Cine Santanópolis/Timbira: O maior cinema de Feira de Santana, seu apogeu, declínio e a memória preservada na cultura local

No coração de Feira de Santana, cidade baiana conhecida como a “Princesa do Sertão”, o Cine Santanópolis, fundado em 22 de novembro de 1958, representou um marco na modernização e no fortalecimento do circuito cultural regional. Idealizado pelo empresário e educador Áureo de Oliveira Filho, o cinema foi o maior e mais sofisticado equipamento de exibição cinematográfica da cidade, posicionando-se como referência na Bahia interiorana.

O Cine Santanópolis: arquitetura e tecnologia de ponta

O projeto arquitetônico do Cine Santanópolis seguiu as tendências modernas dos grandes cinemas brasileiros da década de 1950. Com capacidade superior a mil pessoas, distribuídas entre 782 poltronas estofadas na plateia e camarotes no balcão, a estrutura foi pensada para oferecer conforto e imponência. Sua tela panorâmica de nylon e a projeção em Cinemascope/VistaVision garantiam uma experiência visual de alta qualidade, acompanhada por um sistema de som moderno.

A fachada imponente do edifício destacava-se na Avenida Senhor dos Passos, uma das principais artérias comerciais e culturais de Feira de Santana. A escolha dessa localização estratégica ampliou o impacto do cinema na vida urbana local, favorecendo o acesso de públicos variados e consolidando o centro como espaço de convivência e lazer.

Um centro de sociabilidade e difusão cultural

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o Cine Santanópolis não foi apenas uma sala de exibição, mas um espaço de sociabilidade. As filas que se formavam nas calçadas, especialmente em finais de semana e nas estreias, refletiam o hábito de assistir ao cinema como evento social. Era comum famílias e grupos de amigos se reunirem para compartilhar o momento.

No saguão de entrada, o público interagia, apreciava os cartazes dos lançamentos e frequentava o bar do cinema, onde o consumo de pipoca, chocolates e refrigerantes complementava a experiência. Durante as matinês de domingo, o cinema se transformava em um centro de lazer infantojuvenil, reunindo crianças e adolescentes em um ambiente animado e seguro.

O Cine Santanópolis também era um espaço para a construção de laços comunitários. Relatos da época destacam que ali se davam encontros amorosos e encontros casuais que fortaleciam o tecido social da cidade.

A dimensão artística: do cinema ao teatro

A multifuncionalidade do espaço era uma de suas principais características. O grande palco, além de exibir filmes, recebia peças teatrais, shows musicais e cerimônias cívicas, o que tornou o Santanópolis um polo cultural para Feira de Santana e municípios vizinhos.

Grandes nomes da música nacional, como Nelson Gonçalves, Ângela Maria e Maysa Matarazzo, passaram pelo palco do Santanópolis, promovendo apresentações que atraíam público de toda a região. O cinema também sediou formaturas, festas escolares e encontros religiosos, funcionando como um verdadeiro centro comunitário.

Festivais e programações temáticas

O Cine Santanópolis inovou ao realizar festivais de cinema temáticos, estratégia que buscava diversificar a programação e educar o público local em relação a outras cinematografias.

Festival de Cinema Japonês (1960)

De 5 a 11 de maio de 1960, foram exibidos sete longas-metragens japoneses, destacando a obra “Fortaleza Escondida”, de Akira Kurosawa, diretor fundamental para a história do cinema mundial. A iniciativa proporcionou um contato inédito do público feirense com a estética e a narrativa do cinema asiático.

Festival de Filmes de Guerra da MGM (1966)

Em junho de 1966, o cinema promoveu um festival com produções ambientadas na Segunda Guerra Mundial, aproveitando o acervo da Metro-Goldwyn-Mayer. A mostra incluiu títulos emblemáticos como “O Preço da Glória” e “They Were Expendable”, contextualizando acontecimentos históricos por meio da sétima arte.

Estreias de superproduções

Durante os anos de ouro, a sala recebeu estreias de grandes épicos e dramas hollywoodianos. Filmes como “Ben-Hur” (1959), “Os Dez Mandamentos” (1956), “Spartacus” (1960) e “Sindicato de Ladrões” (1954) lotaram as sessões. O mesmo se repetiu, anos depois, com a estreia de blockbusters como “O Poderoso Chefão” (1972) e “O Bebê de Rosemary” (1968), já na fase como Cine Timbira.

A reinauguração como Cine Timbira

No início dos anos 1970, o Santanópolis passou por reformas estruturais e reabriu em março de 1972 com o nome de Cine Timbira. A nova administração buscou alinhar-se às transformações do setor exibidor. O nome Timbira, inspirado em povos indígenas brasileiros, sugeriu um resgate cultural regional, além de marcar uma fase de rebranding do espaço.

O Cine Timbira manteve a estrutura de cine-teatro e a proposta de exibir tanto filmes comerciais quanto produções nacionais e do Cinema Novo, como o longa “Independência ou Morte” (1972). Mesmo diante da crescente popularização da televisão, o Timbira ainda recebia público fiel, atraindo espectadores de cidades vizinhas.

O impacto urbano e o declínio das salas de rua

Nos anos 1980 e 1990, o panorama do consumo cultural no Brasil mudou significativamente. A ascensão da televisão e a chegada dos videocassetes alteraram os hábitos de lazer. A partir de 1995, a tendência dos multiplex em shoppings centers já estava consolidada, oferecendo ao público infraestrutura mais moderna, múltiplas salas e conveniências que os cinemas tradicionais não podiam replicar.

A especulação imobiliária e a transformação do centro urbano de Feira de Santana colaboraram para o esvaziamento das salas de rua. O prédio do Cine Timbira, com sua arquitetura monumental e espaço único, tornou-se oneroso para uma operação sustentada por uma única tela.

Em abril de 1997, após 39 anos de história (somando as fases como Santanópolis e Timbira), o cinema encerrou suas atividades de forma definitiva. Seu fechamento seguiu a tendência nacional de desaparecimento dos cinemas de rua em cidades médias e pequenas.

O legado e a preservação da memória

Apesar da desativação, o Cine Santanópolis/Timbira permanece vivo na memória coletiva de Feira de Santana. Pesquisadores locais e instituições como o Memorial da Feira preservam imagens e documentos históricos sobre o espaço. Além disso, relatos de antigos frequentadores alimentam o imaginário da cidade, mantendo viva a lembrança de um tempo em que ir ao cinema era um rito social e familiar.

O antigo prédio, hoje ocupado por uma unidade das Lojas Americanas, mantém em sua estrutura traços da arquitetura original, sendo um lembrete físico da importância cultural do local. O Cine Santanópolis/Timbira figura, assim, como símbolo de uma era marcada pela presença dos cinemas como centros comunitários e de lazer.

Reflexão crítica

O encerramento do Cine Timbira representa um microcosmo da crise enfrentada pelos cinemas de rua em todo o Brasil a partir dos anos 1980. Essa trajetória ilustra a transição de um modelo de sociabilidade urbana centrado em grandes salas independentes para um consumo cultural mais fragmentado e mediado pela tecnologia doméstica e pela lógica dos shoppings centers.

O caso do Santanópolis/Timbira ressalta a ausência de políticas públicas de preservação de espaços culturais históricos, comum em diversas cidades do interior brasileiro. Ainda que o cinema esteja eternizado em livros, blogs e arquivos públicos, sua perda material revela uma fragilidade recorrente na preservação do patrimônio cultural do país.

Etimologia

Timbira é a designação de um conjunto de povos indígenas brasileiros que falam a língua timbira, pertencente ao tronco Macro-Jê. Entre eles estão os Apanyekrá, Apinayé, Canela, Gavião do Oeste, Krahó, Krinkatí e Pukobyê. Algumas etnias timbiras deixaram de existir como grupos autônomos, como os Krenyê e Kukoikateyê, hoje integrados a povos tupi-guarani como os Tembé e Guajajara, e outras, como os Kenkateyê e Krorekamekhrá, dissolveram-se entre outros grupos timbiras. A designação “Canela” é aplicada a três povos do sul do Maranhão: Ramkokamekrá, Apanyekrá e Kenkateyê. Este último foi exterminado em 1913. Atualmente, o termo Canela refere-se principalmente aos Ramkokamekrá, sendo uma abreviação de “Canela Fina”, denominação histórica dos “Capiecrans”, nome antigo dos Ramkokamekrá.

Fachada do Cine Santanópolis na noite de sua inauguração em 1958, exibindo “Sinfonia Interrompida”, e sua transformação em Cine Timbira nos anos 1970.
Fachada do Cine Santanópolis na noite de sua inauguração em 1958, exibindo “Sinfonia Interrompida”, e sua transformação em Cine Timbira nos anos 1970.

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