Mais de 1 milhão de pessoas no Líbano foram deslocadas em consequência de ataques aéreos israelenses contínuos em várias regiões do país. Na madrugada de segunda-feira (30/09/2024), um novo ataque foi relatado em uma área residencial no centro da capital, Beirute, o que elevou os temores de uma invasão em grande escala por parte das forças israelenses.
Entre as vítimas dos recentes bombardeios, destaca-se o caso de Selena al Smarah, de seis anos, que foi morta juntamente com seus pais em sua residência na cidade de Tiro, no sábado. Sua irmã, Celine, de 10 anos, sobreviveu, mas sofreu ferimentos durante o ataque. As irmãs frequentavam uma oficina de artes, promovida pela ONG Association for Arts, que possui centros em Tiro e Trípoli, no norte do Líbano. Imagens capturadas um dia antes do ataque mostram Selena sorrindo e segurando um desenho que fez na oficina. Em um vídeo, Celine descreve como as aulas de artes a animam e a possibilitam o reencontro com amigos.
Kassem Istanbouli, ator e diretor que lidera o grupo de voluntários da ONG, afirmou que as atividades continuarão em apoio às crianças e jovens durante o conflito, sem previsão de término. O foco da organização é promover a educação artística em áreas marginalizadas e fortalecer os laços entre comunidades divididas. Em 2023, Istanbouli recebeu o prêmio Sharjah para Cultura Árabe, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em reconhecimento aos seus esforços em engajar os jovens em causas sociais e em reabrir teatros fechados desde a guerra de 2006 entre Israel e o Hezbollah.
Istanbouli relatou que as irmãs frequentavam as oficinas enquanto seus pais vendiam milho doce e feijão em uma barraca próxima ao Teatro Nacional Libanês, em Tiro. Ele destacou que Selena participava diariamente do projeto e demonstrava grande entusiasmo durante as aulas de desenho. O diretor enfatizou que “o mundo deve garantir que haja responsabilização por este crime terrível contra Selena”.
Cerca de 100 mil libaneses deslocados buscaram abrigo na Síria, conforme informações da Agência da ONU para Refugiados (Acnur). O alto comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, declarou que “o fluxo continua” nos pontos de passagem entre a Síria e o Líbano. Grandi também destacou que equipes da Acnur estão posicionadas em quatro pontos de entrada na Síria para oferecer suporte aos recém-chegados.
A escalada do conflito entre as forças israelenses e o grupo armado Hezbollah aumentou dramaticamente na sexta-feira, culminando na morte do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em um ataque. Na segunda-feira, o Hamas anunciou a morte de seu líder no Líbano, Fatah Sherif al-Amin, em um ataque aéreo em um campo de refugiados palestinos, juntamente com sua família.
Agências humanitárias, incluindo a Acnur e a Agência de Assistência aos Refugiados Palestinos (Unrwa), estão prestando ajuda humanitária, com a Unrwa abrindo nove abrigos que acomodam 3.350 pessoas. O porta-voz da Unrwa no Líbano, Fadi El Tayyar, afirmou que a ajuda nos abrigos é prestada “de forma imparcial e sem discriminação”, atendendo a refugiados palestinos, libaneses e sírios.
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) relatou que 90% dos deslocados deixaram suas casas apenas na semana passada. A agência observou que o deslocamento atual supera o registrado durante a guerra de 2006, que foi marcada por intensos ataques israelenses e ordens de evacuação de civis. O Ministério da Saúde do Líbano contabilizou 105 mortos devido aos ataques israelenses desde o domingo.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) iniciou uma operação de emergência para fornecer assistência alimentar a até 1 milhão de pessoas afetadas pela recente escalada do conflito no Líbano.
Itamaraty solicita cessar-fogo no Líbano diante de operações militares israelenses
O governo brasileiro manifestou grave preocupação em relação às operações militares terrestres das Forças Armadas de Israel em território libanês. Em uma nota oficial, o Palácio Itamaraty mencionou a violação do direito internacional, da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) e de resoluções do Conselho de Segurança da entidade. A nota destaca que o Brasil reafirma a defesa do pleno respeito à soberania e à integridade territorial do Líbano, instando Israel a interromper imediatamente as incursões terrestres e os ataques aéreos a áreas civis densamente povoadas. O governo brasileiro também renovou o apelo a todas as partes envolvidas para que exerçam máxima contenção e busquem um cessar-fogo permanente e abrangente com a máxima urgência.
Desde o dia 17 do mês passado, os ataques aéreos israelenses a diversas regiões do Líbano resultaram na morte de mais de mil pessoas, incluindo dois adolescentes brasileiros e seus pais, além de um número significativo de feridos. A situação em Beirute, a capital do Líbano, foi descrita como tensa e alarmante por brasileiros presentes na região, que relataram um risco elevado de guerra total.
O Itamaraty informou que a Embaixada do Brasil em Beirute continua a monitorar a situação dos brasileiros no Líbano, mantendo contato permanente com cidadãos e prestando assistência consular emergencial. O governo brasileiro reiterou o alerta para que todos deixem as áreas de conflito, sigam as orientações de segurança das autoridades locais e, para aqueles que dispõem de recursos, procurem deixar o território libanês por meios próprios. O aeroporto de Beirute permanece em operação para voos comerciais.
Na manhã desta quarta-feira (2), foi anunciado que um voo da Força Aérea Brasileira (FAB) partirá da Base Aérea do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, rumo ao Líbano para repatriar um primeiro grupo de brasileiros que se encontram no país devido à escalada de violência. A operação, autorizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, visa a repatriação de cidadãos brasileiros do exterior “em todo lugar que for preciso”. O presidente lamentou o comportamento do governo de Israel ao realizar ataques em solo libanês.
Intitulada Operação Raízes do Cedro, a ação contará com uma aeronave KC-30 da FAB, com previsão inicial de repatriar 220 brasileiros a partir do aeroporto de Beirute. O voo fará escalas para reabastecimento em Lisboa, tanto na ida quanto na volta. Embora outros voos ainda não tenham sido confirmados, espera-se que ocorram ao longo dos próximos dias. A maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio atualmente reside no Líbano, com um total de 21 mil brasileiros vivendo no país.
*Com informações da Agência Brasil e ONU News.








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