O número de afastamentos por saúde mental no trabalho aumentou 134% no Brasil entre 2022 e 2024, segundo levantamento do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, com base em dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). No período, os benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais passaram de 201 mil para 472 mil.
Ao todo, entre 2012 e 2024, foram contabilizados 8,8 milhões de acidentes de trabalho e 32 mil mortes com vínculo empregatício formal. Os números incluem notificações por Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e concessões acidentárias sem CAT. Estima-se uma morte no trabalho formal a cada 3,5 horas no país.
Em 2023, o Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho registrou 732 mil notificações, mas os dados atualizados já indicam 778 mil casos para aquele ano. A projeção preliminar para 2024 aponta pelo menos 742 mil ocorrências, com tendência de crescimento em razão de notificações retroativas.
Os benefícios acidentários concedidos pelo INSS entre 2012 e 2024 somam 2,6 milhões de afastamentos temporários, totalizando R$ 173 bilhões em gastos. Esses valores abrangem auxílio-doença, aposentadorias por invalidez, pensões por morte e auxílios-acidente.
No Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Sistema Único de Saúde (SUS), foram registrados 3,5 milhões de casos no mesmo intervalo. Destacam-se notificações por acidentes graves, exposição a material biológico, câncer ocupacional, LER/DORT, perdas auditivas, pneumoconioses e transtornos mentais. Entre 2022 e 2024, os registros no SINAN cresceram 52,6%, passando de 392,2 mil para 598,8 mil.
A coordenadora da Codemat/MPT, Cirlene Zimmermann, alertou sobre o impacto humano por trás das estatísticas, afirmando que os números representam vidas e famílias afetadas. A fala reforça a importância de ações institucionais para prevenção e reparação.
No campo da saúde mental ocupacional, os diagnósticos mais frequentes entre afastamentos acidentários foram: reações ao estresse (28,6%), ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8,46%). Nos afastamentos gerais, os episódios depressivos lideram com 25,6%, seguidos por ansiedade (20,9%) e depressão recorrente (12%).
Setores com maior participação percentual nos afastamentos acidentários por saúde mental incluem bancos múltiplos com carteira comercial, que passaram de 9,3% em 2012 para 20% em 2024, e atividades hospitalares, que saltaram de 1,2% para 10,2%. O comércio varejista também teve crescimento, indo de 3,9% para 5,6% no mesmo intervalo.
A Norma Regulamentadora n.º 1, atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, tornou obrigatória a avaliação de riscos psicossociais nas práticas de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). Devem ser considerados fatores como estresse, assédio e carga mental excessiva.
Segundo Vinícius Pinheiro, diretor da OIT no Brasil, a promoção da saúde mental no ambiente laboral é essencial para ambientes produtivos e sustentáveis, sendo necessária a liderança institucional e investimento constante para implementar as diretrizes estabelecidas.
A OIT estima que transtornos mentais afetam 15% da população economicamente ativa, com perdas globais de produtividade em torno de US$ 1 trilhão por ano. O trabalho decente pode ser um fator protetivo, mas ambientes insalubres, com ruído, assédio e sobrecarga, elevam os riscos.
Na série histórica do Observatório, acidentes com máquinas e equipamentos foram responsáveis por 13,6% das ocorrências, com risco de amputações e lesões graves muito superior à média. Esses acidentes geram três vezes mais fatalidades que outros agentes.
As ocupações com mais afastamentos por acidentes foram: alimentadores de linhas de produção (5,1%), motoristas de caminhão (3,7%), faxineiros (3,4%), serventes de obras (2,9%) e vendedores do comércio varejista (2,4%).
Fraturas foram a causa de cerca de 60% dos afastamentos, ultrapassando 1 milhão de ocorrências desde 2012. Em 2024, foram 84 mil fraturas, crescimento de 20% em relação a 2023. Amputações também cresceram 6%, somando 4,6 mil casos.
Mais de meio bilhão de dias de trabalho e vida saudável foram perdidos no período analisado, o que contribui para estimativas de prejuízo à economia. A OIT calcula que os acidentes e doenças do trabalho correspondem a 4% do PIB mundial. No Brasil, o equivalente a aproximadamente R$ 468 bilhões anuais, considerando o PIB de R$ 11,7 trilhões em 2024 (IBGE). Em termos acumulados, desde 2012, as perdas econômicas podem alcançar R$ 5 trilhões.
Essas ocorrências impactam tanto o setor público, com custos ao SUS e à Previdência, quanto o setor privado, com quedas de produtividade e despesas com indenizações. Em resposta, a OMS e a OIT pedem ações concretas para redução dos impactos mentais nas relações de trabalho, incluindo prevenção, promoção e suporte psicossocial.
O Observatório também atualiza temas prioritários para campanhas de prevenção em âmbito municipal, baseando-se na frequência e gravidade dos agentes causadores de doenças e acidentes, com o objetivo de guiar políticas públicas locais de saúde e trabalho.
*Com informações da ONU News.








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