Empresário investigado pela PF na Operação Overclean emprestou R$ 435 mil ao deputado Paulo Magalhães, do PSD

Transferências financeiras entre empresário do setor de limpeza urbana e parlamentar baiano ocorreram entre 2017 e 2018, segundo relatório do Coaf usado na Operação Overclean.

Reportagem de Natália Portinari e Aguirre Talento — publicada nesta quarta-feira (11/06/2025) no UOL —  revela que o empresário Marcos Moura, conhecido como “rei do lixo” por comandar contratos milionários de limpeza urbana com prefeituras, transferiu R$ 435 mil ao deputado federal Paulo Magalhães (PSD-BA) entre os anos de 2017 e 2018. As movimentações foram detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e estão documentadas na Operação Overclean, investigação da Polícia Federal (PF) que apura suspeitas de fraude a licitações e desvio de recursos públicos.  Quarta-feira, 11/06/2025

De acordo com o relatório do Coaf, a primeira movimentação ocorreu em 31 de outubro de 2017, quando Marcos Moura, por meio da conta de uma de suas empresas, transferiu R$ 185 mil ao parlamentar. A devolução do montante teria ocorrido quatro meses depois, conforme comprovantes apresentados por Paulo Magalhães à reportagem.

O segundo repasse, no valor de R$ 250 mil, foi realizado em 14 de novembro de 2018, tendo sido restituído em 21 de março de 2019. Segundo Magalhães, os valores referem-se a empréstimos pessoais destinados a cobrir dívidas vinculadas a um empreendimento rural e não guardam relação com o exercício do mandato parlamentar.

Implicações e conexões políticas

As transações estão sendo analisadas pela PF como indícios de possível envolvimento de agentes políticos com o esquema investigado. O empresário Marcos Moura é apontado como figura central no suposto conluio entre empresas de coleta de lixo, dedetização e pavimentação com órgãos públicos municipais e federais.

Moura possui laços estreitos com integrantes da família Magalhães, incluindo o próprio Paulo Magalhães e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Segundo apuração, o empresário compõe atualmente a executiva e o diretório nacional do União Brasil, por indicação de ACM Neto. Além disso, Moura é sócio de uma aeronave com Renata Magalhães, irmã do ex-prefeito.

Avanço da investigação da PF

A Operação Overclean, deflagrada no fim de 2024, apura fraudes em licitações públicas e pagamento de propina em contratos administrativos envolvendo empresas controladas por Marcos Moura. O inquérito foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) após surgirem indícios de pagamento de vantagens indevidas a um assessor do deputado federal Elmar Nascimento (União-BA). Elmar também é investigado por ter adquirido um imóvel de uma empresa ligada à filha de Moura, mas nega qualquer ilegalidade.

A terceira fase da operação foi autorizada em abril de 2025 pelo ministro Nunes Marques, relator do caso no STF, e incluiu mandados de busca e apreensão contra o empresário e outros suspeitos.

Histórico partidário e relações institucionais

Paulo Magalhães, deputado federal desde 1999, é sobrinho do ex-governador e ex-senador baiano Antônio Carlos Magalhães (ACM). Filiado anteriormente ao DEM, partido histórico de ACM, Magalhães migrou para o PSD, legenda que hoje compõe a base de apoio ao governo federal liderado pelo PT. A mudança de sigla evidencia o realinhamento político do parlamentar e a complexidade das alianças institucionais na Bahia, onde PSD e União Brasil disputam espaços de poder.

Ausência de pronunciamento de Marcos Moura

A reportagem do UOL tentou contato com Marcos Moura, mas não obteve retorno até a publicação. A defesa do empresário ainda não se manifestou oficialmente sobre as transferências, tampouco sobre as acusações constantes da investigação em curso.

Linha do Tempo: Operação Overclean

A seguir, uma linha do tempo clara e estruturada da Operação Overclean, destacando suas fases principais e marcos investigativos:

  • Final de 2023
    Início das investigações da PF sobre esquema ligado a fraudes em licitações no DNOCS, com levantamento preliminar de contratos e coleta de evidências como interceptações, emails e planilhas.

  • 03 de dezembro de 2024
    Abordagem ao avião com executivos da quadrilha em voo de Salvador a Brasília. Foram apreendidas “contabilidades clandestinas” e documentos que embasaram a continuidade das apurações.

  • 10 de dezembro de 2024 – 1ª fase
    Deflagração da Operação Overclean. Cumpridos mandados de busca e apreensão, além de prisões. Alvos incluem o empresário José Marcos Moura (“Rei do Lixo”) e empresas ligadas ao DNOCS na Bahia.

  • 23 de dezembro de 2024 – 2ª fase
    Nova etapa em Brasília, Bahia e DF. PF e MPF executam mandados (buscas, prisões e sequestro de bens no total de R$ 4,7 milhões), com foco em desvios estimados em R$ 1,4 bilhão.

  • 15 de janeiro de 2025
    Inquérito encaminhado à STF por indícios de envolvimento de pessoas com foro privilegiado, especialmente de membros do União Brasil.

  • 03 de abril de 2025 – 3ª fase
    Deflagração pela PF e CGU. São cumpridos 16 mandados de busca e apreensão em Salvador (BA), São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG) e Aracaju (SE), com afastamentos de servidores públicos. Investigam repasses via emendas parlamentares, envolvendo R$ 1,4 bilhão.

Principais desdobramentos e fatos relevantes

  • Atuação do “Rei do Lixo”
    José Marcos Moura aparece em todas as fases como operador político e central nos repasses, incluindo valores à cúpula do país.

  • Envolvimento do DNOCS e emendas parlamentares
    O esquema estava centralizado em contrato federais, com direcionamento de emendas via orçamento secreto.

  • Evolução para foro privilegiado
    O caso escalou para o STF em 15 de janeiro de 2025, após indícios alcançarem deputados federais e outros políticos com foro.

Resumo Executivo – Linha do Tempo

Data Fase / Evento Destaques
Final de 2023 Investigação inicial Foco no DNOCS e coleta de provas
03/12/2024 Apreensão no avião Documentos e contabilidades clandestinas
10/12/2024 1ª fase Overclean Prisões e buscas iniciais
23/12/2024 2ª fase (PF + MPF) Mandados e sequestro de bens
15/01/2025 Inquérito no STF Entrada de foro privilegiado
03/04/2025 3ª fase (PF + CGU) Ações em quatro estados, 16 mandados

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