Até a década de 1950, a água para consumo, banho e cozinhar era um recurso escasso em Feira de Santana, exigindo das famílias um esforço diário para obtê-la. A cidade, que passou por um rápido crescimento, enfrentou inúmeros desafios para estabelecer um sistema eficiente de fornecimento de água, um dos principais fatores para a consolidação de qualquer município. Até então, as cisternas, o uso de burricos e o trabalho dos aguadeiros eram soluções para o abastecimento, e o famoso grito “Olha a água!” era o sinal que anunciava a chegada da água à porta das casas.
No início, quando o povoado foi elevado a vila em 1832, a água consumida era proveniente das fontes naturais da região. Com o aumento populacional, a principal fonte de abastecimento passou a ser a “fonte do mato”, também conhecida como “fonte dos olhos d’água”, localizada na propriedade de Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandão, que são considerados os fundadores da cidade. Em seguida, com a expansão urbana, a solução adotada foi a escavação de poços, as chamadas cisternas, nos quintais das casas. O lençol freático, em muitas áreas, estava próximo à superfície, facilitando a extração da água.
Entretanto, a qualidade da água não era uniforme. Enquanto em algumas localidades a água era limpa e potável, em outras era salobra. Para atender a essa demanda, surgiram os primeiros aguadeiros, que transportavam a água em potes de barro ou barris de madeira. Com o tempo, o processo de transporte de água foi modernizado, utilizando uma tropa de jegues para carregar os corotes. A água do “Ponto Central”, região onde hoje se localiza o Hotel Acalanto, tornou-se a mais procurada, devido à sua qualidade superior. A fazenda de Bernardino Oliveira Bastos, que se estabeleceu na área, ficou famosa pela excelência de sua água. O aguadeiro Emílo, conhecido como “Emílo de Bernardino”, foi um dos principais responsáveis por fornecer essa água à população, tornando-se uma figura popular na cidade.
A cidade também contava com outras fontes de água, mas nenhuma delas tinha a mesma demanda que a “água de Bernardino”. O fornecimento era feito de forma regular, com o aguadeiro anunciando sua chegada com o tradicional “Olha a água!”. Esse tipo de serviço era comum até a década de 1950, embora novas casas estivessem sendo construídas com cisternas equipadas com engenhos de ferro modernos para retirar a água dos poços. Esses engenhos eram mais seguros do que os antigos, feitos de madeira, e tinham um mecanismo que evitava acidentes, travando caso o operador perdesse o controle do braço do engenho.
No entanto, com o crescimento acelerado da cidade, surgiram problemas relacionados ao esgoto, já que as fossas eram construídas próximas às cisternas, aumentando o risco de contaminação da água. A necessidade de um sistema de abastecimento de água encanada tornou-se evidente. Em 1954, uma comissão de vereadores viajou até o Rio de Janeiro para reivindicar a instalação desse sistema, com a promessa do presidente Getúlio Vargas de atender à demanda da cidade. A morte repentina de Vargas, no entanto, adiou o início das obras, que continuaram sob a liderança do ministro baiano Simões Filho.
Em 1955, o presidente Juscelino Kubitschek visitou Feira de Santana e, ao lado do prefeito João Marinho Falcão, inaugurou o Sistema Autônomo Municipal de Água (SAMA). A água passou a ser extraída de poços localizados na Lagoa Grande, representando um grande avanço para a cidade. Este foi um marco importante no desenvolvimento da infraestrutura urbana local e garantiu que Feira de Santana pudesse contar com um sistema de abastecimento mais eficiente.
Em 1971, o governo do estado da Bahia, por meio do governador Luís Viana Filho, implementou o sistema de captação de água no Rio Paraguaçu, que ainda é utilizado até hoje para abastecer Feira de Santana e várias cidades vizinhas. Naquela época, o prefeito era Newton da Costa Falcão, filho de João Marinho, que esteve à frente da cidade durante a inauguração do SAMA.
Hoje, o sistema de abastecimento de água de Feira de Santana passou por várias ampliações e modernizações. A cidade conta com uma rede de água que atende uma população crescente, e a água do Rio Paraguaçu segue como a principal fonte de abastecimento, refletindo o avanço da infraestrutura urbana e o desenvolvimento da cidade ao longo dos anos.








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