Brasília, segunda-feira, 07/04/2025 — A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) enfrenta uma das piores crises financeiras desde sua fundação, com déficit acumulado de R$ 3,2 bilhões em 2024. A deterioração das contas públicas da estatal é associada, entre outros fatores, à implementação da alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”.
Enquanto os Correios registram forte retração na receita proveniente da entrega de encomendas internacionais, o Governo Federal ampliou sua arrecadação tributária, evidenciando um descompasso entre as políticas fiscais adotadas e a sustentabilidade das estatais envolvidas no processo logístico.
Causas do déficit: “taxa das blusinhas” e passivo herdado
A criação da “taxa das blusinhas”, em vigor desde 2023, foi apresentada pelo Governo Federal como forma de aumentar a arrecadação e garantir concorrência tributária justa com o varejo nacional. No entanto, a medida provocou uma queda expressiva no volume de importações de pequeno valor, afetando diretamente a principal linha de receita dos Correios no comércio eletrônico internacional.
De acordo com estimativas da própria estatal, a perda de receita associada à nova tributação foi superior a R$ 2,16 bilhões em 2024. A esse cenário somam-se dívidas trabalhistas, custos operacionais elevados e a falta de investimentos em inovação e infraestrutura logística, herdadas de gestões anteriores.
Efeitos sobre os serviços e os trabalhadores
A crise impacta diretamente o funcionamento da empresa e o atendimento à população. Estão entre os principais efeitos:
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Hospitais e clínicas suspenderam o atendimento a funcionários dos Correios por falta de pagamento ao plano de saúde Postal Saúde, cuja dívida ultrapassa R$ 400 milhões.
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Transportadoras terceirizadas ameaçam interromper o serviço de entrega por atrasos em repasses contratuais, prejudicando a logística nacional.
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A empresa suspendeu novas contratações e renovações contratuais, como parte das medidas emergenciais para contenção de despesas.
Governo aumenta arrecadação com a nova alíquota
Segundo levantamento publicado pela Veja, o Governo Federal arrecadou mais de R$ 750 milhões com a “taxa das blusinhas” em 2024, valor que deve ultrapassar R$ 1 bilhão em 2025, com o crescimento da fiscalização e da formalização das vendas internacionais. Essa expansão da base tributária tem sido utilizada para cumprir metas fiscais e compensar déficits primários.
Ocorre, entretanto, que a arrecadação federal não é redistribuída automaticamente para as estatais impactadas pela queda de demanda, o que gera um desequilíbrio estrutural. A receita obtida pela União ocorre à custa da deterioração da principal operadora logística do Estado brasileiro.
Correios enfrentam risco de pré-insolvência
A Associação dos Profissionais dos Correios (Adcap) alertou que a estatal se encontra em situação de “pré-insolvência”, com risco iminente de atraso no pagamento de salários caso a gestão atual não mude de rumo. Segundo a entidade, a crise decorre da nomeação de lideranças politicamente motivadas e sem preparo técnico, em referência ao atual presidente, Fabiano Silva dos Santos, indicado pelo Grupo Prerrogativas.
A Adcap denuncia que os Correios, outrora referência em logística no país, estão hoje sem capacidade de honrar compromissos com fornecedores e de manter investimentos essenciais, além de enfrentarem dificuldades para garantir a folha de pagamento. Um dos sintomas mais graves da crise é o rombo de R$ 400 milhões na Postal Saúde, operadora de saúde dos funcionários, que não recebe repasses desde novembro de 2024.
Com a dívida crescente, grupos médicos e hospitais como Rede D’Or, Unimed e Beneficência Portuguesa suspenderam o atendimento aos funcionários da estatal. Também transportadoras terceirizadas interromperam a entrega de cargas em diversas regiões do país, agravando ainda mais a situação operacional da empresa.
Desempenho financeiro dos Correios nos últimos 10 anos
Abaixo, segue o histórico dos resultados financeiros dos Correios na última década:
| Ano | Resultado Financeiro (R$) | Observações |
|---|---|---|
| 2014 | -20 milhões | Prejuízo reapresentado em balanço posterior. |
| 2015 | -2,1 bilhões | Maior prejuízo até então. |
| 2016 | -1,4 bilhão | Continuação de perdas operacionais. |
| 2017 | 667 milhões | Primeiro superávit após anos de déficit. |
| 2018 | 161 milhões | Lucro com base em reestruturação interna. |
| 2019 | 102 milhões | Estabilidade nos resultados. |
| 2020 | 1,53 bilhão | Lucro significativo impulsionado pelo e-commerce. |
| 2021 | 3,7 bilhões | Maior lucro da história dos Correios. |
| 2022 | -767 milhões | Retomada de prejuízos após reavaliação de ativos. |
| 2023 | -597 milhões | Persistência do desequilíbrio orçamentário. |
| 2024 | -2 bilhões (até setembro) | Déficit parcial sinaliza maior prejuízo da década. |
Fonte: balanços auditados e reportagens de Veja, Poder360 e Pleno.News.
Projeções, medidas corretivas e debate sobre privatização
Com um teto de gastos fixado em R$ 21,96 bilhões para 2025, a atual gestão busca reverter o cenário por meio de novas frentes de negócio. Entre as iniciativas estão:
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Criação de marketplace próprio;
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Implantação de banco digital vinculado à marca Correios;
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Estímulo à parceria com fintechs e redes varejistas;
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Redução de custos operacionais e de pessoal.
Entretanto, analistas financeiros e representantes do setor logístico veem com ceticismo a capacidade de recuperação da estatal sem uma reestruturação mais profunda. A possibilidade de privatização dos Correios voltou a ganhar espaço no debate público, com defensores e críticos da proposta.
Desafios de sustentabilidade
A crise dos Correios reflete os desafios de sustentabilidade enfrentados por empresas estatais diante de mudanças no ambiente regulatório e fiscal. A “taxa das blusinhas”, embora eficaz para aumentar a arrecadação da União, gerou consequências severas para o equilíbrio financeiro da estatal. O futuro dos Correios dependerá de reformas estruturais, revisão de políticas públicas e decisões estratégicas sobre seu papel no cenário nacional.
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