Ministro do TCU Augusto Nardes profere palestra sobre governança em Feira de Santana e destaca transparência e sustentabilidade

Augusto Nardes, ministro do Tribunal de Contas da União, palestra sobre governança em evento que reuniu gestores municipais na sede da Prefeitura de Feira de Santana.
Augusto Nardes, ministro do Tribunal de Contas da União, palestra sobre governança em evento que reuniu gestores municipais na sede da Prefeitura de Feira de Santana.

O ministro João Augusto Ribeiro Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU), ministrou, nesta sexta-feira (17/01/2025), a palestra intitulada “Os 10 passos para a boa governança“, no Paço Maria Quitéria, sede da Prefeitura de Feira de Santana. O evento contou também com a presença de sua esposa, a advogada Renata Andrade, presidente da Rede de Governança Clima Sustentável, que apresentou uma palestra sobre Governança Climática. A ocasião reuniu o prefeito José Ronaldo de Carvalho, secretários municipais e gestores de diversos municípios da região, destacando a relevância da governança para o fortalecimento da administração pública e da sustentabilidade.

Com o objetivo de auxiliar no início dos mandatos dos novos gestores municipais, a palestra abordou a importância da implantação de práticas de governança para aprimorar os serviços públicos e atender às demandas da população. Durante sua apresentação, Nardes destacou a relevância da nova lei de licitações, que exige maior transparência nas aquisições governamentais.

“Governança é sobre estabelecer prioridades, compartilhar boas práticas e acompanhar resultados. Isso não é apenas um conceito; é uma necessidade para qualquer país que deseje avançar”, afirmou o ministro, destacando o impacto positivo da iniciativa em 400 municípios brasileiros.

Ele citou como exemplos exitosos as experiências em Maragogi (AL) e em regiões da Paraíba, onde práticas bem planejadas resultaram em melhorias na educação e na saúde.

Planejamento estratégico e liderança

Durante o evento, Nardes reforçou que a governança depende diretamente do protagonismo das lideranças públicas. Ele defendeu que prefeitos, governadores e secretários devem liderar com base em planejamento e estratégias consistentes.

“As lideranças precisam ser capacitadas e assumir a responsabilidade de guiar suas equipes em direção a metas claras. Sem isso, não há governança efetiva”, explicou.

Ele comparou o funcionamento de uma administração pública eficiente ao de uma família organizada, onde as decisões são tomadas em conjunto e com base em objetivos compartilhados. Nardes também ressaltou a importância de indicadores para monitorar as ações do governo, garantindo transparência e correção de possíveis desvios.

“Monitorar é essencial. Sem indicadores claros, é impossível saber se estamos indo na direção certa”, completou.

Tecnologia como aliada na eficiência e no controle

O uso de ferramentas tecnológicas no setor público também foi destacado pelo ministro. Ele revelou que o TCU utiliza sistemas baseados em inteligência artificial para monitorar processos licitatórios e obras públicas. Esses mecanismos ajudam a identificar irregularidades e promovem maior eficiência.

“A tecnologia tem transformado a forma como auditamos e acompanhamos a execução de projetos. Hoje, conseguimos rastrear desde a contratação até a conclusão das obras, minimizando desperdícios e garantindo resultados”, afirmou.

Ele exemplificou como a falta de qualidade nos projetos básicos impacta diretamente no volume de obras inacabadas no país.

Ética e transparência: o debate sobre o recebimento de presentes

O ministro foi questionado sobre a polêmica do recebimento de presentes por gestores públicos. Nardes defendeu a criação de normas claras para regulamentar essa prática e evitar interpretações equivocadas.

“É fundamental que haja regras definidas. Presentes recebidos em função do cargo público devem ser incorporados ao acervo oficial. Isso garante transparência e evita conflitos de interesse”, explicou

Déficit previdenciário

Aposentadorias precoces e benefícios excessivos geram desafios estruturais no Brasil

Na sociedade brasileira, marcada por um modelo econômico de viés liberal, a disparidade entre os privilégios dos servidores públicos e as condições oferecidas aos trabalhadores do setor privado tem provocado desequilíbrios significativos. Ao ser questionado, Augusto Nardes disse que a assimetria afeta a sustentabilidade fiscal e limita os investimentos necessários para atender às demandas da sociedade civil. O ministro destacou que o problema é agravado no caso das aposentadorias precoces de servidores.

“Na Europa, a idade mínima para aposentadoria foi elevada para 65 anos, e em alguns casos já chega a 70 anos. Isso reflete a maior longevidade da população e a necessidade de ajustes para garantir a sustentabilidade dos sistemas previdenciários”, afirmou Nardes, citando um modelo de idade mínima a ser adotado no Brasil para os servidores.

Mudanças demográficas e impacto na previdência

O ministro ressaltou que o Brasil enfrenta um processo de envelhecimento populacional, com um formato de pirâmide demográfica que concentra mais pessoas em faixas etárias intermediárias e superiores, reduzindo a base jovem que poderia sustentar o sistema previdenciário.

“Não aproveitamos o crescimento demográfico para enriquecer a nação, e agora estamos à beira de um colapso na previdência, previsto para 2028, se não forem tomadas medidas de governança”, alertou.

Segundo o ministro, o déficit previdenciário atual é de R$ 430 bilhões, representando um dos maiores desafios para a sustentabilidade financeira do Brasil. Nardes defendeu reformas estruturais e renegociações para assegurar o equilíbrio do sistema.

“Sem uma solução definitiva para a previdência, enfrentaremos dificuldades crescentes em outras áreas essenciais, como saúde e educação”, alertou.

Ele também mencionou os problemas enfrentados por municípios em relação a bloqueios de receitas e altos níveis de endividamento, sugerindo maior articulação entre as esferas municipal, estadual e federal.

Infraestrutura como outro gargalo estrutural

Além da previdência, Nardes chamou atenção para os gargalos na infraestrutura do país, em especial no transporte de cargas. Ele apontou a dependência excessiva de rodovias, em detrimento de ferrovias e hidrovias, como um problema crítico.

“O Brasil investe apenas 1,5% do PIB em infraestrutura, quando deveria destinar pelo menos 5%. Isso nos coloca em rota de colapso também no setor de transporte”, afirmou.

O ministro relatou que a situação se reflete em problemas cotidianos, como o engarrafamento enfrentado em sua chegada a Feira de Santana, vindo de Salvador pela Rodovia BR-324.

“Isso ilustra o aumento do fluxo de caminhões e a falta de estrutura adequada. Se não investirmos, o país poderá parar antes mesmo de 2028”, advertiu.

Descontrole em benefícios salariais do Ministério Público e Poder Judiciário

Outro ponto abordado foi o descontrole nos pagamentos de salários e benefícios em órgãos como o Ministério Público e o Poder Judiciário. Questionado, o ministro comentou sobre casos de magistrados e promotores que recebem valores exorbitantes, muitas vezes acima do teto constitucional. Nardes reforçou a necessidade de fiscalização rigorosa por parte do TCU e dos tribunais de contas estaduais.

“É essencial frear excessos e garantir o cumprimento do teto constitucional, para que os recursos sejam direcionados a investimentos prioritários. Governantes não podem gastar mais do que arrecadam, e minha missão é assegurar que isso não aconteça”, concluiu.

Perfil do ministro

João Augusto Ribeiro Nardes é ministro do TCU desde 2005 e possui uma trajetória marcada pelo compromisso com o aprimoramento da administração pública. Graduado em Administração de Empresas pela Fundames, em Santo Ângelo, ele também é pós-graduado em Política do Desenvolvimento e mestre em Estudos de Desenvolvimento pelo Institut Université d’Études, em Genebra, na Suíça.

Antes de ingressar no TCU, Nardes acumulou experiência no Parlamento e em organizações internacionais de fiscalização superior. Ele foi presidente do Tribunal de Contas da União no biênio 2013/2014 e liderou a OLACEFS (Organização Latino-Americana e Caribe das Entidades de Fiscalização Superior) entre 2013 e 2015. Atualmente, preside o Comitê de Criação de Capacidades da mesma entidade.

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Exclusivo: Os 10 Dez Passos Fundamentais para a Boa Governança Pública na abordagem do ministro do TCU Augusto Nardes


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