Em abril de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a aplicação de tarifas de importação de, no mínimo, 10% sobre uma ampla gama de produtos provenientes de diversos países, incluindo China, Índia, União Europeia e Brasil. A medida representa um novo marco no processo de afastamento dos EUA das práticas de livre comércio iniciadas nos anos 1990.
A China foi o principal alvo da política tarifária, com a aplicação de tarifas que chegaram a 104%. A Índia foi atingida com tarifas de 26%, a União Europeia com 20% e o Brasil com 10%. As medidas impactaram mercados globais, provocando quedas em bolsas asiáticas, como a de Seul, e acentuando a instabilidade nos fluxos de investimento.
Especialistas em comércio internacional avaliam que a decisão marca uma inflexão histórica nas relações econômicas globais. Para Vincent Vicard, diretor-adjunto do Centro de Estudos Prospectivos e Informações Internacionais (CEPII), a iniciativa norte-americana representa “o choque mais importante da história da globalização desde o período entre guerras.”
A nova rodada tarifária foi classificada como mais abrangente do que as ações promovidas durante o primeiro mandato de Trump. Segundo Vicard, as importações americanas representam 13% de todo o comércio global, o que amplia os impactos potenciais da medida. Além disso, o presidente norte-americano introduziu discriminações tarifárias entre países, o que contraria as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A atual guinada protecionista é considerada por analistas como parte de um processo iniciado em 2015, com o Brexit e a primeira eleição de Trump. Laurence Nardon, diretora do programa Américas do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), avalia que a crise financeira global de 2008 foi o ponto de partida da insatisfação popular com a globalização, que teria levado à ascensão de lideranças contrárias ao livre mercado.
O componente ideológico da política de Trump adiciona incertezas adicionais, com propostas de retirar os EUA de compromissos internacionais logísticos e estratégicos. Isso inclui a possibilidade de cessar o apoio à segurança das rotas marítimas globais, fundamentais para o comércio internacional.
Apesar da postura americana, a maior parte dos países continua a defender o sistema multilateral de livre comércio. Ainda assim, segundo Vicard, há risco de uma escalada comercial e de reorientações forçadas nas cadeias produtivas, o que pode gerar tensões adicionais no cenário global.
Internamente, os efeitos econômicos da nova política tarifária incluem a expectativa de aumento da inflação e possibilidade de recessão nos EUA. Esses fatores podem gerar conflitos dentro da própria base de apoio do presidente, composta por setores empresariais favoráveis à continuidade das trocas comerciais internacionais.
Laurence Nardon destaca que há divergências entre membros da coalizão de Trump, como empresários do setor tecnológico e políticos liberais no campo econômico, que ainda podem se manifestar publicamente contra a medida. Entre os nomes citados está Elon Musk, identificado como crítico do isolamento comercial.
*Com informações da RFI.











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