Em 2025, o Brasil assumirá a presidência do BRICS, o grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O evento ocorre em um contexto de crescente pressão sobre a desdolarização das economias globais, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçando com tarifas de até 100% sobre países que busquem alternativas ao dólar. Durante uma recente entrevista à CNN, Sergei Ryabkov, vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, declarou que o BRICS busca estabelecer um sistema financeiro paralelo ao dólar, que coexistiria com a atual ordem financeira ocidental. Segundo Ryabkov, os países do bloco têm a intenção de desenvolver um sistema que atenda às necessidades dos operadores econômicos, sem a imposição de uma única moeda.
O posicionamento dos Estados Unidos, com a ameaça de tarifas, reflete um esforço para frear o processo de desdolarização, com Trump alertando que qualquer tentativa de criar uma nova moeda no BRICS ou apoiar moedas alternativas poderia resultar em sanções econômicas severas. A reação russa a essas ameaças foi clara. Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, afirmou que os países do BRICS não estão sozinhos nesse movimento e que a transição para moedas locais é uma tendência global, acelerada pelas políticas hostis dos EUA. Peskov adverte que a imposição de tarifas pode fortalecer ainda mais essa tendência de distanciamento do dólar.
A liderança brasileira no BRICS será crucial para a continuidade dos esforços de desdolarização do bloco, mas enfrenta desafios internos e externos. Setores econômicos como o agronegócio brasileiro, que tem fortes relações comerciais com países como China, Irã e nações árabes, estão cada vez mais inclinados a negociar em moedas locais. O agronegócio, por exemplo, vê vantagens econômicas significativas em reduzir a dependência do dólar, especialmente no comércio com o Irã, um dos maiores compradores de produtos alimentícios e proteína animal brasileiros. Além disso, setores industriais também procuram alternativas ao dólar para facilitar o comércio com países com pouca disponibilidade de moeda norte-americana, como Argentina e diversas nações africanas.
Por outro lado, o mercado financeiro brasileiro, que mantém uma forte integração com o sistema financeiro ocidental, é o setor menos favorável à desdolarização. Especialistas afirmam que esse setor utiliza o dólar como uma ferramenta para pressionar o governo a alinhar sua política externa com os interesses dos Estados Unidos. No entanto, o governo brasileiro parece dividido em relação ao tema. Se o Brasil se afastar da agenda de desdolarização, em resposta às pressões de Washington, poderá perder oportunidades econômicas no crescente mercado asiático, onde o comércio com a China já supera o comércio com os Estados Unidos em três vezes.
A falta de uma estratégia de longo prazo, especialmente no que diz respeito à construção de rotas comerciais alternativas, coloca o Brasil em uma posição vulnerável. Enquanto países como a China investem na Iniciativa do Cinturão e Rota, garantindo sua autonomia em caso de confrontos com o Ocidente, o Brasil ainda carece de uma infraestrutura robusta que permita uma diversificação eficaz de suas relações comerciais. O professor Ghaio Nicodemos, coordenador do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de Política Externa do IESP-UERJ, destaca que o Brasil tem mais a ganhar ao diversificar suas parcerias econômicas, principalmente com a Ásia, do que seguir a agenda de Washington, que não demonstra interesse em expandir suas importações do Brasil.
A presidência brasileira do BRICS, que começa em janeiro de 2025, pode marcar um ponto de inflexão para o Brasil, com a escolha entre priorizar os interesses dos Estados Unidos ou aprofundar suas relações com o Sul Global. Durante a transição simbólica de liderança do BRICS, o embaixador Eduardo Sabóia, representante brasileiro no grupo, recebeu a presidência do bloco, com a tarefa de liderar discussões sobre temas como reforma tributária internacional e governança digital, enquanto a questão da desdolarização poderá ser delegada a outros membros do bloco, como a China ou o Novo Banco de Desenvolvimento.
*Com informações da Sputnik News.








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