Domingo, 18/05/2025 — A coligação Alternativa Democrática (AD), formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo Centro Democrático Social (CDS), obteve a maior votação nas eleições legislativas de Portugal, conquistando 32% dos votos válidos. Apesar do resultado expressivo, a coalizão não alcançou maioria absoluta no Parlamento, obrigando-a a buscar alianças para formar governo.
Disputa acirrada entre PS e Chega pelo segundo lugar
A segunda colocação foi disputada voto a voto entre o Partido Socialista (PS), de centro-esquerda, e o Chega (CH), legenda de direita radical liderada por André Ventura. Com quase 100% das urnas apuradas, ambos os partidos oscilavam entre 22% e 23% dos votos, com uma diferença marginal.
Portugal enfrenta instabilidade institucional e sucessivas eleições
O país atravessa um período de instabilidade política, com três eleições legislativas em três anos. Em 2021, o então primeiro-ministro socialista António Costa teve o governo fragilizado após a rejeição do Orçamento de Estado por seus aliados. Embora tenha obtido maioria absoluta em 2022, Costa renunciou em 2024, após investigação por suposto favorecimento em projetos energéticos.
Em seu lugar, Luís Montenegro, do PSD, assumiu o cargo de primeiro-ministro. No entanto, seu governo foi marcado por denúncias de conflito de interesse, envolvendo uma empresa da família e contratos de cassinos. A pressão política resultou na dissolução do Parlamento e na convocação de novas eleições em 2025.
Chega amplia presença e pressiona o centro-direita
O partido Chega expandiu sua representação parlamentar com uma plataforma centrada em segurança pública, imigração e identidade nacional. Em reação, a Alternativa Democrática passou a incorporar temas caros ao eleitorado conservador, em estratégia interpretada como tentativa de conter a ascensão da direita radical.
Durante a campanha, Montenegro anunciou a expulsão de 18 mil imigrantes, incluindo 449 brasileiros, como parte de um processo de regularização que envolvia mais de 110 mil pedidos. A medida foi explorada eleitoralmente, apesar de representar uma minoria dos casos.
Segundo o cientista político Hugo Ferrinho, trata-se de um “fenômeno de acomodação temática”, no qual partidos tradicionais absorvem a pauta da extrema-direita para esvaziar sua base eleitoral.
Escândalos enfraquecem discurso moralista do Chega
Apesar do discurso anticorrupção, o Chega foi atingido por diversos escândalos envolvendo seus quadros:
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Nuno Pardal, vereador em Lisboa, foi acusado de relações sexuais com menor e se demitiu após a denúncia.
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Manuel Arruda foi filmado furtando malas em aeroportos e vendendo itens online; deixou o partido, mas manteve o mandato como independente.
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José Paulo Sousa, deputado, foi preso por dirigir embriagado e continuou filiado após admitir o fato.
Esses episódios revelam contradições entre o discurso moralizante e as práticas internas da legenda. Ainda assim, o partido cresceu eleitoralmente, superando sua votação anterior.
Impasses para a formação de governo
Sem maioria no Parlamento, a Alternativa Democrática precisará negociar apoios parlamentares. O líder Luís Montenegro descartou aliança com o Chega, o que restringe o leque de possibilidades e pode resultar em um governo minoritário, dependente de acordos pontuais.
Para o cientista político António Costa Pinto, a fidelidade ideológica dos eleitores do Chega reduz o impacto dos escândalos sobre o desempenho eleitoral, mantendo o partido competitivo. A governabilidade dependerá da capacidade de articulação política da AD e da postura da oposição.
André Ventura: trajetória, alianças e estratégias
André Ventura, nascido em 1983, é líder do partido Chega, fundado por ele em 2019. Formado em Direito, foi funcionário público e professor universitário. Ingressou na política como vereador pelo PSD em Loures e se lançou à presidência da República em 2021, obtendo 7% dos votos.
Liderando uma legenda que se define como nacionalista, conservadora e liberal, Ventura tornou-se o principal expoente da extrema-direita em Portugal. Ele mantém alianças com Jair Bolsonaro e Matteo Salvini, com quem articula uma cúpula da direita radical, programada para Lisboa em maio de 2025.
Durante visita de Luiz Inácio Lula da Silva a Portugal, Ventura criticou duramente o presidente brasileiro, afirmando que “Lula representa o pior da política”. A legenda organizou protesto em abril de 2023, com apoio simbólico do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Propostas e controvérsias
O programa do Chega inclui propostas como:
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Castração química ou física para estupradores;
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Prisões perpétuas e endurecimento de penas por corrupção e homicídio;
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Proibição de cargos públicos por 10 anos para condenados por corrupção;
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Obrigatoriedade de trabalho forçado para presos.
Ventura é acusado de promover discurso xenófobo, sobretudo contra muçulmanos, ciganos e outras minorias. Em 2019, publicou:
“Quantos paquistaneses vão ter de cortar a cabeça a mais mulheres para percebermos o perigo da vaga islâmica?”
Apesar disso, não ataca os brasileiros residentes em Portugal, reconhecendo a importância da comunidade.
Sobre o regime de Salazar, declarou que o período do Estado Novo atrasou o país, embora tenha ressignificado o lema “Deus, Pátria e Família”, acrescentando o termo “trabalho” no congresso do Chega em 2021.
Crescimento nas pesquisas eleitorais
Pesquisas do Instituto Intercampus indicam que o Chega saltou de 7,2% para 13,5% nas intenções de voto em um ano, consolidando-se como terceira força política. O avanço evidencia o fortalecimento da extrema-direita e a crescente insatisfação com os partidos tradicionais.
Imigração brasileira em Portugal foi tema central nas eleições legislativas
A integração cultural de imigrantes, com destaque para os brasileiros que ultrapassam meio milhão de residentes legais, foi um dos eixos centrais do debate político nas eleições legislativas encerradas neste domingo (18/05/2025) em Portugal. Os eleitores portugueses foram às urnas pela terceira vez em três anos após a renúncia do primeiro-ministro Luis Montenegro, da Aliança Democrática (AD), após perder um voto de confiança no Parlamento.
A coligação Alternativa Democrática (AD), formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo Centro Democrático Social (CDS), obteve a maior votação, conquistando 32% dos votos válidos. Apesar do resultado expressivo, a coalizão não alcançou maioria absoluta no Parlamento, o que a obriga a negociar alianças para formar governo.
Imigração em foco durante o pleito
Montenegro negou irregularidades nas acusações que envolveram sua família e liderou novamente a coalizão AD. A imigração foi explorada como tema polêmico durante a campanha, paralelamente a preocupações com a baixa média salarial de 2 mil euros (R$ 12 mil), em contraste com a média da União Europeia de 3.155 euros (R$ 20 mil).
Portugal atravessa um processo de envelhecimento populacional acentuado e, ao mesmo tempo, uma elevação expressiva do número de imigrantes. Em dez anos, o contingente de estrangeiros triplicou, atingindo cerca de 1,5 milhão de pessoas, ou 14% da população.
A comunidade brasileira e seu impacto crescente
Entre os principais grupos, os brasileiros representaram a maior comunidade estrangeira em Portugal. Segundo o Itamaraty, eram mais de 513 mil brasileiros residindo legalmente no país — um crescimento de 85% entre 2020 e 2023. O número ultrapassou o de brasileiros em outros países europeus, como Reino Unido e Espanha.
Portugal atrai brasileiros por fatores como segurança, idioma comum, facilidade burocrática e protocolos de validação de diplomas. Uma pesquisa do LinkedIn indicou que o país era o segundo destino mais buscado por brasileiros que desejavam trabalhar no exterior, atrás apenas dos Estados Unidos.
Xenofobia, regulação migratória e discurso político
O crescimento migratório intensificou atritos culturais e episódios de xenofobia, alimentando a narrativa do partido Chega, liderado por André Ventura. Com uma pauta conservadora e anti-imigração, o Chega se consolidou como terceira força política no país. Ventura, apoiado por Jair Bolsonaro, evitou confrontos diretos com brasileiros, pois parte de sua base eleitoral era composta por imigrantes brasileiros conservadores.
Em maio, o governo anunciou a notificação de 18 mil imigrantes em situação irregular para que deixassem o país. A maior parte seriam brasileiros. A medida foi criticada como populismo eleitoral, pois coincidiu com a disputa por votos com a direita radical.
Propostas em disputa
Luis Montenegro, embora com discurso moderado, manteve posicionamentos ambíguos: anunciou intenções de recrutar professores brasileiros, mas também endureceu o controle migratório. Pedro Nuno Santos, do Partido Socialista, defendeu combate ao discurso de ódio e melhor integração cultural, mas reconheceu falhas em gestões anteriores.
Questões culturais e percepção social
O aumento da presença brasileira influenciou a cultura local. Palavras do português brasileiro foram incorporadas ao cotidiano lusitano, o que alguns classificaram como “brasileirismo”. Contudo, também houve reações negativas, como o uso do termo “Guiana Brasileira” para se referir a Portugal, gerando desconforto em parte da população local.
Iniciativas como o uso de PIX em redes de varejo portuguesas para facilitar compras de brasileiros demonstraram a integração econômica crescente. No entanto, o desafio da integração cultural e institucional permanece um ponto sensível no debate nacional.
*Com informações da BBC Brasil.

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