Em artigo publicado em 10 de fevereiro de 2025 na Revista Foreign Affairs, o economista Jason Furman, professor de Política Econômica na Universidade de Harvard aborda o impacto econômico e político da Bidenomics.
Segundo o pesquisador, as eleições presidenciais de 2024 nos Estados Unidos resultaram na derrota de Joe Biden, e a percepção dos eleitores sobre a economia pode ter sido um fator decisivo. Pesquisas indicavam que mais de 60% dos eleitores em estados indecisos acreditavam que a economia estava no caminho errado, enquanto 75% apontavam a inflação como uma dificuldade significativa.
O economista Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, alertou que “a expansão fiscal sem medidas compensatórias poderia gerar inflação prolongada e corroer o poder de compra dos americanos”, algo que de fato ocorreu. Muitos cidadãos enfrentaram dificuldades para pagar contas, adquirir imóveis e administrar dívidas, fatores que contribuíram para a rejeição da administração Biden.
A estratégia econômica da administração Biden
Desde sua posse em 2021, Biden adotou uma abordagem econômica denominada “Bidenomics”, com ênfase no aumento do gasto público, regulação do mercado e fortalecimento da política industrial. Seu governo buscou reviver a intervenção estatal na economia, promovendo grandes investimentos em infraestrutura, políticas antitruste e proteção trabalhista.
Os conselheiros de Biden argumentavam que esse modelo marcaria uma nova era pós-neoliberal, afastando-se das políticas de mercado que predominaram nas administrações de Bill Clinton e Barack Obama. “Acreditamos que uma economia mais equitativa depende do investimento público”, afirmou Brian Deese, então diretor do Conselho Econômico Nacional. O objetivo era impulsionar a indústria nacional e a transição para energias renováveis, reduzindo a dependência de países como a China.
Resultados e contradições da Bidenomics
Embora a recuperação econômica dos EUA após a pandemia tenha sido mais rápida do que em crises anteriores, a inflação persistente comprometeu os benefícios do crescimento. Em 2024, as taxas de inflação, desemprego e juros estavam todas acima dos níveis de 2019. A renda familiar ajustada pela inflação caiu, e a taxa de pobreza aumentou.
A implementação do Plano de Resgate Americano, um pacote de US$ 1,9 trilhão, agravou a inflação ao injetar recursos na economia quando a demanda já estava elevada. O aumento de gastos gerou um ciclo de alta de preços e juros, prejudicando trabalhadores e consumidores. A tentativa de impulsionar a manufatura também apresentou resultados limitados: a parcela de trabalhadores no setor industrial seguiu em declínio, e a produção doméstica permaneceu estagnada.
Segundo o economista Jason Furman, “a economia dos EUA cresceu rapidamente, mas a inflação corroeu grande parte dos ganhos salariais, tornando a recuperação menos sentida pela população”. Isso explica a insatisfação popular, apesar dos números positivos de emprego e PIB.
Desafios da infraestrutura e da transição energética
A Lei Bipartidária de Infraestrutura destinou mais de US$ 500 bilhões para modernização de estradas, pontes e banda larga. No entanto, custos elevados reduziram a efetividade desses investimentos. O aumento de despesas sem reformas estruturais resultou em atrasos e menor volume de obras concluídas.
Na política climática, o Inflation Reduction Act incentivou a produção de energia limpa e a manufatura de veículos elétricos. Embora tenha reduzido emissões de carbono, sua dependência de subsídios corporativos levanta dúvidas sobre sua expansão e viabilidade a longo prazo. O impacto no mercado de trabalho também foi inferior ao esperado, sem gerar uma nova onda de empregos industriais.
A professora de economia pública Mariana Mazzucato defendeu a política industrial de Biden, afirmando que “um Estado mais ativo pode direcionar a inovação para setores estratégicos”, mas críticos apontam que os altos custos e a falta de um plano de longo prazo limitaram os efeitos da iniciativa.
As limitações da política econômica de Biden
Biden buscou fortalecer a classe trabalhadora por meio de maior intervenção governamental, mas falhou em promover mudanças estruturais duradouras. O crédito tributário infantil expandido expirou, e o salário mínimo permaneceu estagnado, ambos reduzidos em termos reais pela inflação. O fortalecimento de sindicatos também não ocorreu como esperado, com as taxas de sindicalização atingindo mínimos históricos.
“O problema não foi apenas a inflação, mas a falta de percepção dos benefícios das políticas econômicas pelo eleitorado”, observou a cientista política Rachel Bitecofer.
A desconexão entre os dados macroeconômicos e a realidade dos cidadãos acabou minando a narrativa positiva da Casa Branca.
Lições e perspectivas futuras
A derrota democrata em 2024 reflete uma rejeição à abordagem econômica do governo Biden. A crença na capacidade de um Estado mais intervencionista para resolver desafios estruturais se mostrou limitada diante das realidades do mercado. A próxima administração enfrentará o desafio de equilibrar crescimento econômico, controle da inflação e sustentabilidade fiscal.
Conceito sobre Bidenomics
A Bidenomics, termo que designa a política econômica da administração de Joe Biden, tem gerado intensos debates sobre seus impactos econômicos e políticos. A estratégia se baseia em três pilares principais:
- Investimentos maciços em infraestrutura e indústria – Por meio da Lei de Infraestrutura Bipartidária e da Lei de Redução da Inflação (IRA), há um estímulo significativo para manufatura, energia limpa e transporte.
- Fortalecimento da classe média – Expansão de benefícios sociais, incentivos ao emprego e aumento do salário mínimo federal (ainda não concretizado em nível nacional).
- Política industrial e protecionismo – Reforço da produção nacional, especialmente em semicondutores, para reduzir a dependência da China.
Impacto Econômico
Pontos Positivos:
- Crescimento do PIB: Os EUA continuam apresentando crescimento econômico robusto, contrariando previsões pessimistas.
- Empregos e salários: A taxa de desemprego está em níveis historicamente baixos, e o mercado de trabalho segue aquecido.
- Revitalização industrial: Incentivos federais impulsionaram investimentos no setor manufatureiro, especialmente em semicondutores e baterias elétricas.
- Redução do déficit fiscal: Parte dos gastos vem sendo compensada por aumento da arrecadação tributária e cortes em subsídios ineficientes.
Pontos Negativos:
- Inflação persistente: O excesso de estímulos fiscais combinado a problemas na cadeia de suprimentos contribuiu para a alta da inflação nos primeiros anos de mandato.
- Endividamento público: O aumento dos gastos governamentais elevou ainda mais a dívida nacional, intensificando preocupações com a sustentabilidade fiscal no longo prazo.
- Custo de vida: Apesar do crescimento do emprego, o aumento nos preços dos alimentos, energia e habitação ainda pesa sobre a população.
Impacto Político
Nos EUA:
- Polarização: A Bidenomics é elogiada por democratas progressistas, mas criticada por republicanos, que a veem como intervencionismo estatal excessivo.
- Apoio da classe trabalhadora: A agenda econômica busca recuperar eleitores da classe média, tradicionalmente democratas, mas que migraram para Trump em 2016 e 2020.
- Dúvidas sobre reeleição: Apesar do crescimento econômico, o sentimento popular sobre a economia ainda é misto, o que pode afetar a candidatura de Biden em 2024.
Conceito sobre pós-neoliberalismo
O pós-neoliberalismo refere-se a um contexto de adaptação ou superação do neoliberalismo, surgindo como resposta às suas falhas, como desigualdade e crises econômicas. Esse conceito se manifesta em diferentes formas:
- Governos pós-neoliberais – Na América Latina, governos como os de Chávez, Morales e Correa adotaram maior intervenção estatal sem abolir o mercado.
- Mudanças econômicas globais – Após crises como a de 2008 e a pandemia, há um retorno do papel do Estado na economia, com regulação de grandes empresas e políticas de proteção social.
- Crise da globalização neoliberal – O crescimento do nacionalismo econômico e do protecionismo também representa uma reação ao modelo neoliberal clássico.
O pós-neoliberalismo não significa o fim do neoliberalismo, mas sim um ajuste ou tentativa de superação do modelo.
Perfil Biográfico de Jason Furman
Jason Furman é um economista renomado e Professor Aetna de Prática de Política Econômica na Universidade de Harvard, onde leciona na Escola de Governo John F. Kennedy e no Departamento de Economia. Sua carreira é marcada por uma combinação de pesquisa acadêmica e formulação de políticas públicas, sendo uma das vozes mais influentes no debate econômico nos Estados Unidos.
De 2013 a 2017, Furman atuou como Presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca durante o governo do presidente Barack Obama. Nesse papel, foi um dos principais arquitetos da política econômica do país, ajudando a moldar decisões sobre crescimento econômico, emprego, desigualdade e competitividade. Sua atuação foi fundamental na resposta à crise financeira global e na formulação de estratégias para a recuperação econômica dos EUA.
Antes de sua posição na Casa Branca, Furman teve uma extensa trajetória no setor público e na academia. Ocupou diversos cargos no governo, incluindo assessoramento em temas fiscais, orçamentários e macroeconômicos. Além disso, é autor de inúmeros artigos e pesquisas sobre economia, política fiscal e crescimento sustentável.
Sua abordagem econômica é caracterizada pelo pragmatismo e pelo compromisso com políticas baseadas em evidências. Defensor de uma economia de mercado eficiente, mas com intervenções estratégicas para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento, Furman é frequentemente citado em debates sobre reforma tributária, produtividade e inovação.
Além de sua atuação acadêmica e política, Furman é colunista e comentarista regular em diversos meios de comunicação, onde oferece análises detalhadas sobre os desafios e oportunidades da economia global. Seu trabalho continua a influenciar formuladores de políticas e acadêmicos ao redor do mundo.










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