No cenário cultural e gastronômico da Bahia, poucas figuras são tão emblemáticas quanto a baiana do acarajé. Vestida com roupas brancas e trajes típicos que remetem ao candomblé, as baianas representam a história viva de um povo que resiste e enaltece suas origens. Em suas mãos, uma iguaria única: o acarajé, um bolinho feito à base de feijão-fradinho, frito no azeite de dendê, e recheado com vatapá, camarão seco e pimenta. Este prato, mais do que um simples alimento, carrega o peso de uma identidade cultural e de um patrimônio afro-brasileiro profundamente enraizado na Bahia.
O Acarajé e Suas Origens
O acarajé tem raízes profundas na África Ocidental, especialmente entre os povos iorubás, que o conheciam como “akara”. Originalmente, essa iguaria era oferecida aos orixás, em especial a Xangô e Iansã, entidades que simbolizam, respectivamente, a justiça e as tempestades. Quando os povos africanos foram trazidos ao Brasil sob o regime da escravidão, levaram consigo a tradição de preparar e consumir o akara, adaptando-o à cultura local e ao contexto de resistência que se formava no país.
No Brasil, o prato foi reinventado e recebeu o nome de “acarajé”, uma junção de “akara” e “jé”, que significa “comer”. Tornou-se, assim, um símbolo de fé e de resistência, vendido inicialmente por mulheres negras que, após a abolição da escravatura, encontraram no comércio dessa iguaria uma forma de sustento e uma oportunidade para manter viva a cultura de seus ancestrais.
Em Salvador, o Memorial das Baianas de Acarajé, na Praça da Cruz Caída, presta homenagem a categoria, e na mesma região do Pelourinho fica sediada a Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos e Similares (ABAM).
A Baiana do Acarajé: Símbolo de Resistência
A figura da baiana do acarajé ganhou popularidade nas ruas da Bahia e de Salvador, em especial, cidade que se tornou o centro do candomblé e da cultura afro-brasileira. Vestida com traje típico, que inclui turbante, saia rodada e contas, a baiana do acarajé é uma representação da ancestralidade africana. Para muitas, o ofício não é apenas uma profissão, mas um compromisso com a tradição e a religião. Isso porque o acarajé, originalmente um alimento sagrado, muitas vezes é preparado em ritual de respeito aos orixás e aos costumes da religião de matriz africana.
O ofício da baiana do acarajé foi, inclusive, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2005, uma conquista que representa o reconhecimento do valor histórico e cultural dessas mulheres e de seu trabalho.
Acarajé: Muito Mais que um Prato
Para além da culinária, o acarajé é um símbolo de resistência e de luta contra o preconceito e a discriminação. Durante décadas, as baianas enfrentaram a marginalização, o preconceito racial e as dificuldades econômicas. No entanto, conseguiram transformar o acarajé em uma das mais representativas iguarias do Brasil, sendo um símbolo da Bahia e da cultura afro-brasileira, que atrai turistas e curiosos de todo o mundo.
O sabor picante do acarajé é um reflexo do tempero cultural que marca a história do povo baiano e afrodescendente. A pimenta, que para muitos é símbolo de proteção e energia, representa o caráter forte e resiliente das baianas, que há séculos perpetuam essa tradição.
O Tabuleiro da Baiana: Acarajé, Abará e Outras Iguarias da Bahia
No tabuleiro da baiana do acarajé, entre o azeite de dendê e os aromas inconfundíveis da Bahia, cada quitute traz uma história. Além do icônico acarajé, destaca-se o abará, outro prato tradicional com raízes africanas que compartilha com o acarajé a base de feijão-fradinho. Ao contrário do acarajé, frito no dendê, o abará é cozido em folha de bananeira, o que lhe confere um sabor e uma textura delicados, mas marcantes. Servido com vatapá, camarão seco e pimenta, o abará é uma iguaria essencial para o tabuleiro das baianas, com um toque mais suave que contrasta com a intensidade do acarajé.
Abará: A Irmã do Acarajé
Assim como o acarajé, o abará também carrega raízes africanas e seu preparo é visto como um ritual de respeito e tradição. Envolto em folhas de bananeira, o abará é cozido ao vapor, o que preserva o sabor do feijão-fradinho e o aroma do dendê de forma mais sutil. Essa iguaria é consumida tanto pelos moradores locais quanto pelos turistas e, para muitos baianos, tem um lugar especial no paladar, representando um momento de confraternização e celebração da cultura afro-brasileira.
Ao lado do acarajé, o abará é oferecido como uma opção aos que preferem um prato mais leve, mas igualmente carregado de tradição e sabor. Nos tabuleiros das baianas, ambos coexistem como um casal inseparável de iguarias que contam a história de resistência, fé e identidade.
Outros Quitutes do Tabuleiro da Baiana
Além do acarajé e do abará, o tabuleiro da baiana é um verdadeiro festival de sabores e texturas, refletindo a riqueza da culinária baiana e a influência africana na cultura local. Outros quitutes populares que podem ser encontrados no tabuleiro incluem:
- Passarinha: Um petisco feito do baço de boi, temperado e frito, servido como acompanhamento ou como prato principal. Este prato salgado e bem temperado é popular nos bares e feiras da Bahia e oferece um contraste marcante com o sabor dos bolinhos de feijão. Seu sabor, semelhante ao fígado, destaca-se pela maciez, podendo ser preparada frita no óleo de dendê ou assada na brasa. Servida com farofa, salada, vinagrete, pimenta, feijão ou farinha de mandioca, a passarinha é uma herança cultural das “fateiras”, mulheres que comercializavam vísceras e abriram caminho para a tradição das baianas de acarajé. A passarinha é uma iguaria que representa o espírito baiano de aproveitar todos os recursos disponíveis, sempre acrescentando o toque especial do tempero local.
- Bolo Frito de Tapioca: Outra delícia típica do tabuleiro da baiana, o bolo frito de tapioca é preparado com goma de tapioca, coco ralado, açúcar e leite. Esta massa é então frita até ficar dourada, resultando em um bolo crocante por fora e macio por dentro, com um sabor adocicado e levemente salgado. Esse bolo é consumido como sobremesa e representa a criatividade baiana em transformar ingredientes locais em quitutes cheios de sabor.
- Vatapá: Embora seja tradicionalmente usado como recheio para o acarajé e o abará, o vatapá também pode ser servido como acompanhamento ou prato principal. Feito com pão embebido em leite de coco, amendoim, castanha de caju e camarão seco, o vatapá é uma mistura cremosa e apimentada que exemplifica a fusão de ingredientes africanos com temperos locais.
A Herança e o Futuro do Tabuleiro da Baiana
O tabuleiro da baiana é mais do que um espaço de venda de alimentos; é um palco onde a história e a cultura afrodescendente são celebradas e preservadas diariamente. A cada preparação de acarajé, abará, vatapá ou bolo de tapioca, as baianas mantêm viva a herança de seus antepassados africanos, resistindo às pressões modernas e garantindo que o legado cultural de seu povo se mantenha acessível a todos.
A multiplicidade de sabores do tabuleiro da baiana reflete a identidade baiana, marcada pela mistura de influências africanas, indígenas e portuguesas. Ao redor dos tabuleiros, as baianas, com seus trajes típicos e seus saberes ancestrais, seguem como símbolos de resistência, garantindo que essa riqueza gastronômica e cultural da Bahia permaneça viva, vibrante e autêntica para as futuras gerações.
Presente e Futuro do Acarajé e das Baianas
Nos dias atuais, as baianas do acarajé enfrentam novos desafios, como a regulamentação do trabalho informal e as limitações impostas pelo turismo de massa, que, por vezes, comercializa de forma caricata a tradição. Ainda assim, elas resistem, garantindo que o legado do acarajé se mantenha autêntico e conectado com suas raízes africanas.
Na Bahia, o acarajé é muito mais do que um prato típico: ele é memória, fé e cultura. Em cada mordida, encontra-se um pouco da África, dos orixás, das histórias de luta e da força de um povo que encontrou na fé e na comida uma forma de manter viva a sua identidade. As baianas do acarajé, com suas roupas brancas e tempero inconfundível, são verdadeiras guardiãs desse patrimônio e da história afrodescendente do Brasil.
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