A estratégia da Direita em atribuir culpas: Análise do sociólogo Sérgio Costa sobre a polarização no Brasil

A ascensão da direita no Brasil tem sido marcada por um discurso capaz de atribuir responsabilidades específicas a diferentes problemas sociais. Em entrevista publicada nesta quarta-feira (05/03/2025) na DW Brasil, o sociólogo Sérgio Costa, professor da Universidade Livre de Berlim, analisa essa estratégia no contexto de seu livro recém-lançado, “Desiguais e Divididos: Uma Interpretação do Brasil Polarizado”.

Costa argumenta que a construção dessa narrativa influenciou diretamente o comportamento eleitoral, canalizando votos para candidatos que, em muitos casos, tinham propostas contrárias aos interesses de seus próprios eleitores. O autor ressalta que o fenômeno é resultado da combinação de fatores econômicos, sociais e culturais, potencializados pelo uso estratégico das redes sociais e pelo engajamento ativo de setores religiosos.

A Classe Média e a Interpretação das Desigualdades

No livro, Costa destaca que a classe média brasileira não pode ser compreendida apenas a partir de uma perspectiva econômica. Segundo ele, há uma interseccionalidade que envolve fatores como raça, gênero e localização geográfica, sendo fundamental para explicar a diversidade de posicionamentos políticos desse grupo.

O sociólogo observa que, durante os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), houve um crescimento expressivo da classe média, impulsionado pelo aumento do poder de compra e pela ampliação do acesso a serviços como educação e crédito. Entretanto, ele afirma que setores dessa mesma classe passaram a rejeitar algumas mudanças sociais e políticas promovidas nesse período.

“A questão não é apenas sobre classe social, mas sobre qual grupo dentro da classe média estamos analisando. Muitos dos que se rebelaram contra esses governos eram homens brancos, heterossexuais e pertencentes a determinadas regiões do país. Ou seja, há uma relação direta entre essa rejeição e as mudanças que afetaram privilégios históricos.”

O Uso da Comunicação e das Redes Sociais pela Direita

Costa destaca que a direita e a extrema direita conseguiram dominar as ferramentas de comunicação contemporâneas, principalmente as redes sociais, para difundir suas narrativas. Segundo ele, essa estratégia permitiu a politização de espaços que antes eram considerados neutros, como grupos familiares e reuniões de condomínio.

Com um discurso simples e de fácil assimilação, a direita conseguiu atribuir problemas reais — como segurança pública, qualidade da educação e falhas no atendimento hospitalar — a governos de esquerda, criando um mecanismo de mobilização social eficaz. Essa abordagem encontrou ampla adesão entre os eleitores, mesmo quando as políticas propostas por candidatos de direita não necessariamente beneficiavam esse público.

“O que estamos vendo hoje é a direita e a extrema direita conseguindo penetrar nos espaços cotidianos com suas interpretações. A esquerda, por outro lado, perdeu sua capacidade de comunicação direta com as bases, dificultando a disputa por hegemonia cultural e política.”

A Relação Entre Política e Religião na Mobilização Eleitoral

Outro fator determinante na ascensão da direita, segundo Costa, foi a atuação de igrejas pentecostais e neopentecostais no cenário político. Ele observa que esses setores utilizam discursos morais e religiosos para influenciar diretamente a percepção política dos fiéis, sem receio de abordar temas eleitorais dentro dos templos.

O sociólogo explica que, ao apresentar uma visão simplificada da realidade e oferecer uma narrativa unificada para os problemas sociais, esses grupos conseguem mobilizar grande parte da população, especialmente entre os mais pobres.

A Contradição Entre Expectativa e Resultado Eleitoral

Apesar das dificuldades econômicas enfrentadas pela população nos últimos anos, especialmente durante os governos de Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022), parte significativa do eleitorado manteve seu apoio à direita e à extrema direita nas eleições de 2022. Mesmo com o aumento da pobreza e a perda de direitos sociais, o discurso político da direita seguiu atraindo eleitores.

Para Costa, esse fenômeno ocorre porque a política não é determinada exclusivamente por fatores econômicos, mas também pela maneira como as experiências são interpretadas e ressignificadas. Ele explica que, ao produzir um discurso que canaliza as angústias sociais para uma única causa — no caso, os governos de esquerda —, a direita conseguiu transformar insatisfações reais em uma ferramenta eleitoral eficaz.

“A política não é apenas uma ciência baseada em dados objetivos. Há um fator subjetivo que envolve a forma como as pessoas interpretam suas próprias experiências. A direita conseguiu criar um discurso plástico, adaptável, que fornece respostas rápidas para os problemas da população.”

1. Contexto da Classe Média no Brasil

  • Expansão da classe média durante os governos de Lula (2003-2010).
  • Rejeição de setores dessa classe a mudanças sociais promovidas pelo governo.
  • Interseccionalidade como fator determinante para a compreensão do comportamento eleitoral.

2. Estratégias de Comunicação da Direita

  • Uso eficaz das redes sociais para difundir narrativas políticas.
  • Politização de espaços cotidianos, como grupos familiares e condomínios.
  • Atribuição de problemas sociais a governos de esquerda como ferramenta de mobilização eleitoral.

3. Influência Religiosa na Política

  • Papel das igrejas pentecostais e neopentecostais na disseminação de discursos políticos.
  • Relacionamento entre moralidade religiosa e posicionamento político.
  • Capacidade de mobilizar eleitores a partir de pautas religiosas e conservadoras.

4. Impactos Eleitorais

  • Contradição entre expectativa e resultado eleitoral: população impactada por políticas de direita manteve apoio a esses candidatos.
  • Eleição de políticos com programas contrários aos interesses de seus próprios eleitores.
  • O papel da interpretação subjetiva das experiências na definição do voto.

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