Seca excepcional afeta vários municípios no Brasil

O município de Jordão, no estado do Acre, localizado na fronteira com o Peru, enfrenta uma severa crise hídrica que se manifesta em forma de seca excepcional. Após sofrer inundações históricas em fevereiro e março de 2024, a situação se inverteu em maio, com a ocorrência de estiagem. A redução do nível dos rios, que constituem a principal via de acesso ao município, dificultou a chegada de itens básicos, como gás de cozinha e combustível. A coordenadora da Defesa Civil municipal, Maria José Feitosa Araújo, relatou que os moradores estão recorrendo ao carvão para cozinhar, evidenciando a gravidade da situação.

Jordão, com uma população estimada em 9.200 habitantes, está entre os municípios com parte do território classificado como afetado por seca excepcional, conforme análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Em setembro, as áreas afetadas por esse tipo de seca somaram 125.300 km², o que representa uma extensão superior à do estado de Pernambuco. A especialista em secas do Cemaden, Ana Paula Cunha, destacou que a classificação de seca excepcional é inédita desde o início da série histórica em 2003. A avaliação considera variáveis como déficit de chuvas, umidade do solo e secura da vegetação, com a seca excepcional apresentando os níveis mais críticos.

Apesar de nenhum município ter sido classificado como seco excepcional em toda a sua extensão, Jordão é um exemplo de área onde parte do território se encontra nessa condição. Os dados sobre a seca são parte de um quadro mais amplo, pois o Brasil enfrenta a seca mais extensa, intensa e duradoura desde 1950. Em Jordão, o abastecimento de mercadorias é um dos principais problemas enfrentados pela população, uma vez que o transporte de pequenas embarcações da cidade vizinha Tarauacá é limitado a 450 kg e pode levar até 22 dias. O transporte aéreo é uma alternativa, mas os custos elevados tornam os produtos ainda mais caros.

Atualmente, a água potável não está completamente em falta, mas sua disponibilidade é limitada. A coordenadora da Defesa Civil mencionou que os moradores preferem a água de poços artesianos, considerada mais limpa que a disponibilizada pelo Departamento Estadual de Água e Saneamento do Acre (Depasa). No entanto, a seca tem comprometido os poços, e muitos moradores enfrentam dificuldades para encontrar água, sendo necessário esperar dias para conseguir abastecimento.

Em agosto de 2024, o governo federal reconheceu a situação de calamidade em Jordão. Apesar do reconhecimento, os recursos ainda não chegaram ao município, que solicitou R$ 2,8 milhões e deverá receber apenas R$ 342 mil. A entrega de cestas básicas foi reduzida de 2.300 para 442, o que tem gerado preocupação, uma vez que 45% da população é indígena e já sofreu perdas na agricultura de subsistência durante as inundações.

Ana Paula Cunha, do Cemaden, descreveu a seca no Brasil como resultado de uma “tempestade perfeita”. O aquecimento global e suas consequências, como mudanças climáticas, têm intensificado eventos extremos, incluindo a atual seca. O fenômeno El Niño, que começou no segundo semestre do ano anterior, trouxe chuvas para o sul do Brasil, enquanto a maior parte do país enfrentou secas. O aquecimento da superfície do Atlântico Tropical Norte, que se intensificou após o término do El Niño, contribui para a manutenção da seca. A previsão de La Niña, que geralmente traz chuvas para o Centro e Norte do Brasil, ainda não se confirmou, e há indícios de que seu impacto será menos intenso do que o esperado.

Além dos fenômenos climáticos, o desmatamento na Amazônia também é um fator que contribui para a escassez hídrica. A alteração na vegetação impacta o ciclo hidrológico da região, influenciando a distribuição de água em outras áreas do país. A Terra Indígena Apiaká-Kayabi, localizada em Juara (MT), também apresenta áreas classificadas como seca excepcional. A vegetação desidratada aumentou a ocorrência de incêndios, complicando ainda mais a situação.

Em setembro de 2024, dados do Cemaden indicam que 52 terras indígenas enfrentam seca extrema e 142, seca severa. O aumento de 12% no número de municípios com seca extrema em relação a agosto, totalizando 263 municípios, é uma preocupação que se estende por todo o território brasileiro. A expectativa é de que a situação se agrave em outubro, podendo atingir 293 municípios. A recuperação da situação hídrica pode ocorrer com a chegada das chuvas no final do ano, mas a força do fenômeno La Niña será determinante para evitar um colapso ainda maior no abastecimento de água e na agricultura.

*Com informações da DW.


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