constitucionais ao aplicar penas severas, como as de 17 anos em regime fechado para participantes de um protesto político que resultou em vandalismo, com a conivência das autoridades. Para o autor, esses eventos serão registrados na história como um momento de vergonha para o Judiciário brasileiro, com membros da própria instituição exigindo reconhecimento por terem colocado o atual presidente no poder. Góes acredita que a insatisfação popular, em breve, exigirá uma anistia geral.
O Legislativo também é alvo de críticas, com Góes argumentando que os parlamentares se aproveitam da fraqueza do Poder Executivo para aprovar emendas orçamentárias de forma oportunista, muitas vezes com destinos questionáveis.
Por fim, Góes menciona o embaraço internacional enfrentado pelo Brasil, com seus governantes hesitantes em reconhecer Nicolás Maduro como um “bandido internacional”. Essa hesitação, segundo o autor, contribui para o descrédito do país no cenário global, reforçando a imagem de uma nação mal administrada e desorientada em suas relações internacionais.
Conclusão
O artigo “Pedaladas do Atraso” de Joaci Góes oferece uma análise profunda e crítica sobre a trajetória histórica e a atual crise de governança no Brasil. Através de comparações internacionais e reflexões sobre as estruturas de poder, Góes denuncia a má administração que, segundo ele, impede o país de alcançar seu verdadeiro potencial. O autor finaliza com um alerta sobre as possíveis consequências dessa deterioração institucional, sugerindo que o Brasil pode estar à beira de um novo ciclo de instabilidade.
*Joaci Góes, advogado, jornalista, escritor, empresário e político brasileiro, nascido em Ipirá, Bahia, em 1938, preside o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), mais antiga e uma das mais importantes instituições culturais do estado, com sede em Salvador.
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