Quarta-feira, 23/04/2025 – Reportagem de Luiz Vassallo — publicada em 24 de setembro de 2024 no site Metrópoles — revelou que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou indícios de lavagem de dinheiro em transações realizadas entre o advogado Nelson Wilians e o empresário Maurício Camisotti, investigado por envolvimento em fraudes relacionadas a descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Entre 2016 e 2022, foram transferidos R$ 15,5 milhões de contas pessoais e do escritório de advocacia de Nelson Wilians para contas de Maurício Camisotti. Uma das transações que chamou a atenção do Coaf ocorreu em novembro de 2021, quando R$ 751 mil foram transferidos do escritório de Wilians para uma conta de Camisotti no Banco Safra. No mesmo dia, Camisotti repassou R$ 500 mil para a Primares Viagens e Turismo, empresa de Francisco Emerson Maximiano, conhecido como Max, acusado de fraude na venda de vacinas ao governo federal.
Justificativas e inconsistências
Camisotti alegou que os valores recebidos referem-se a um empréstimo concedido por Wilians e que o pagamento à agência de viagens seria para custear uma viagem de Réveillon às Maldivas com a família. Entretanto, registros da Junta Comercial de São Paulo indicam que a Primares é registrada como uma holding, sem atividades relacionadas a agenciamento de viagens.
Envolvimento em fraudes no INSS
Camisotti é apontado como suposto “beneficiário final” de um esquema que aplicava descontos indevidos em aposentadorias do INSS por meio de associações controladas por seu grupo empresarial. A Ambec, uma dessas entidades, firmou acordo com o INSS em 2021, quando possuía apenas três associados. Em três anos, esse número saltou para 650 mil, com um faturamento mensal de R$ 30 milhões, sob acusações de descontos não autorizados. A entidade é um das investigadas na Operação Sem Desconto, deflagrada nesta quarta-feira (23/04/2025) pela PF e CGU.
Investigações em andamento
Além do Coaf, a Polícia Civil de São Paulo, o Ministério Público de São Paulo (MPSP), a Polícia Federal (PF), a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU) investigam o esquema de descontos indevidos no INSS. O advogado Nelson Wilians, que inicialmente defendeu a Ambec, afirmou que não irá se manifestar sobre os pagamentos feitos a Camisotti.
Contextualização: das fraudes à corrupção sistêmica
A revelação de movimentações financeiras suspeitas entre o advogado Nelson Wilians e o empresário Maurício Camisotti, investigado por supostas fraudes no INSS, se insere em um contexto mais amplo de corrupção sistêmica e desvios bilionários no interior da máquina pública federal, conforme denunciado em reportagens publicadas pelo Jornal Grande Bahia:
Essas reportagens apontam para a existência de uma suposta rede de favorecimento e desvio de recursos públicos envolvendo altos cargos do INSS, intermediários empresariais e operadores jurídicos. A renúncia do presidente do INSS, em 23 de abril de 2025, evidenciou a gravidade das denúncias, que incluem associações de fachada, descontos ilegais em aposentadorias e pagamentos suspeitos a empresas ligadas a operadores da velha política e a empresários envolvidos em outros escândalos, como Maximiano, do caso das vacinas.
Principais aspectos
Transações suspeitas
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Entre 2016 e 2022, o escritório de Nelson Wilians e suas contas pessoais transferiram R$ 15,5 milhões a Maurício Camisotti.
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Em novembro de 2021, uma transação de R$ 751 mil teve como destino uma conta de Camisotti, que por sua vez enviou R$ 500 mil à empresa Primares Viagens e Turismo, registrada como holding.
Inconsistências
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Camisotti alega que o valor refere-se a empréstimo e que o pagamento à agência foi para uma viagem de Réveillon às Maldivas.
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A Junta Comercial de SP mostra que a Primares não opera no ramo de turismo.
Fraude previdenciária
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Camisotti é apontado como beneficiário final de fraudes na associação Ambec, que passou de 3 para 650 mil associados em três anos, com faturamento de R$ 30 milhões mensais.
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Os descontos eram aplicados sem autorização dos beneficiários.
Conexões perigosas: do setor jurídico ao submundo das fraudes públicas
A suposta participação de Nelson Wilians, um dos advogados mais influentes do país, reforça a hipótese de conluio entre setores jurídicos e esquemas de corrupção, prática já denunciada no “Sistema Faroeste de Corrupção”, como exposto nas séries investigativas do Jornal Grande Bahia sobre o Caso Faroeste e a Operação Overclean.
Assim como nos casos mencionados, o presente escândalo aponta para a existência de um modus operandi estrutural, em que elementos do setor privado, operadores jurídicos e figuras públicas atuam em conluio para desviar recursos públicos com alta sofisticação.
Investigações em curso na Operação Sem Desconto
Órgãos envolvidos:
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Polícia Federal
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Controladoria-Geral da União (CGU)
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Ministério Público de São Paulo (MPSP)
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Polícia Civil de São Paulo
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Tribunal de Contas da União (TCU)
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Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf)
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