Aleixo Belov é uma lenda do mar. Aos 82 anos, o fundador do Grupo Belov embarcará em mais uma expedição rumo à Sibéria, no dia 12 de abril, a bordo do veleiro Fraternidade. Vivendo quase sempre no mar, sabe que a recompensa da idade é um modo para se manter a trégua entre o passado e o futuro. A saída de Salvador, com uma tripulação mista de brasileiros e russos, passará pelo norte da Noruega em direção à Sibéria, enfrentando condições extremas. Referência na navegação à vela, esse engenheiro, escritor e navegador embarca em mais uma expedição desafiadora, tendo no comando da embarcação o especialista em navegação polar Serguei Shcherbakov. Segundo uma publicação russa, a escolha do trajeto celebra os 20 anos do BRICS, bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “É uma aliança muito forte de vários países grandes, incluindo o Brasil e a Rússia. E esses países vêm agora desempenhando um papel importante no cenário mundial”, destacou Belov. Nascido na Ucrânia e radicado na Bahia, se formou em engenharia civil antes de se tornar um navegador reconhecido. Deu aulas de matemática para filhos de pessoas influentes do nosso estado. Sua paixão pelo mar começou no final da década de 1950, quando aprendeu a mergulhar. Primeiro brasileiro a completar uma viagem de circunavegação em solitário, título concedido pela Marinha do Brasil, Belov, em 2021, inaugurou o Museu do Mar Aleixo Belov, em Salvador, um espaço cultural dedicado à navegação e à vida marítima, onde está exposto o veleiro Três Marias, construído por ele no quintal de sua casa e utilizado em suas jornadas pelo mundo.
Belov é um patrimônio cultural valioso, refletindo em suas viagens a rica tapeçaria dos mares do Brasil e do mundo, ajudando a preservar nossa identidade regional e nacional. Deixou a sua cidade natal, Marefa, na Ucrânia, aos sete meses de nascido, nos braços de sua mãe, Zinaida e do seu pai russo Dimitri, além da sua irmã Olga, dois anos mais velha que ele. Chegou ao Brasil em 1949, de navio, quando já tinha 6 anos. Dessa data em diante pareceu destinado ao mar. Tornou-se engenheiro civil, mergulhador e navegador, além de professor da cadeira de Portos da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Toda sua vida profissional foi trilhada em obras marítimas. Há mais de 40 anos está à frente da Belov Engenharia Ltda. Como navegador entrou para a história. Deu cinco voltas ao mundo, das quais três delas sozinho, a bordo do veleiro Três Marias. Sua última viagem teve como destino o Alasca, em função de uma promessa feita ao amigo velejador de origem russa, Oleg Belly. No dia 3 de dezembro de 2016 deixou o porto de Salvador, só retornando em 4 de agosto de 2018. Sua pulsação sempre teve o ritmo do balanço do mar, e ele – como navegador-, sempre soube farejar o tempo e encontrar um mar para o timoneiro na tempestade mais turbulenta.
Suas últimas viagens foram feitas a bordo do veleiro Fraternidade, especialmente preparado para o gelo. Na última foi para Sitka, criada pelos russos e que já foi capital do Alasca. De lá voltou para o México, quando resolveu fazer dali a quinta volta ao mundo, seguindo para o Havaí, via Pacífico Norte, até Majuro, Pohnpei e depois Lamotrek. Em seguida foi para Díli, no Timor-Leste, e para a Indonésia. De Bali, foi direto para Durban, percorrendo cerca de 5 mil milhas, novamente em uma estação de ciclones. Atravessou o sul da África passando em Mossel Bay e depois Cape Town, completando, assim, sua quinta volta ao mundo. Agora ele retorna ao mar para fazer sua sexta viagem, dessa vez lançado pelo veleiro Cisne Branco -que vem a Salvador também para esse fim. O Cisne Branco possui um sincretismo que está entre a beleza e a graça de um cisne, sempre navegando fazendo uma “feliz Travessia”, conforme se diz na simbologia heráldica. Em seu interior existe o Lobby da Santa, que é uma réplica, em tamanho reduzido, da que foi trazida na nau do descobrimento por Pedro Alvares Cabral, em 1500. Foi doada pelos portugueses quando da incorporação do navio à Armada, chamando a atenção para o fato de que a imagem foi feita pelos descendentes dos artesãos que esculpiram a imagem original.
O veleiro Fraternidade é um Cisne Branco em miniatura, e como todo veleiro tem o seu próprio som, que se pode ouvir no ranger de seus movimentos, cruzando os mares impulsionado por suas velas. O Fraternidade é um objeto de arte criado pelo intelecto de Belov, carregando em seu bojo os valores descritos nos versos e prosas dos nativos da Polinésia, reconhecidos como os maiores navegadores a vela do mundo. E para definir essa sensação, ninguém melhor do que Álvaro Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, a quem podemos parafrasear dizendo que lançar-se ao mar, salgado de espumas arremessadas pelos ventos é o mesmo que fustigar de água chicoteante as carnes da nossa aventura, repassando de frios oceânicos os ossos da nossa existência e espalhando de espumas de sóis, vindas do mar, nossa própria alma como uma lira nas mãos do vento.
*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.
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