As eleições presidenciais nos Estados Unidos, marcadas para 5 de novembro de 2024, apresentam um cenário crucial para o Brasil, que mantém uma relação comercial significativa com a maior economia do mundo. O país norte-americano é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, e as políticas adotadas por seus futuros líderes podem influenciar diretamente os fluxos internacionais de investimentos, bem como as taxas de juros e de câmbio. Os principais candidatos são Kamala Harris, atual vice-presidente e representante do Partido Democrata, e Donald Trump, ex-presidente e candidato do Partido Republicano.
Ambos os candidatos apresentam propostas de estímulo à atividade econômica, embora suas abordagens sejam distintas. Kamala Harris visa a implementação de gastos públicos com foco em transferências de renda e incentivos a setores como inovação e sustentabilidade. Em contrapartida, Donald Trump propõe cortes de impostos para beneficiar as empresas. A divergência mais notável entre os dois reside na postura protecionista de Trump, que planeja a imposição de tarifas elevadas sobre produtos importados, especialmente da China, onde taxas que poderiam chegar a 60% são cogitadas.
Luís Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, alerta para as consequências que as políticas de Trump podem trazer ao Brasil. Ele argumenta que o crescimento da economia chinesa é um fator determinante que pode afetar em até dois pontos percentuais o crescimento de países emergentes que dependem da exportação de commodities. Assim, Leal considera que a candidatura de Kamala Harris apresenta um cenário mais favorável para o Brasil.
Em termos de comércio bilateral, a situação é complexa. Os Estados Unidos são um dos principais destinos das exportações brasileiras, que incluem produtos industrializados, como aço e laminados, que já enfrentaram aumentos de tarifas durante o primeiro mandato de Trump. Um eventual aumento de tarifas focado na China pode abrir espaço para o Brasil expandir sua participação no mercado americano, atualmente limitada a 1,2% do total. Em 2023, a corrente de comércio entre os dois países alcançou quase US$ 75 bilhões, representando uma fração das transações comerciais dos Estados Unidos, que ultrapassam US$ 7 trilhões.
William Castro Alves, estrategista-chefe da corretora Avenue, ressalta que, apesar da discussão sobre a relevância de Trump ou Harris para a economia brasileira, o Brasil não está entre as prioridades dos Estados Unidos. O foco da política externa americana permanece voltado para países como China, Europa, México e Canadá. O Brasil exporta principalmente matérias-primas, como petróleo bruto, ferro, café e celulose, e importa produtos industriais dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos têm sido o principal investidor estrangeiro no Brasil, respondendo por um quarto do total de investimentos estrangeiros diretos no país. Uma vitória de Harris pode manter essa situação, embora a incerteza sobre a sua postura em relação à economia permaneça. A relação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Joe Biden pode influenciar positivamente o ambiente comercial entre os dois países.
A possibilidade de uma vitória de Trump gera incertezas nos mercados financeiros. A desvalorização do dólar em um cenário de incerteza pode beneficiar o Brasil, enquanto uma implementação de políticas de desregulamentação e redução de impostos poderia atrair mais capital externo para os Estados Unidos. Leal observa que as políticas protecionistas e o endurecimento no combate à imigração poderiam gerar inflação, impactando negativamente a economia brasileira.
A volatilidade baixa das bolsas de valores americanas nas semanas que antecedem a eleição sugere que os mercados financeiros já assimilam a possibilidade de vitória de ambos os candidatos. A experiência do primeiro governo Trump demonstrou que a concretização de promessas políticas não é simples, especialmente na ausência de apoio do Congresso. A atual calmaria nos mercados pode indicar um ajuste às incertezas inerentes ao processo eleitoral.
*Com informações da RFI.
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