Presidente do Banco Central aponta cenário internacional como fator de pressão sobre inflação e juros

Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que as incertezas do cenário internacional, impulsionadas pela guerra tarifária dos Estados Unidos, influenciam diretamente os preços de mercado e impactam a condução da política monetária no Brasil. Galípolo participou de sua primeira audiência como presidente da autarquia após ter sido aprovado pelo Senado em outubro de 2024.

O dirigente respondeu a questionamentos dos senadores sobre o quinto aumento consecutivo da taxa Selic, que atualmente está em 14,25% ao ano. Segundo ele, a elevação dos juros cumpre a função de conter o crescimento inflacionário e preservar a estabilidade da moeda.

“É papel do Banco Central atuar de forma contracíclica, promovendo o aumento da Selic quando a economia está aquecida e há pressão inflacionária”, disse Galípolo, que reconheceu o desconforto da instituição com o fato de a inflação estar fora da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, atualmente fixada em 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou 5,48% em 12 meses até março de 2025.

Conflito comercial e projeções econômicas

Galípolo explicou aos senadores que os desdobramentos da guerra tarifária em curso podem conduzir a três cenários principais: uma desaceleração econômica com alta de preços, um movimento de desinflação global devido à retração de mercados, ou um eventual acordo entre os EUA e seus aliados, restringindo as tarifas a setores estratégicos na disputa com a China.

De acordo com ele, os agentes econômicos demonstram cautela diante da volatilidade global. “É visível a busca por ativos de proteção, como o ouro, que vem atingindo recordes de valorização”, afirmou. Ele também destacou a alta correlação entre o câmbio e os preços das commodities, especialmente os produtos agrícolas. Conforme o presidente do BC, a desvalorização de cerca de 10% do real frente ao dólar elevou a inflação de alimentos em aproximadamente 1,4 ponto percentual.

Apesar das dificuldades, Galípolo ressaltou que a diversificação da pauta comercial brasileira e o tamanho do mercado interno funcionam como fatores de resiliência, o que posiciona o Brasil de forma estratégica em relação a outras economias emergentes.

Críticas e propostas sobre a política de juros

Durante a audiência, a senadora Zenaide Maia (PSD-RN) defendeu a redução das taxas de juros, mencionando a PEC 79/2019, de sua autoria, que propõe limitar as taxas de crédito ao triplo da Selic. Ela argumentou que a sociedade é afetada por juros de até 400% ao ano, especialmente em modalidades como cartão de crédito e cheque especial.

Galípolo respondeu que, em uma economia com livre fluxo de capitais, o controle artificial dos juros pode reduzir o acesso ao crédito. Contudo, afirmou ser necessário ampliar as opções de crédito mais acessível, com mecanismos estruturais que permitam a migração do crédito rotativo para modalidades com menor custo.

Impacto fiscal e dívida pública

O senador Oriovisto Guimarães (PSDB-PR) alertou para o impacto da atual taxa de juros sobre a relação dívida/PIB, prevendo que a dívida bruta pode atingir 108% do PIB em 2027, caso o crescimento econômico permaneça em 2% ao ano. Já o senador Jaques Wagner (PT-BA) criticou a manutenção prolongada de juros elevados e questionou a eficácia da estratégia de competitividade adotada pelo país.

O senador Cid Gomes (PSB-CE) apontou que a inflação prejudica de forma mais significativa as camadas mais pobres, e afirmou que o Brasil precisa sair de um “círculo vicioso” que transfere recursos da população para o sistema financeiro. Na mesma linha, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) destacou o papel da especulação cambial no final de 2024, que teria forçado o Banco Central a atuar para conter a desvalorização do real.

Oposição e responsabilidade fiscal

O líder da oposição, senador Rogério Marinho (PL-RN), criticou o que chamou de má condução da política fiscal pelo governo federal. Ele calculou que, com a Selic em 14%, os juros pagos sobre a dívida pública, hoje estimada em R$ 9 trilhões, podem chegar a R$ 900 bilhões ao ano, valor que poderia ser reduzido em até R$ 400 bilhões caso a taxa estivesse nos níveis previstos pelo Relatório Focus — 8% ao final de 2024 e 7,75% ao final de 2025.

*Com informações da Agência Senado.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading