No dia 23 de abril de 2025 (quarta-feira), a partir das 18 h, ocorre em na Academia de Letras da Bahia (ALB), em Salvador, ocorre conjunto de atividades do cenário literário e acadêmico baiano. Na programação, o poeta, editor e intelectual Rodney Saint-Éloi, figura central na luta por uma literatura engajada e anticolonial palestra. Sob o tema “A arte e a importância da diversidade cultural”, Saint-Éloi apresenta abordagem crítica sobre os limites das tradições editoriais ocidentais e os desafios contemporâneos para autores provenientes de territórios colonizados.
Durante o encontro ocorre, também, lançamento das obras “Como se faz um deserto”, de Licia Soares de Souza, e “Signos em transe“, organizado por Taurino Araújo com 61 colaboradores, constituindo uma significativa contribuição à crítica literária e ao pensamento interdisciplinar.
O evento contra com apoio da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), o encontro marcou uma noite de reflexão sobre diversidade cultural, colonialidade do saber e práticas editoriais transformadoras.
Rodney Saint-Éloi: literatura como resistência e reconfiguração do mundo
Nascido no Haiti e radicado no Canadá desde 2001, Rodney Saint-Éloi fundou a editora Mémoire d’Encrier em 2003, com o objetivo de criar uma plataforma para a circulação de obras de autores ameríndios, africanos, caribenhos, palestinos, latino-americanos e outras vozes historicamente marginalizadas. Sua atuação editorial rompe com os cânones eurocentrados, dando ênfase a narrativas que se debruçam sobre identidades plurais, memórias coletivas e enfrentamentos à colonialidade.
Ao destacar o papel da literatura como instrumento de transformação social, Saint-Éloi relembrou que as fronteiras culturais e linguísticas podem ser diluídas pela escuta mútua e pelo compromisso ético com o outro. A editora já publicou nomes como Josephine Bacon, Naomi Fontaine e Maryse Condé, cujas obras encontram eco em debates acadêmicos brasileiros sobre epistemologias decoloniais.
Mémoire d’Encrier: um modelo editorial anticolonial
A Mémoire d’Encrier é considerada uma das editoras mais representativas do movimento editorial decolonial no mundo francófono. Seu catálogo prioriza:
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Narrativas que enfrentam o racismo estrutural;
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Expressões literárias de territórios historicamente subjugados;
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Diálogos interculturais entre autores de diferentes continentes;
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Textos que resgatam cosmologias, espiritualidades e línguas ancestrais.
Em obras como Les racistes n’ont jamais vu la mer (2021), escrita em parceria com Yara El-Ghadban, o autor propõe uma reflexão epistolar sobre a violência colonial no contexto das migrações forçadas, relacionando as travessias atlânticas da escravidão ao drama contemporâneo dos refugiados que naufragam no Mediterrâneo.
Licia Soares de Souza lança obra sobre o semiárido e a colonialidade ambiental
Como se faz um deserto — Semiosferas do Bioma Caatinga
A obra lançada pela professora emérita da UNEB e associada da Universidade do Québec, Licia Soares de Souza, realiza uma abordagem inovadora do semiárido brasileiro, propondo uma leitura crítica da noção de “deserto” como construção simbólica e política. Com base em autores como Euclides da Cunha, Vargas Llosa e Chiavenato, a autora discute a violência ambiental perpetrada pelos colonizadores por meio das queimadas e do extrativismo predatório.
O livro integra crítica literária, semiótica e estudos ambientais, demonstrando como as narrativas sobre o sertão brasileiro foram moldadas por uma visão eurocêntrica que marginaliza saberes e práticas locais. Ao revisitar o episódio histórico de Canudos, Soares de Souza evidencia os limites da historiografia oficial e propõe uma valorização dos modos de resistência sertanejos.
Signos em transe: homenagem crítica à trajetória intelectual de Licia Soares de Souza
Organizado por Taurino Araújo, jurista e professor reconhecido por sua atuação em epistemologias brasileiras, “Signos em transe” reúne textos de 61 autores, entre eles pesquisadores do Brasil, Canadá e Europa. A obra celebra o legado de Licia Soares de Souza, sendo estruturada em cinco blocos temáticos:
1. Semiótica de Peirce e formação acadêmica interdisciplinar
Textos de Winfried Nöth, Jean Fisette, Luiz Eudes e Sylvano Santini abordam a influência do pensamento peirceano nas ciências humanas brasileiras.
2. Literatura comparada e ensino de francês
Pesquisadores como Zilá Bernd, Leonor Abreu e Bernard Andrès discutem o papel das literaturas ameríndias e afrodescendentes na renovação da crítica literária transnacional.
3. Poesia brasileira e francófona contemporânea
Com ensaios de Fátima Berenice, Antonia Coutinho e Emiliano José, o bloco examina o lugar da poesia como forma de resistência estética e política.
4. Interdisciplinaridade no ensino superior
Suenio Campos e Ruy Aguiar reconstroem a trajetória do curso de Relações Públicas da UNEB, refletindo sobre a construção curricular baseada em múltiplas linguagens e saberes.
5. Estudos sobre Canudos
Com contribuições de Berthold Zilly, Rachel Bouvet e Juan Ignacio, esse bloco revisita o ciclo literário canudiano e propõe novas leituras do episódio histórico a partir de uma perspectiva crítica e transnacional.
Relevância institucional e reconhecimento público
A noite literária também serve como espaço de reconhecimento institucional. Licia Soares de Souza foi homenageada por sua recente nomeação como laureada da Ordem dos Francófonos das Américas (2025), honraria outorgada pelo governo do Québec. Já Taurino Araújo foi lembrado por ter recebido a Comenda João Mangabeira, a mais alta distinção civil do Estado da Bahia.
Ambos os autores reforçam, em suas trajetórias, o compromisso com a construção de um pensamento crítico e autônomo, alinhado aos princípios de justiça social, inclusão cultural e combate à desigualdade epistemológica.
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