O aventureiro e mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) teve papel fundamental na difusão das primeiras informações sobre o território colonial português na Europa. Seu livro, publicado em 1557, tornou-se um dos primeiros registros detalhados da fauna, flora, geografia e costumes dos povos indígenas, incluindo rituais antropofágicos. A obra ganhou notoriedade e rapidamente se consolidou como um best-seller, sendo traduzida para várias línguas ao longo dos séculos.
O relato de Staden foi um dos poucos registros europeus sobre a América do Sul na época. Até então, os escritos de Pero Vaz de Caminha (1450-1500) permaneciam restritos a autoridades portuguesas, o que fez da obra do alemão um marco na divulgação de informações sobre o Novo Mundo.
A captura e a sobrevivência entre os Tupinambás
Hans Staden realizou duas viagens ao Brasil entre 1548 e 1555. Durante sua segunda expedição, sofreu naufrágios sucessivos e acabou sendo capturado por indígenas tupinambás, que o mantiveram prisioneiro por nove meses, planejando usá-lo em um ritual de canibalismo.
Segundo o próprio Staden, sua sobrevivência foi possível graças à sua estratégia de demonstrar fraqueza e desinteresse aos olhos dos tupinambás. Os indígenas acreditavam que a antropofagia permitia a absorção de forças do inimigo, e Staden tentou convencer seus captores de que ele não possuía tais qualidades. Sua fuga ocorreu com a ajuda de um navio pirata francês, que o resgatou e o levou de volta à Europa.
Impacto do livro e sua repercussão na Europa
A obra, intitulada “A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América”, foi publicada inicialmente na Feira do Livro de Frankfurt e logo alcançou grande sucesso. O interesse europeu por relatos sobre territórios desconhecidos fez com que o livro fosse amplamente divulgado e republicado 16 vezes entre 1625 e 1736, tornando-se uma das fontes mais acessíveis sobre o Brasil colonial.
A narrativa teve um impacto significativo na formação do imaginário europeu sobre os territórios tropicais, consolidando a visão de um Novo Mundo exótico e, para muitos, selvagem. Staden descreveu minuciosamente os costumes dos tupinambás, influenciando tanto a percepção da Europa sobre os povos indígenas quanto os debates sobre a colonização da América.
Análise crítica: um olhar sobre a narrativa de Staden
Pesquisadores contemporâneos destacam a importância histórica do livro, mas também ressaltam a necessidade de contextualizar a narrativa dentro do pensamento europeu do século XVI. Staden, um homem branco europeu, descreveu os povos indígenas sob uma perspectiva eurocéntrica, enfatizando o contraste entre sua própria cultura e os hábitos dos nativos. Esse tipo de relato contribuiu para a construção de estereótipos sobre os povos indígenas, influenciando a forma como seriam vistos nos séculos seguintes.
A historiadora Miriam Elvira Junghans destaca que a obra de Staden não deve ser analisada apenas como um relato factual, mas também como uma representação dos medos e preconceitos da Europa renascentista. O livro serviu, ao mesmo tempo, como registro antropológico e como material de propaganda religiosa e cultural.
Legado e impacto na formação da identidade brasileira
O livro de Hans Staden foi uma das primeiras obras a utilizar o termo “Brasil”, embora a nação ainda não existisse como unidade política. Esse fator contribuiu para a construção de um imaginário coletivo sobre a identidade do território, reforçando estereótipos que persistiram ao longo da história.
A influência do relato de Staden foi tão grande que, séculos depois, inspirou obras literárias, como a adaptação infantojuvenil feita por Monteiro Lobato e interpretações artísticas em movimentos culturais brasileiros, como o modernismo e o tropicalismo. O relato do alemão, ao longo do tempo, passou de um documento histórico para um elemento da formação simbólica da identidade nacional.
A pesquisadora Vanete Santana-Dezmann, que estudou o impacto da obra, aponta que o livro ajudou a cristalizar uma visão reducionista do Brasil na Europa, associando o país a elementos exóticos e primitivos. Essa percepção persiste em certa medida até os dias atuais.
*Com informações Edison Veiga, do DW.
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