A canção “Eternas Ondas”, composta por Zé Ramalho (José Ramalho Neto) e gravada por Fagner em 1980, completou 45 anos. A obra tornou-se referência na música popular brasileira por sua estrutura poética reiterativa, símbolos religiosos e naturais e crítica às forças estruturantes da história e da sociedade. Amplamente estudada por teóricos da literatura, da religião e da política, a composição permanece atual diante dos impasses ambientais, culturais e políticos que marcam o século XXI.
Escrita por Zé Ramalho e ofertada inicialmente a Roberto Carlos, a canção não chegou a ser gravada por ele. A interpretação de Fagner, registrada no álbum Eternas Ondas (CBS, 1980), consolidou a parceria entre dois dos mais relevantes compositores da geração nordestina pós-tropicalista.
A letra, estruturada por estrofes sem refrão fixo, evidencia um percurso poético que rompe com o formato da canção comercial, adotando linguagem profética, oral e simbólica, e contribuindo para consolidar a estética autoral de Ramalho, influenciada por rock progressivo, literatura bíblica e tradição do cordel.
Interpretações teóricas da canção
Leitura teológica: o dilúvio como alegoria do juízo
Estudos vinculados à teologia da cultura, como os de Paul Tillich, consideram que “Eternas Ondas” apresenta uma narrativa mítica contemporânea. A metáfora das “ondas” é interpretada como símbolo do Dilúvio, representando o julgamento coletivo diante da transgressão humana, ambiental ou moral.
“A cultura é a forma pela qual a religião se expressa.” — Paul Tillich
Nesse sentido, a canção mobiliza uma simbologia religiosa sem dogmatismo, articulando transcendência e crítica histórica.
Abordagem literária: a poética do retorno e do colapso
Pesquisadores da área de literatura, como Northrop Frye, observam a presença de arquetípicos universais no texto, como a água devastadora, a palavra criadora e o vento mobilizador. O uso de repetições não apenas estrutura o texto ritmicamente, mas reforça a ideia de ciclos históricos inevitáveis, aproximando a canção de uma oralidade cerimonial.
“A função da metáfora é transferir o leitor a outro campo de consciência.” — Northrop Frye
Leitura sociopolítica: crítica à história autoritária
Do ponto de vista dos estudos sociais, a canção opera como alegoria crítica ao autoritarismo institucional. O verso “Seguindo a linha / do que foi escrito pelo mesmo lábio tão furioso” é lido como denúncia ao discurso oficial que define os rumos da história. O “vento” que arrasta multidões remete à ação das massas em processos históricos de ruptura.
“Toda literatura é expressão da tensão entre ordem e transformação.” — Antonio Candido
Estrutura poética e análise da letra
Onda como destruição cíclica e silenciosa
“Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas / Que vieram como gotas em silêncio tão furioso”
A imagem poética conjuga opostos: gota/silêncio/fúria. A destruição é iminente, porém gradual, agindo com violência contida. A metáfora é ambiental, histórica e psíquica.
Homens e animais diante da devastação
“Derrubando homens entre outros animais / Devastando a sede desses matagais”
Há uma igualação entre espécies, sugerindo que o colapso atinge indistintamente o humano e o não-humano. O uso de “matagais” alude ao desejo de sobrevivência da natureza.
Saber e memória como alvos da destruição
“Devorando árvores, pensamentos”
As árvores, símbolo de vida e ancestralidade, e os pensamentos, representação do intelecto, são ambos alvos da aniquilação. A canção aponta para uma crítica à modernidade técnica e à sua negligência cultural.
A linguagem como instrumento de dominação
“Seguindo a linha / do que foi escrito pelo mesmo lábio / tão furioso”
O “lábio” representa a instância discursiva soberana: o Estado, a religião dogmática, ou o tempo histórico. O destino é imposto por quem narra — e narra com fúria.
Vento e multidão: o sujeito dissolvido na massa
“E se teu amigo vento não te procurar / é porque multidões ele foi arrastar”
O vento é força histórica coletiva, que não se detém no indivíduo. A ausência da “amizade” do vento indica o abandono do sujeito e a imposição do movimento coletivo.
Estética da repetição e construção musical
A repetição não é apenas estrutura poética — é recurso ideológico. A reiteração de imagens, sons e ritmos transforma a letra em uma liturgia crítica. Ao recusar o refrão, a canção simula o eterno retorno, reforçando seu tema central: ciclos de colapso e reconstrução.
Musicalmente, a obra se insere na intersecção entre o cordel nordestino, com sua oralidade, e o rock psicodélico, com sua densidade sonora e liberdade formal. As referências a Bob Dylan e Pink Floyd são recorrentes nos estudos comparativos.
Atualidade da canção: Mito, crítica social, poética e religiosidade simbólica
Mais de quatro décadas após sua estreia, “Eternas Ondas” permanece como síntese poética da crise moderna. Diante da intensificação das mudanças climáticas, da manipulação discursiva por agentes de poder e da perda de referências culturais coletivas, a obra segue interpelando o presente com a força de seu simbolismo e de sua crítica.
A canção de Zé Ramalho, ao ser interpretada por Fagner, amplia seu alcance e se inscreve como patrimônio estético da resistência simbólica no Brasil.
“Eternas Ondas”, de Zé Ramalho e interpretada por Fagner, é uma composição que transcende o formato da canção popular ao articular mito, crítica social, poética e religiosidade simbólica. Sua permanência como objeto de análise acadêmica, cultural e estética comprova sua relevância enquanto instrumento de leitura do Brasil e do mundo. Uma obra que continua a retornar, como as ondas que anuncia.
Perfil de teóricos abordados no texto
*Paul Tillich
Paul Johannes Oskar Tillich foi um teólogo e filósofo da religião germano-americano, cuja obra exerceu ampla influência no pensamento teológico e filosófico do século XX. Sua reflexão abordou as implicações existenciais do cristianismo diante das inquietações levantadas pela filosofia existencialista, sobretudo no contexto do pós-guerra, e buscou articular de forma sistemática a relação entre teologia, cultura e experiência humana. Tillich propôs uma abordagem que unia o rigor conceitual da filosofia à profundidade simbólica da religião, contribuindo significativamente para o diálogo entre fé e razão em um mundo secularizado.
*Northrop Fry
Herman Northrop Frye foi um destacado crítico literário canadense, amplamente reconhecido como um dos mais influentes intelectuais do século XX no campo da teoria literária. Ganhou projeção internacional com a publicação de sua obra inaugural, Fearful Symmetry (1947), na qual propôs uma reinterpretação profunda da poesia de William Blake, destacando a coerência simbólica e mitológica do autor inglês.
Frye é amplamente conhecido por desenvolver a teoria dos arquétipos literários, sistematizada em sua obra seminal Anatomy of Criticism (1957). Nesse trabalho, defendeu a existência de estruturas narrativas recorrentes, de natureza simbólica e mitológica, que atravessam os diversos gêneros e períodos literários, ancorando-se no pensamento de Carl Gustav Jung e na crítica formalista. Sua abordagem contribuiu decisivamente para consolidar uma crítica literária sistemática, comparatista e estruturalista.
*Carl Gustav Jung
Carl Gustav Jung (1875–1961) foi um renomado psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica. Formado em Medicina pela Universidade de Basileia, especializou-se em psiquiatria em Zurique, onde iniciou sua carreira sob influência de Eugen Bleuler. Inicialmente colaborador de Sigmund Freud, Jung rompeu com a psicanálise freudiana ao propor uma concepção mais ampla do inconsciente, introduzindo os conceitos de inconsciente coletivo, arquétipos e processo de individuação. Seus estudos abrangeram também mitologia, religiões comparadas, alquimia, arte, astrologia e filosofia, ampliando as fronteiras entre ciência e espiritualidade. Entre seus principais arquétipos estão o Self, a Sombra, a Anima e o Animus, expressões simbólicas que, segundo Jung, moldam a estrutura da psique humana.
Sua obra exerceu forte influência não apenas na psicologia, mas também na teologia, literatura e nas ciências humanas em geral. Jung defendia que o caminho para a saúde mental exigia a integração consciente dos conteúdos inconscientes, em um processo de autorrealização e totalidade. Publicou obras de grande impacto, como Tipos Psicológicos, O Eu e o Inconsciente e Memórias, Sonhos, Reflexões. Faleceu em Küsnacht, Suíça, em 6 de junho de 1961, deixando um legado intelectual duradouro e uma abordagem inovadora da mente humana, cujos efeitos ainda se fazem sentir em diversas escolas contemporâneas de psicoterapia e pensamento simbólico.
*Antonio Candido
Antonio Candido de Mello e Souza foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XX, destacando-se como crítico literário, sociólogo, ensaísta e professor universitário. Sua obra se caracteriza pela articulação entre literatura e sociedade, com forte compromisso com a formação cultural do Brasil.
Graduado em Direito e em Filosofia, atuou como professor na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), exercendo influência determinante na consolidação dos estudos literários no país. Sua obra mais conhecida, Formação da Literatura Brasileira (1959), propõe uma interpretação histórica e estrutural da literatura nacional, a partir da ideia de sistema literário — um conjunto articulado de autores, obras e instituições capazes de expressar uma consciência nacional.
Candido integrou a tradição crítica que alia rigor acadêmico, engajamento ético e sensibilidade estética, influenciado por autores como Lukács, Marx e Weber, e foi um dos responsáveis por afirmar a literatura como objeto legítimo de conhecimento e instrumento de emancipação humana. Também se destacou por seu pensamento político, sempre alinhado à defesa da democracia, da justiça social e dos direitos fundamentais, como expressa no célebre ensaio O Direito à Literatura (1988).
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.
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