BRICS é chave contra guerra de sanções que tenta estrangular o Sul Global, diz analista após cúpula

Na conclusão da Cúpula do BRICS em Kazan, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, reafirmou o compromisso do grupo em promover uma ordem mundial mais democrática e multipolar. O evento, que ocorreu entre os dias 22 e 23 de outubro de 2024, foi considerado um marco na história do BRICS, pois representou a primeira reunião de líderes desde a expansão do grupo, que agora inclui Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Arábia Saudita, além dos membros fundadores Brasil, Índia, China e África do Sul.

As discussões centrais da cúpula enfatizaram a necessidade de fortalecer as transações utilizando moedas nacionais e a criação de um sistema de pagamento próprio, em resposta à guerra de sanções imposta pelo Ocidente a países em desenvolvimento. João Cláudio Pitillo, professor de história e pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destacou que a união do Sul Global é fundamental para a resistência a essas sanções e para a construção de um ambiente econômico que permita maior autonomia aos países participantes.

Pitillo analisou as declarações de Putin, afirmando que o foco em moedas nacionais visa garantir segurança financeira e econômica, reduzindo a interferência externa. “Com esses pontos, o presidente Putin mostra que os países na esfera do BRICS tentam alcançar segurança financeira, bancária e econômica, com menos interferência externa”, destacou. A proposta do BRICS não é eliminar outros sistemas comerciais, mas criar interações comerciais mais justas, especialmente para países em desenvolvimento, que frequentemente enfrentam dificuldades devido à predominância do dólar nas transações internacionais.

O professor apontou ainda que a desvalorização das moedas nacionais em relação ao dólar gera uma relação de dependência que impede o desenvolvimento autônomo. “Para os países mais pobres e em desenvolvimento, o dólar acaba sendo uma escravidão e uma forma de mordaça”, afirmou. Ele sugeriu que valorizar as moedas nacionais nas relações comerciais entre os países do BRICS não apenas facilitaria o desenvolvimento, mas também intensificaria o comércio em uma dinâmica de benefício mútuo.

Outro tópico importante abordado por Putin foi a proposta de estender o mandato de Dilma Rousseff à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco do BRICS, reconhecendo o trabalho realizado por ela na instituição. Pitillo enfatizou que o NBD não deve ser comparado a instituições financeiras tradicionais, como o Banco Mundial, uma vez que tem o objetivo de fomentar o desenvolvimento autônomo.

Um ponto de grande expectativa foi a possível inclusão de novos países como parceiros do BRICS, com uma nova categoria de adesão sendo discutida. No entanto, a lista de países que poderão se juntar ao grupo não foi divulgada. Pitillo observou que a inclusão deve considerar não apenas aspectos comerciais, mas também critérios políticos, para que o espírito de cooperação e relações justas prevaleça.

A questão da adesão envolve diretamente o Brasil, especialmente em relação ao interesse da Venezuela em fazer parte do BRICS, um desejo que tem encontrado resistência por parte do governo brasileiro. As tensões nas relações entre Brasília e Caracas aumentaram após a eleição na Venezuela, com a recusa do Brasil em reconhecer a vitória de Nicolás Maduro. Pitillo sugeriu que a Rússia poderia atuar como mediadora nas negociações entre os dois países, uma vez que Maduro tem sido um aliado próximo de Lula.

Putin reiterou que nenhum país será aceito no BRICS sem o consenso de todos os membros atuais, sublinhando a importância de uma adesão que represente um interesse coletivo e não individual. O presidente também comentou a atual situação na Ucrânia, afirmando que a cúpula demonstra o apoio do Sul Global à Rússia, desafiando a narrativa ocidental de isolamento.

As tensões no Oriente Médio também foram abordadas na cúpula, com os líderes do BRICS defendendo uma solução pacífica para o conflito, ressaltando a importância da participação de todos os agentes envolvidos, como o Hamas e o Hezbollah. Putin destacou que a escalada de violência deve ser interrompida e que é crucial que a União Europeia e os Estados Unidos participem ativamente para evitar um agravamento do conflito.

Coletiva de Vladimir Putin aborda os resultados da Cúpula do BRICS em Kazan

Em uma coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (24) em Kazan, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, reuniu mais de 300 jornalistas para discutir os resultados da 16ª Cúpula do BRICS, que ocorreu entre os dias 22 e 24 de outubro. Durante a coletiva, Putin enfatizou os esforços da Rússia para integrar novos membros ao bloco, descrevendo o processo como uma adesão orgânica à “família” do BRICS.

Putin destacou que as atividades da cúpula foram realizadas de maneira aberta e profissional, favorecendo um ambiente de compreensão mútua entre os participantes. O presidente russo anunciou a formulação de uma lista de países que serão considerados parceiros do BRICS na próxima fase de expansão do grupo.

No que diz respeito à agenda global, Putin afirmou que os países do BRICS se comprometeram a promover uma ordem mundial mais democrática e multipolar, além de fortalecer a cooperação no setor financeiro. Ele mencionou a aprovação da Declaração de Kazan, que sintetiza as discussões ocorridas durante a cúpula e expressa o compromisso dos Estados com uma agenda positiva, fundamentada no direito internacional e na Carta da ONU.

Durante a coletiva, a proposta da Rússia de estender a presidência do Brasil no Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), liderado por Dilma Rousseff, foi discutida. Putin argumentou que a continuidade da presidência brasileira é fundamental, especialmente com o Brasil presidindo o G20 neste ano e assumindo a liderança do BRICS no próximo ano.

Quando indagado sobre a nova arquitetura de pagamentos, Putin reafirmou que o foco do BRICS está na utilização das moedas nacionais e que não há planos para a criação de uma moeda comum ou uma alternativa ao sistema SWIFT. Ele mencionou o fortalecimento de sistemas de pagamento locais, como o Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS).

Em relação à crise na Ucrânia, Putin reiterou que todos os membros do BRICS concordam com a necessidade de um término pacífico do conflito. Ele traçou um histórico do início da escalada em 2014, ressaltando o apoio a iniciativas de paz provenientes do Brasil e da China, mas expressou ceticismo quanto à disposição da Ucrânia em aceitar essas propostas.

Putin também abordou a questão do Oriente Médio, afirmando que a resolução do conflito na região requer a eliminação das causas subjacentes, particularmente a ausência de um Estado palestino. Ele destacou a importância de manter diálogo com todos os envolvidos e afirmou que a escalada do conflito deve ser evitada.

No que se refere à relação da Rússia com os países ocidentais, Putin refutou a ideia de que a Rússia esteja isolada, lembrando que há sinais de países ocidentais em busca de contato. Ele enfatizou a autossuficiência da Rússia e a intenção de resolver seus problemas de forma independente.

Finalmente, ao discutir as relações com a República Popular Democrática da Coreia, Putin afirmou que, embora exista um tratado de cooperação estratégica, ainda não foram discutidos detalhes sobre auxílio militar em caso de conflito. Ele expressou confiança na liderança norte-coreana em relação aos acordos firmados.

*Com informações da Sputnik News.


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