Salvador, domingo, 13/04/2025 – Em artigo publicado na quarta-feira (02/04/2025) no jornal norte-americano The New York Times, sob o título original “I Just Saw the Future. It Was Not in America”, o colunista Thomas L. Friedman relata sua visita ao novo centro de pesquisa da Huawei, em Xangai, e discute os rumos da inovação tecnológica global. A análise aponta para uma transformação profunda da China em polo de referência no desenvolvimento científico, enquanto os Estados Unidos, segundo o autor, perdem espaço em meio a disputas políticas internas e estratégias econômicas mal calibradas.
Huawei inaugura megacampus e consolida resposta às sanções norte-americanas
Durante visita ao campus de Pesquisa e Desenvolvimento da Huawei, em Lianqiu Lake, Friedman descreve uma infraestrutura impressionante, comparável à “Tomorrowland” — referência à área futurista dos parques da Disney. O complexo, que abriga 104 edifícios e capacidade para 35 mil profissionais, foi construído em apenas três anos. Além de laboratórios, há 100 cafés, centros de fitness e um monotrilho, compondo o ambiente pensado para atrair talentos chineses e estrangeiros.
A iniciativa, explica Friedman, é resposta direta às sanções impostas pelos EUA desde 2019, que visavam limitar o acesso da Huawei a semicondutores e outras tecnologias sob alegações de segurança nacional. Em vez de recuar, a empresa lançou produtos inovadores, como o smartphone Mate 60 — com semicondutores próprios —, um celular com tripla dobra e seu próprio sistema operacional, o Hongmeng (Harmony).
Inteligência artificial se torna eixo estratégico da indústria chinesa
A Huawei não se limita à telefonia. Está investindo em tecnologias para veículos elétricos, carros autônomos e mineração automatizada, além de já ter instalado, segundo a empresa, 100 mil carregadores rápidos na China apenas em 2024 — número contrastante com os apenas 214 carregadores operacionais nos EUA, mesmo após destinação de US$ 7,5 bilhões pelo Congresso norte-americano em 2021.
“É assustador ver isso de perto”, alerta Friedman, ao criticar o foco de Donald Trump em pautas sociais internas enquanto a China aplica inteligência artificial para transformar seu setor industrial. Ele ressalta que, enquanto Washington aprofunda tarifas e desmonta instituições científicas, Pequim amplia seus centros de pesquisa e consolida uma estratégia de independência tecnológica.
Sistema educacional e infraestrutura elevam capacidade produtiva
Friedman destaca a robustez da formação chinesa em STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), com cerca de 3,5 milhões de formandos por ano, número equivalente ao total de graduados de todos os níveis nos Estados Unidos. Com 39 universidades dedicadas à pesquisa em terras raras, a China supera a oferta educacional pontual do Ocidente.
Além disso, a rede de trens de alta velocidade, a integração digital da vida cotidiana — incluindo pagamentos por QR code e reconhecimento facial em hotéis — e a força de trabalho técnica altamente capacitada tornam o país mais ágil na conversão de ideias em produção industrial.
Desaceleração econômica e crise imobiliária preocupam Pequim
Apesar dos avanços, Friedman aponta desafios internos. A bolha imobiliária chinesa, agravada por restrições ao crédito desde 2020, reduziu a renda de parte da população de classe média, forçando um aumento na poupança e na cautela do consumo. Isso impacta diretamente a arrecadação tributária do governo, limitando sua capacidade de estímulo econômico.
Nesse cenário, a China ainda precisa de um acordo comercial com os Estados Unidos para proteger seu setor exportador. No entanto, a instabilidade nas decisões de Trump, segundo analistas citados no artigo, mina a possibilidade de confiança mútua para negociações duradouras.
Alternativa para o futuro: parcerias industriais sino-americanas
Friedman propõe uma nova abordagem para as relações comerciais entre os países: produção nos EUA com trabalhadores americanos, em parceria com capital e tecnologia chinesa. O modelo seria uma inversão da estratégia que levou a China ao crescimento nos anos 1990, quando dependia de investimentos ocidentais.
Jim McGregor, consultor com três décadas de atuação na China, reforça que empresas chinesas já buscam parcerias no Ocidente para acesso aos mercados europeus. Friedman defende que os EUA deveriam acolher essas inovações por meio de joint ventures, desde que com exigência de produção local progressiva.
Riscos da desglobalização e a necessidade de interdependência saudável
Ao final do artigo, Friedman faz um alerta geopolítico: a interdependência entre EUA e China não é mais opcional, é uma condição do mundo atual. Ele cita Dov Seidman, autor do livro How, ao afirmar que “a única escolha real é se construiremos interdependências saudáveis para crescer juntos ou manteremos interdependências doentias que nos farão cair juntos”.
Friedman conclui com uma pergunta crítica: quando os líderes das duas potências finalmente retomarem o caminho da cooperação, o que restará da economia global que gerou tanta prosperidade?
Principais dados
1. Tecnologia e inovação
-
Huawei construiu campus de 104 edifícios em três anos.
-
35 mil trabalhadores no complexo de P&D em Lianqiu Lake.
-
Lançamento do sistema Hongmeng (Harmony).
-
Produção do primeiro celular com tripla dobra.
-
Instalação de 100 mil carregadores rápidos para veículos elétricos em 2024.
2. Educação e capacitação
-
China forma 3,5 milhões de graduados em STEM por ano.
-
39 universidades com programas específicos para terras raras.
-
Ampla rede de escolas técnicas e profissionais.
3. Infraestrutura e logística
-
Mais de 550 cidades chinesas conectadas por trem de alta velocidade.
-
Pagamentos digitais por apps como WeChat Pay e Alipay com 90% de participação de mercado.
-
Digitalização total da vida cotidiana, incluindo reconhecimento facial em serviços básicos.
4. Geopolítica e comércio
-
Sanções dos EUA desde 2019 provocaram reação tecnológica da Huawei.
-
Proposta de joint ventures entre empresas chinesas e americanas nos EUA.
-
Críticas à estratégia tarifária de Trump sem planejamento industrial.
-
Crescente preocupação com a perda de padrão industrial norte-americano.
5. Economia chinesa
-
Crise imobiliária pós-2020 afeta classe média.
-
Redução das receitas fiscais limita capacidade de estímulo econômico.
-
Necessidade de acordo comercial para manter exportações ativas.
Biografia do autor
Thomas L. Friedman é colunista de assuntos internacionais do The New York Times desde 1995, tendo vencido três prêmios Pulitzer. É autor de obras de referência como O Mundo é Plano e Quente, Plano e Lotado, em que analisa a globalização, mudanças climáticas e a revolução tecnológica. Friedman é reconhecido por suas análises geopolíticas e por seu estilo direto e crítico ao abordar os desafios da ordem internacional contemporânea.












Deixe um comentário