Ruchir Sharma é um investidor veterano, autor de diversos livros e analista econômico reconhecido mundialmente. Nascido na Índia, onde sua vivência em um ambiente de economia planejada e restrita moldou sua visão sobre o capitalismo, Sharma mais tarde estabeleceu-se como um dos analistas mais influentes de Wall Street. Sua carreira é marcada pela busca de padrões econômicos globais, a identificação de potências emergentes e uma leitura crítica das estruturas econômicas modernas. No novo livro, “O que deu errado com o capitalismo?”, Sharma explora as causas da deterioração do sistema capitalista, suas distorções contemporâneas e as possíveis soluções para um capitalismo mais inclusivo e produtivo.
Trajetória e Formação
Nascido nas décadas de 1970 e 1980 em uma Índia marcada por políticas econômicas socialistas, Sharma desenvolveu desde cedo uma visão crítica sobre modelos de restrição econômica e a centralização estatal. Essa experiência moldou seu desejo de conhecer alternativas, levando-o a estudar as economias de mercado da Ásia e do Ocidente. Sua mudança para Cingapura foi um ponto de inflexão: lá, testemunhou o impacto da liberdade econômica e do crescimento impulsionado pelo mercado, o que consolidou seu interesse em estudar o capitalismo sob uma perspectiva internacional.
Ao estabelecer-se nos Estados Unidos, Sharma ingressou no universo financeiro de Wall Street, onde trabalhou para grandes empresas financeiras e ganhou notoriedade como analista de mercados emergentes. Essa trajetória permitiu que ele adquirisse uma visão abrangente da economia global e do papel central de Wall Street na formação de tendências e políticas econômicas.
Carreira em Wall Street e Rockefeller Capital Management
Ruchir Sharma iniciou sua educação em Mumbai, Delhi e Cingapura, cursando graduação no Shri Ram College of Commerce em Nova Delhi. Após seus estudos, ele ingressou em uma empresa de negociação de valores mobiliários e, em 1991, lançou uma coluna intitulada For Ex, primeiramente para o The Observer e, posteriormente, para o The Economic Times of India. Seu trabalho chamou a atenção do Morgan Stanley, que o contratou para seu escritório em Mumbai em 1996. Em 2002, ele transferiu-se para Nova York, onde, em 2003, tornou-se co-diretor da equipe de mercados emergentes da Morgan Stanley Investment Management, avançando para chefe da equipe em 2006. Em 2016, ele assumiu uma função adicional como estrategista global chefe da MSIM e, em novembro de 2021, foi anunciado seu desligamento da empresa, previsto para janeiro de 2022.
Durante sua trajetória em Wall Street, Sharma ocupou posições de destaque em instituições financeiras de renome, firmando-se como uma das principais vozes do setor de investimentos. Sua habilidade em identificar padrões econômicos em mercados variados o levou a publicar obras significativas, como The Rise and Fall of Nations e Breakout Nations: In Pursuit of the Next Economic Miracles, nas quais analisa o crescimento de economias emergentes e as condições que favorecem o surgimento de novas potências econômicas.
Atualmente, ele é presidente da Rockefeller Capital Management, uma das maiores gestoras de patrimônio dos Estados Unidos, e fundador da Breakout Capital, uma empresa de investimentos especializada em mercados emergentes. Sua atuação abrange tanto a análise de investimentos quanto a assessoria estratégica, com ênfase em fatores de longo prazo e tendências globais que influenciam o capitalismo contemporâneo.
Visão Crítica sobre o Capitalismo Moderno
Sharma se destaca por sua visão crítica sobre o capitalismo moderno, questionando o papel das intervenções governamentais e a concentração de riqueza. Em “O que deu errado com o capitalismo?”, ele explora as razões da estagnação econômica e a crescente desigualdade nos países ocidentais. Sharma argumenta que o excesso de intervenções dos bancos centrais, combinado com políticas fiscais amplamente expansivas, tem distorcido o sistema capitalista, favorecendo um número restrito de beneficiários. Ele se preocupa com o fato de que, ao manter empresas improdutivas, o capitalismo perde o potencial de inovação e crescimento sustentável.
Influência Intelectual e Propostas de Reforma
Com uma trajetória marcada por uma leitura pragmática das economias de mercado, Sharma propõe que o capitalismo retorne a seus princípios fundamentais, incentivando a produtividade e a competitividade. Ele defende que o mercado deve se reajustar naturalmente, sem o apoio constante de políticas de resgate e estímulos governamentais. Para ele, o futuro do capitalismo depende de uma abordagem que limite a intervenção estatal, valorize o mercado competitivo e busque uma distribuição econômica mais ampla.
Contribuições Intelectuais e Impacto Global
A obra de Sharma tem influenciado debates econômicos em diversos países, onde especialistas discutem suas observações sobre mercados emergentes e suas críticas ao capitalismo ocidental. Ele contribui frequentemente para veículos internacionais de imprensa e é convidado para palestras sobre economia global e finanças internacionais. Sua visão prática e experiência consolidada fazem dele um consultor estratégico valorizado, tanto por governos quanto pelo setor privado.
Visões Econômicas e Financeiras do Mercado
O primeiro livro de Sharma, Breakout Nations: In Pursuit of the Next Economic Miracles (Norton, 2012), documenta suas viagens por países emergentes, buscando identificar os futuros vencedores e perdedores econômicos. Ele definiu “nações em fuga” como aquelas com potencial de crescimento mais acelerado do que seus pares. O livro tornou-se um best-seller internacional e quebrou recordes de venda de não ficção na Índia.
Em 2012, a revista Foreign Policy reconheceu Sharma como um dos 100 maiores pensadores globais, destacando sua habilidade em revitalizar o debate sobre mercados emergentes. Suas viagens serviram como base para muitas colunas de opinião, que foram publicadas em veículos como The Economic Times, Newsweek International, The Wall Street Journal, entre outros. O estilo de escrita de Sharma combina relatos pessoais e análises econômicas, o que lhe rendeu comparações com figuras como Anthony Bourdain e Warren Buffett.
Sharma atuou como redator colaborador de opinião sobre economia e política global no New York Times de 2016 até o início de 2021 e atualmente contribui como editor colaborador do Financial Times. Seu segundo livro, The Rise and Fall of Nations: Forces of Change in the Post-Crisis World (Norton, 2016), explora os princípios que orientam sua análise sobre as nações em ascensão e em declínio, enfatizando a noção de “impermanência”, ou seja, a dificuldade em sustentar o crescimento econômico.
Análise Crítica dos BRICs e Previsões sobre os Estados Unidos
Em um artigo de 2012 intitulado “BRICs Quebrados”, Sharma argumentou que a prosperidade das economias emergentes observada na década de 2000 era um fenômeno incomum. Ele previu que as expectativas de que os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) rapidamente alcançariam países ricos estavam superestimadas. Ao mesmo tempo, ele defendeu a ideia de que os Estados Unidos poderiam ser a “nação emergente do mundo desenvolvido” se conseguissem lidar com suas crescentes dívidas públicas.
Em 2020, Sharma reiterou suas previsões, afirmando que a participação dos Estados Unidos no PIB global aumentou, restaurando sua reputação como superpotência econômica. Contudo, ele alertou que sinais de complacência e excessos financeiros poderiam comprometer esse crescimento.
Pessimismo em Relação à China
Sharma tem adotado uma postura cautelosa em relação à ascensão da China. Desde seu primeiro livro, ele destacou que tanto as previsões otimistas quanto as pessimistas sobre o crescimento chinês eram exageradas. Fatores como o envelhecimento da população e o aumento das dívidas indicavam uma desaceleração. Apesar disso, ele reconheceu que a China foi capaz de evitar uma crise significativa devido ao crescimento de seu setor de tecnologia.
Reflexões sobre a Índia
No que diz respeito à Índia, Sharma expressou a opinião de que o país tinha a melhor chance entre os BRICs de se destacar, mas com uma probabilidade de sucesso de apenas 50%. Ele argumentou que a Índia deveria adotar uma abordagem mais federalista, permitindo que suas diversas regiões governassem suas economias de maneira mais eficaz. Seu livro Democracy on the Road (2019) reflete suas observações sobre as complexidades políticas e sociais da Índia ao longo de suas viagens.
Principal obra “O que deu errado com o capitalismo (edição em inglês)”
O autor e analista econômico Ruchir Sharma, em seu livro “O Que Deu Errado com o Capitalismo”, explora o impacto das expansões governamentais sobre o mercado capitalista e suas consequências econômicas e sociais. A obra, que lidera a lista de importados sobre bancos e bancários, revela a forma como intervenções estatais, ao longo de um século, transformaram o capitalismo e estimularam uma desigualdade que, segundo Sharma, seria “massiva” e prejudicial.
Sharma destaca que o problema central não reside no capitalismo em si, mas nas distorções provocadas por políticas governamentais excessivas. A crítica argumenta que, ao longo de cem anos, governos ampliaram suas ações em termos de gastos, regulamentação e apoio financeiro durante crises, afetando diretamente o funcionamento dos mercados. Esse ciclo, afirma o autor, criou um ambiente de “socialismo para os ricos”, onde os mais privilegiados recebem resgates estatais enquanto benefícios limitados são oferecidos para as demais classes.
Para ilustrar, Sharma traça um panorama histórico desde o século XIX, período em que as políticas de intervenção estatal eram limitadas e o mercado operava com maior autonomia. Ao longo do tempo, os governos passaram a intervir para evitar crises econômicas e sociais, o que resultou em uma expansão sem precedentes dos gastos públicos e na crescente concessão de incentivos financeiros para grandes empresas. Essa política, em vez de beneficiar o crescimento, resultou na concentração de poder econômico, fortalecendo monopólios e fomentando o surgimento de empresas improdutivas, conhecidas como “empresas zumbis”.
Um dos efeitos colaterais dessas intervenções, segundo Sharma, é o acúmulo de riqueza nas mãos de bilionários e a criação de estruturas de mercado pouco competitivas. Em meio a essas mudanças, a eficiência do capitalismo foi enfraquecida, reduzindo o crescimento econômico e gerando uma insatisfação popular significativa. O autor enfatiza que a continuidade desse ciclo de intervenções sem critérios pode agravar o problema, intensificando a dependência de subsídios e fragilizando ainda mais a justiça econômica.
Sharma propõe que o “diagnóstico correto” é fundamental para corrigir o curso do capitalismo. A continuidade de intervenções estatais em nível global — de países europeus aos Estados Unidos e Japão — tende a perpetuar o que ele descreve como uma cultura de resgate. Esta, por sua vez, distorce as forças de mercado, prejudicando o princípio da concorrência e incentivando práticas que impedem o desenvolvimento econômico pleno e sustentável.
Para o autor, a solução envolve uma reavaliação profunda das políticas de intervenção e uma redefinição do papel do Estado na economia. Esse debate, conforme Sharma, é essencial para restabelecer o equilíbrio do sistema capitalista, promovendo uma alocação de capital mais eficiente e corrigindo as distorções que afetam a produtividade.










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