Mesmo situada na América do Norte, a ilha da Groelândia integra a União Europeia. Inicialmente colonizada pelo explorador norueguês Erik, o “Vermelho”, que ali chegou viajando pelo estreito da Dinamarca trazendo colonos para a ilha, em sua maioria católicos. Em 1721, missionários luteranos viajaram para a ilha para evangelizar os habitantes da região, ainda católicos ou pagãos. Esses missionários trouxeram consigo mais nórdicos, unindo-os ainda mais aos reinos da Noruega-Dinamarca, que passaram a dominar a ilha. Em 1814 a Dinamarca se separa da Noruega, reivindicando o território para si. Desde então a ilha conseguiu alguns direitos, como o de se tornar autônoma (1979) e possuir governo próprio (2008), embora não tenha se tornado independente até o presente momento.
Antes, ninguém dava muito valor à região, totalmente congelada, mas com o aquecimento global – que lá acontece três vezes mais rápido do que no resto do planeta-, o mar Ártico está se transformando numa rota fundamental para o comércio internacional. Essa nova rota pode beneficiar o comércio de potências como a China, uma vez que o caminho mais curto pelo Ártico reduz custos e evita mares controlados por países adversários. Daí ser atualmente considerada a “nova rota da seda”. O degelo das calotas polares do Polo Norte fez com que a navegação se tornasse cada vez mais frequente entre os portos do Extremo Oriente e da Europa. No verão boreal de 2013, um cargueiro chinês saiu de Dalian, na China, e chegou a Roterdã, na Holanda, cruzando o Oceano Ártico e inaugurando a nova rota Oriente-Ocidente, evitando assim o percurso mais longo pelo Canal de Suez.
Trump sempre quiz controlar a ilha. Em 2019, em seu primeiro mandato, ofereceu US$ 100 milhões para comprá-la. Agora ameaça tomá-la até pela força. Comprar a ilha vai ser muito difícil, senão impossível. Há problemas (jurídicos e políticos) que dificilmente seriam contornados. Segundo os termos de um acordo feito há mais de um século, a Dinamarca, se quiser vender a ilha, teria que dar ao Reino Unido o direito de preferência, pois, em 1917, o Reino Unido exigiu que, se a Groelândia fosse vendida, ele teria o direito de ser consultado primeiramente. Esse acordo surgiu das negociações em torno da compra das Índias Ocidentais Dinamarquesas (hoje Ilhas Virgens Americanas), pelos Estados Unidos. Como parte do acordo, a Dinamarca exigiu – e os Estados Unidos concordaram-, que a Groelândia “é e sempre será dinamarquesa”.
Considerando a reincidência de Trump na compra da ilha, o primeiro ministro da Groelândia, Múte Bourup Egede, afirmou que a ilha não estava à venda, e a primeira ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, também se manifestou dizendo que “a Groenlândia pertence aos groenlandeses”, e que apenas a população local poderá determinar o próprio futuro. Trump sempre quis tornar a Groelândia um território americano, pois, segundo ele, a ilha é estratégica para a segurança dos Estados Unidos. A Groenlândia está no caminho da rota mais curta entre a América do Norte e a Europa — e já abriga bases aéreas americanas desde a década de 1950. A região também possui vastos depósitos de minerais — como carvão, ferro, chumbo, zinco, molibdênio, diamantes, ouro, platina, nióbio, tantalita e urânio — que são vitais para a fabricação de aparelhos eletrônicos e baterias para outros fins. “Estou falando aqui de proteger o mundo livre”, defendeu Trump.
Ele também não descartou o uso da força – econômica ou militar-, para atingir seus objetivos, entre os quais a retomada do Canal do Panamá e fazer do Canadá o 51º estado americano. A Groelândia possui 2.166.086 Km², ou seja: é maior ilha do mundo, considerada um território autônomo com governo e parlamento próprios. Mesmo estando no continente americano, a ilha está política e culturalmente associada à Europa, desde os reinos da Noruega/Dinamarca. É uma região autônoma, mas sobrevive graças à Dinamarca, pois dois terços da sua receita orçamentária vêm desse país. O outro terço vem da sua principal atividade econômica de relevo: a pesca. Nuuk é a capital da ilha, com 57 mil habitantes, possuindo uma expectativa de vida de 71 anos para os homens e 76 anos para as mulheres. O rei Frederik 10º da Dinamarca é reconhecido como chefe de estado da ilha. Sua cultura é europeia, e tudo indica que vai continuar assim.
*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.










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