Um estudo publicado em 2019 na revista Trabalho, Educação e Saúde analisou a trajetória histórica da evolução, distribuição e expansão dos cursos de medicina no Brasil, entre 1808 e 2018, evidenciando a privatização progressiva do ensino médico, a concentração regional das vagas e o papel estratégico dos governos na interiorização das escolas. O artigo intitulado “Evolução, distribuição e expansão dos cursos de medicina no Brasil (1808-2018)” é de autoria de Bruno Luciano Carneiro Alves de Oliveira, Sara Fiterman Lima, Marina Uchoa Lopes Pereira e Gerson Alves Pereira Júnior.
Seis períodos governamentais e a expansão das escolas médicas
A análise abrangeu seis ciclos históricos: de 1808 a 1963, governos militares (1964-1988), Collor-Itamar (1989-1994), FHC (1995-2002), Lula (2003-2010) e Dilma-Temer (2011-2018). O marco inicial da expansão se deu nos anos 1960, mas o crescimento se intensificou a partir da década de 1990, atingindo o ápice em 2014, durante o Programa Mais Médicos (PMM), implantado no governo Dilma Rousseff.
“Somente entre 2011 e 2018 foram inauguradas mais escolas de ensino médico (n=119) do que as que foram criadas em 194 anos de história do país (1808 a 2002)”, ressaltam os autores.
Predomínio do setor privado e interiorização das vagas
Segundo o levantamento, até 1963 predominavam instituições públicas. A partir dos governos militares, iniciou-se a privatização do ensino médico, processo consolidado nos governos seguintes. Atualmente, 58,5% das escolas e 65,8% das vagas estão sob gestão privada.
A pesquisa também identificou um movimento de interiorização, especialmente durante os governos Lula e Dilma-Temer, com instalação de escolas em cidades médias e pequenas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No entanto, a concentração regional persiste, com destaque para o Sudeste, que ainda concentra 46,1% das vagas, sendo o estado de São Paulo responsável por 21,3% do total nacional.
Críticas à eficácia do Programa Mais Médicos
Apesar da intenção de descentralizar a formação médica, os autores afirmam que o PMM favoreceu principalmente instituições privadas e não foi acompanhado por políticas estruturantes: “Não houve aumento e ocupação de vagas de residência médica. Também não se investiu em infraestrutura para a rede de saúde nem tampouco para aumentar o volume de atendimento assistencial”.
Formação médica sob a lógica do mercado
O artigo observa que a expansão das escolas foi influenciada por fatores políticos, econômicos e mercadológicos, sendo “orientada pelas leis de mercado e interesses de grupos econômicos”, com financiamento público via programas como Fies e ProUni. Tal lógica, segundo os pesquisadores, compromete a qualidade da formação, sobretudo em regiões de maior vulnerabilidade social.
A desigual distribuição de médicos no Brasil
Mesmo com o aumento expressivo do número de médicos — de 58.994 em 1970 para 451.777 em 2017 — a distribuição segue desigual. Em 2018, a razão nacional era de 2,18 médicos por mil habitantes, mas ficava em 1,16 na Região Norte e 1,41 no Nordeste, muito abaixo dos índices do Sudeste (2,81) e Sul (2,31).
Reflexões sobre avaliação e políticas públicas
O estudo critica a suspensão da Avaliação Nacional Seriada dos Estudantes de Medicina e defende a implementação de mecanismos de controle e acompanhamento mais eficazes. Também questiona se a expansão recente tem sido acompanhada por infraestrutura adequada, formação docente e inserção qualificada dos estudantes no SUS.
Os autores concluem que a expansão do ensino médico, embora necessária, deve vir acompanhada de planejamento rigoroso, avaliações periódicas e políticas integradas de saúde e educação. Entre os desafios apontados estão o controle da qualidade dos cursos, a fixação dos profissionais em regiões remotas e a adequação curricular à realidade do SUS.
Principais dados
1. Períodos governamentais analisados
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1808–1963: Monarquia e primeiros governos republicanos
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1964–1988: Regime militar e governo Sarney
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1989–1994: Collor e Itamar Franco
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1995–2002: Fernando Henrique Cardoso (FHC)
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2003–2010: Luiz Inácio Lula da Silva
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2011–2018: Dilma Rousseff e Michel Temer
2. Expansão dos cursos
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Total de escolas médicas em 2018: 323
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Picos de criação: 2014–2015 (51 cursos) e 2017–2018 (45 cursos)
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Período Dilma–Temer foi responsável por 44,6% das escolas existentes
3. Natureza jurídica das instituições
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Ensino médico era majoritariamente público até 1963
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A partir dos anos 1990, o setor privado tornou-se predominante
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Em 2018:
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58,5% das escolas são privadas
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65,8% das vagas ofertadas são em instituições privadas
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4. Interiorização e localização
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Redução da concentração nas capitais a partir dos anos 1990
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Crescimento de escolas em:
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Regiões metropolitanas fora das capitais
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Cidades de médio porte (50 a 100 mil habitantes)
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Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste
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5. Distribuição regional
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Sudeste: 46,1% das vagas nacionais (São Paulo: 21,3%)
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Norte: apenas 7,5% das vagas
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Centro-Oeste: 8,2% das vagas
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Sul e Nordeste: moderado crescimento com interiorização
6. Programas e políticas públicas
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Destaque para:
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Programa Mais Médicos (PMM) – Lei nº 12.871/2013
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FIES e ProUni – financiamento público para ensino privado
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Ausência de políticas estruturantes de suporte à expansão (residência médica, infraestrutura e avaliação contínua)
7. Desigualdade na fixação de médicos
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Em 2018, o Brasil possuía 2,18 médicos por mil habitantes
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Sudeste: 2,81
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Sul: 2,31
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Centro-Oeste: 2,36
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Nordeste: 1,41
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Norte: 1,16
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8. Desafios e críticas
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Formação médica voltada ao mercado, não à equidade social
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Déficit de políticas de fixação profissional e acompanhamento pedagógico
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Avaliações nacionais (como o Revalida e o Exame Nacional Seriado) descontinuadas ou sem aplicação plena
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