A intensificação da aliança entre Rússia e China representa um eixo estratégico que vem alterando a influência ocidental na região da Eurásia, segundo análises apresentadas no podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, nesta segunda-feira (21/07/2025). A cooperação entre os dois países avança em diversas frentes, sobretudo econômica e diplomática, e tem impacto direto no cenário geopolítico regional.
Dados oficiais das chancelarias de Moscou e Pequim indicam que mais de 80% das transações financeiras entre os dois países são realizadas em moedas locais, substituindo o dólar, e que o comércio bilateral atingiu recorde de US$ 245 bilhões (R$ 1,3 trilhão) no ano passado, com crescimento de 30% em relação a 2023.
O pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), Guilherme Jeremias Conceição, explicou que a aliança, antes vista com ceticismo, ganhou densidade no vácuo deixado pela redução da influência ocidental, sobretudo após o conflito na Ucrânia iniciado em 2022. Para ele, a Rússia depende cada vez mais da China para apoio comercial e diplomático, deslocando o centro da gravidade geopolítica da Eurásia para longe dos Estados Unidos e da OTAN.
Conceição destaca que essa movimentação ocorre principalmente na Ásia Central, onde Rússia e China atuam de forma coordenada para conter o avanço ocidental, evitando confrontos diretos. Segundo ele, a parceria representa uma reconfiguração profunda e silenciosa do tabuleiro geopolítico eurasiático.
O alinhamento entre os dois países também é resultado de uma estratégia ampla que remonta a 2014, após a anexação da Crimeia pela Rússia, quando o país passou a priorizar o espaço asiático para sua projeção geopolítica. A criação da União Econômica Eurasiática (UEE) em 2015, envolvendo Rússia, Belarus, Cazaquistão, Armênia e Quirguistão, reforça essa estratégia, com a China mantendo cooperação ativa, especialmente por meio da Iniciativa Cinturão e Rota e acordos de livre comércio.
O impacto das sanções ocidentais contra a Rússia, que já somam mais de 30 mil medidas, também fortaleceu a parceria sino-russa. Apesar das restrições, a economia russa registrou crescimento médio do PIB acima de 4% e desemprego inferior a 3% nos últimos anos, indicadores atribuídos em parte à cooperação com a China e outros países do Sul Global, como integrantes do BRICS.
Além do comércio, a relação energética entre Rússia e China tem se ampliado desde 2006, com a construção de oleodutos e contratos de fornecimento de petróleo de longo prazo firmados em 2012. Segundo a analista Milena Megre, essa relação é construída de forma gradual, com foco na diversificação e no multilateralismo, evitando dependências excessivas.
Megre também ressalta que Moscou e Pequim buscam fortalecer blocos internacionais como a Organização para a Cooperação de Xangai (OCX) e o BRICS, promovendo alternativas à hegemonia ocidental, sem necessariamente antagonizar outros fóruns internacionais.
*Com informações da Sputnik News.








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