O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstrou insatisfação com os resultados do endurecimento das tarifas comerciais implementadas durante seu governo. De acordo com o jornal alemão Bild, o presidente tomou a decisão de afastar alguns de seus assessores mais próximos, que eram responsáveis pela política tarifária, como o consultor comercial da Casa Branca, Peter Navarro, e o secretário do Comércio, Howard Lutnick.
A decisão de Trump surge em meio à avaliação dos efeitos das tarifas comerciais impostas em vários países, incluindo China e União Europeia, que visavam aumentar a competitividade dos produtos americanos no mercado internacional. No entanto, os resultados não atingiram as expectativas do presidente, levando à reavaliação das estratégias adotadas.
O jornal Bild revela que Scott Bessent, o secretário do Tesouro dos EUA, foi nomeado para assumir o papel de negociador-chefe nas negociações tarifárias com 75 países. A publicação destaca que Bessent, identificado como a “voz da razão” dentro da administração Trump, deve adotar uma política mais pragmática nas discussões comerciais. Sua nova função pode representar uma mudança significativa na abordagem tarifária do governo norte-americano.
Peter Navarro, que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da estratégia de aumento radical das tarifas, e Howard Lutnick, que esteve à frente das negociações com outros países, perderam influência dentro da Casa Branca. Navarro e Lutnick eram vistos como figuras chave na implementação da política tarifária agressiva, mas a falta de resultados satisfatórios pode ter causado sua queda em posição hierárquica na administração de Trump.
Essa reestruturação na equipe econômica de Trump sinaliza uma tentativa de ajuste na política comercial do país, após a percepção de que a guerra tarifária não produziu os efeitos desejados para a economia americana. A remodelação também reflete as crescentes pressões internas para uma abordagem mais conciliatória nas negociações comerciais.
“Fadado ao fracasso”: Resiliência da China e pressão de Big Techs inviabilizaram o tarifaço de Trump, apontam especialistas
Após causar pane nos mercados globais ao anunciar um pacote de tarifas contra 184 países, que ficou popularmente conhecido como “tarifaço”, o presidente dos EUA, Donald Trump, arrefeceu o discurso. As chamadas “tarifas recíprocas” sobre importações, as taxas aplicadas no tarifaço, eram calculadas com base no déficit comercial dos EUA com os respectivos países-alvo da medida. No entanto, ao longo dos últimos dias, o que começou com um anúncio incendiário foi amornando gradativamente. No dia 9 de abril de 2025, uma semana após o tarifaço, Trump voltou atrás e reduziu de 20% para 10% as tarifas recíprocas, além de determinar uma pausa de 90 dias na aplicação das taxas. Três dias depois, em um novo recuo, o líder estadunidense isentou da medida smartphones, chips e computadores.
Os recuos de Trump ocorreram após o aumento do tom daquele que foi apontado como o principal alvo do tarifaço: a China, que respondeu ao tarifaço aplicando contratarifas a Washington e elevando o percentual a cada nova taxa anunciada por Trump. Em paralelo, o mercado interno dos EUA foi abalado pelo tarifaço, que levou à venda em massa de títulos do Tesouro dos EUA, ativo considerado um porto seguro da economia do país em tempos de crise.
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas explicaram o que levou Trump a abrandar a retórica no tarifaço e o que o recuo sinaliza sobre a posição dos EUA em um mundo em profunda mudança.
Tarifaço expôs o quanto a economia dos EUA depende da China
Diego Pautasso, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e analista de relações internacionais, avaliou que o recuo de Trump expôs o quanto a economia dos EUA depende da China.
“Trump recuou porque, diferentemente dos outros países, os Estados Unidos têm uma dependência enorme de peças, componentes e produtos finais da China, e por isso acabou isentando os eletroeletrônicos, que representam um quarto de tudo o que os Estados Unidos importam, sem que a China tivesse feito absolutamente nenhum outro gesto que não a reciprocidade tarifária. Então o elemento determinante é o grau de dependência que a economia americana tem da economia chinesa”, apontou o analista.
Resiliência da China e pressões internas
Pedro Allemand Mancebo Silva, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), afirmou que a resiliência da China teve impacto direto no recuo de Trump. “As tarifas de importação foram usadas como estratégia para negociar condições de comércio de forma bilateral com o restante do mundo, visando impor um custo alto à ausência de negociação. A retaliação chinesa no mesmo tom foi importante para dissuadir os EUA, uma vez que a China é o terceiro maior parceiro comercial dos EUA, atrás apenas de México e Canadá, e também produz e importa equipamentos eletrônicos e materiais de consumo presentes no dia a dia de muitas pessoas, inclusive cidadãos dos EUA.”
Pautasso destacou também a pressão de empresários e forças políticas dos EUA, como Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX, que se tornou um dos principais nomes do governo Trump, e outros influentes do setor de big techs.
“Esses empresários, incluindo Musk, pressionaram contra o tarifaço, pois as tarifas tornariam absolutamente inviável parte da economia americana. O tempo jogava a favor da China, e as fissuras internas, somadas às pressões externas, levaram Trump a recuar”, explicou Pautasso.
Impacto das tarifas sobre o mercado e a economia dos EUA
O analista explicou que o tarifaço teve diversos efeitos negativos no mercado dos EUA, como a queda nas ações em bolsa e a venda dos títulos do Tesouro.
“Esses impactos internos mostraram as contradições da decisão de Trump, que não foi construída pelos arranjos políticos institucionais dos EUA e não fazia parte de uma estratégia mais abrangente voltada à recuperação da capacidade produtiva e industrial dos EUA“, observou Pautasso.
Aposta de Trump e seus limites
De acordo com analistas, Trump acreditava que a estratégia do tarifaço forçaria negociações e colocaria os EUA em uma posição privilegiada para obter mais vantagens no comércio global. No entanto, Pautasso observou que as tarifas “estavam fadadas ao fracasso” desde o início.
“Primeiro porque tarifas por si só não são suficientes para recuperar uma capacidade produtiva que foi envelhecendo ao longo das últimas quatro décadas. E, segundo, porque o tarifaço gerou uma reação global sem o planejamento necessário”, concluiu Pautasso.
O tarifaço como sinal do fim da hegemonia dos EUA
Pautasso afirmou que, por detrás da intenção de elevar tarifas, havia o reconhecimento de que “os EUA não têm mais condição de exercer a hegemonia e a liderança global”. Ele explicou que a prioridade norte-americana passará a ser a recomposição da economia doméstica e o aumento da influência sobre a esfera regional, particularmente na América Latina. No entanto, Pautasso acredita que a China está ganhando mais terreno na região, com relações comerciais em expansão.
*Com informações da Sputnik News.
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