Um estudo inédito, denominado “Catraca Racial: o impacto da segurança pública na mobilidade urbana da capital da Bahia,” revelou que Salvador registrou pelo menos 85 interrupções no transporte público em decorrência de conflitos relacionados à segurança pública no período de um ano. O levantamento, divulgado nesta segunda-feira (11/11/2024), aponta que essas interrupções afetaram diretamente 30 bairros, especialmente nas áreas majoritariamente habitadas por pessoas negras, totalizando 316 horas sem serviço de transporte público em 15 episódios mapeados. O impacto representa cerca de 13 dias de paralisação, afetando o direito de locomoção e outros direitos essenciais da população periférica.
A pesquisa foi conduzida em parceria entre a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, o Observatório da Mobilidade de Salvador e o Instituto Fogo Cruzado, abrangendo o período de 4 de agosto de 2023 a 15 de agosto de 2024. Dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à Prefeitura de Salvador e ao Sindicato dos Rodoviários da Bahia. O estudo evidencia que os conflitos impactam o cotidiano dos moradores dessas regiões, restringindo sua mobilidade e acesso a serviços básicos, como saúde, educação e lazer, além de comprometer a geração de renda.
Dudu Ribeiro, diretor-executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, destaca que os resultados apontam para um efeito prejudicial do modelo de segurança pública.
“A população negra e periférica de Salvador sofre até para permanecer em suas comunidades, devido aos conflitos recorrentes. Sem mobilidade urbana, compromete-se o direito à saúde, à educação, à geração de renda e ao lazer. É como se o Estado construísse uma ‘catraca racial’ invisível que limita o deslocamento da população,” declarou Ribeiro.
O bairro de Mussurunga foi o mais afetado, com interrupções totais ou parciais no transporte público por 14 dias. Em maio, a região registrou a maior interrupção contínua, com sete dias consecutivos sem ônibus. Outros bairros, como Fazenda Coutos e Valéria, também enfrentaram frequentes paralisações, com oito episódios cada, seguidos por Pernambués, Águas Claras, Nordeste de Amaralina e Engenheiro Velho da Federação, entre outros.
Daniel Caribé, doutor em urbanismo e membro do Observatório da Mobilidade de Salvador, observa que os impactos da violência e da falta de transporte público são sentidos tanto no acesso ao trabalho quanto nos serviços essenciais.
“A suspensão temporária do serviço de transporte público devido a conflitos armados também deve ser vista como um problema de mobilidade urbana. As pessoas, muitas vezes, são obrigadas a caminhar longas distâncias ou recorrer ao transporte irregular, o que afeta diretamente sua renda e tempo de vida,” afirmou Caribé.
Tailane Muniz, coordenadora do Instituto Fogo Cruzado na Bahia, ressaltou que a mobilidade e a violência urbana são problemas históricos para a população de Salvador. Muniz considera que a interrupção do transporte público como consequência de conflitos armados revela falhas na política de segurança pública.
“Os dados deste levantamento são fundamentais para que o poder público entenda a gravidade da situação e assuma a responsabilidade de garantir a mobilidade como um direito básico,” declarou.
O estudo também levantou questionamentos junto à Prefeitura de Salvador sobre o número de paralisações decorrentes de operações policiais, mas não obteve resposta. Dados do Instituto Fogo Cruzado indicam que 19 interrupções foram associadas diretamente a ações policiais, enquanto 57 ocorreram em outros contextos de segurança pública e apenas nove situações não se relacionaram a intervenções policiais.
A Prefeitura de Salvador informou que está em elaboração uma minuta para a criação de um comitê de crise, com o objetivo de assegurar a continuidade dos serviços de transporte público em áreas afetadas pela violência. Segundo a nota da prefeitura, o comitê será composto por representantes da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob), Integra, Sindicato dos Rodoviários e Secretaria de Segurança Pública. A iniciativa visa coordenar ações para mitigar os efeitos da violência na mobilidade urbana e garantir o transporte público em regiões mais vulneráveis.
*Com informações da Agência Brasil.
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