Guerra às drogas de Donald Trump aumenta chance de ação militar na América Latina, diz analista

O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, intensificou suas políticas contra o narcotráfico na América Latina, com o uso de medidas como cartas de corso para autorizar ações privadas contra cartéis. A proposta visa aumentar a atuação militar na região, enquanto grupos como o PCC e o Comando Vermelho permanecem fora das prioridades de Washington, segundo analistas. A retórica antidrogas pode abrir caminho para novas intervenções geopolíticas.
O uso do narcotráfico como ferramenta política pode reforçar aliados como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e enfraquecer governos inimigos, como o da Venezuela.

Na administração de Donald Trump, a retórica contra o narcotráfico tem se intensificado, com um foco renovado na América Latina, especialmente com a proposta de uso de cartas de corso para permitir a atuação de empresas privadas no combate aos cartéis de drogas. Mike Lee, senador republicano, foi um dos principais defensores dessa iniciativa, sugerindo que os EUA adotem esse mecanismo histórico, que concede autorização a cidadãos para praticarem atos de pirataria em tempos de guerra, como uma resposta aos cartéis que operam em áreas do México e outros países latino-americanos.

As cartas de corso, que foram proibidas pela Convenção de Paris de 1856 por incentivarem a pirataria, ainda encontram respaldo na Constituição dos Estados Unidos, pois o país não é signatário da convenção. O fundador da empresa de segurança privada Blackwater, Erik Prince, afirmou que foi responsável por introduzir essa ideia ao senador Lee, destacando que a medida permitiria aos contratantes privados não só combater, mas também lucrar com a confiscação de bens de narcotraficantes.

Prince associou a atuação dos cartéis de drogas a um fenômeno de terrorismo, em consonância com o novo decreto da Casa Branca, que classifica os cartéis como “organizações terroristas internacionais”. Isso amplia o escopo de ações possíveis contra tais grupos, permitindo aos EUA realizar ações militares e até aplicar medidas como confisco de bens e prisões extraterritoriais.

A decisão de Trump de alinhar narcotráfico e terrorismo resgata um conceito utilizado no final da Guerra Fria com o termo “narcoterrorismo”, que associava guerrilhas de esquerda à prática do narcotráfico. Para o professor Thiago Rodrigues, do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, essa nova estratégia pode recalibrar o intervencionismo dos EUA na região, já que os interesses geopolíticos e econômicos norte-americanos na América Latina permanecem os mesmos desde o fim da Guerra Fria.

A designação dos cartéis como terroristas possibilita aos EUA a utilização de uma série de instrumentos de pressão econômica e política antes de recorrer à ação militar direta. A medida pode resultar no corte de ajuda financeira, militar ou até de empréstimos para países latino-americanos que se mostrem coniventes com os grupos narcotraficantes. No entanto, ações militares permanecem uma possibilidade, especialmente considerando as bases militares dos EUA na região.

Enquanto isso, alguns analistas apontam que, apesar de a administração Trump focar em grupos como o MS-13 e o Tren de Aragua, organizações brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho não estão na mira dos EUA. O professor Acácio Augusto, da UNIFESP, acredita que as organizações brasileiras não ameaçam diretamente os interesses norte-americanos e, portanto, não fazem parte da agenda do governo Trump.

Rodrigues, por sua vez, destaca que a preocupação dos EUA está mais voltada para a defesa dos interesses próprios do que para a resolução do problema do narcotráfico em si. Para ele, a “retórica antidrogas” dos EUA visa criar um ambiente de legitimidade para uma atuação mais firme na região, que inclui não apenas medidas políticas, mas também a possível intervenção militar.

O analista alerta, ainda, que a estratégia de Trump de usar o narcotráfico para fortalecer aliados políticos, como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, pode ter impactos no equilíbrio regional. Bukele se apresenta como um aliado chave no combate ao MS-13, enquanto a menção ao Tren de Aragua pode enfraquecer o governo venezuelano de Nicolás Maduro, um inimigo político de Trump.

Por fim, apesar das tensões e estratégias de intervenção, os analistas não acreditam que as organizações brasileiras sejam uma prioridade para os EUA. Enquanto isso, a Venezuela e El Salvador continuam a ser focos principais de uma possível intervenção militar por parte de Washington, com o Brasil observando de perto os desdobramentos dessa política geopolítica dos EUA.

*Com informações da Sputnik News.


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