Como a Rua 25 de Março foi supostamente usada para abastecer o caixa 2 da Odebrecht e entra na mira dos EUA

Reportagem de Fábio Leite, publicada no site Metrópoles no sábado (19/07/2025), revela que a Rua 25 de Março, no centro da capital paulista, conhecida como principal polo de comércio popular do Brasil, foi identificada como um dos pontos de origem do dinheiro em espécie utilizado pela Odebrecht (atual Novonor) para o pagamento de propinas e financiamento de campanhas eleitorais via caixa 2, segundo revelações da Operação Lava Jato. O local voltou ao centro das atenções após ser citado em uma investigação comercial aberta pelo governo dos Estados Unidos, que acusa o Brasil de práticas desleais no comércio internacional.

Esquema envolvia lojas da 25 de Março e policiais militares

Em 2014, conforme documentos reunidos pela Lava Jato, doleiros contratados pela Odebrecht recolhiam quantias elevadas em dinheiro vivo em estabelecimentos da Rua 25 de Março e do bairro do Brás, especializados na venda de artigos de papelaria, brinquedos, roupas e fantasias. O dinheiro era oriundo de vendas realizadas no comércio informal ou subfaturado, muitas vezes ligado ao pagamento de mercadorias importadas irregularmente da China.

O transporte era feito por policiais militares da ativa ou aposentados, que recebiam R$ 180 por dia de serviço. Eles carregavam os valores – que podiam atingir R$ 500 mil por entrega – em sacolas comuns até pontos previamente definidos pelo chamado “departamento de propina” da empreiteira.

As mensagens de logística entre os envolvidos foram extraídas de conversas via Skype, identificadas durante a análise de computadores e celulares apreendidos. O dinheiro era direcionado a bunkers alugados pelos doleiros, e posteriormente à sede da transportadora de valores, localizada na zona oeste de São Paulo, onde era armazenado antes de ser redistribuído a agentes políticos.

Envolvimento de doleiros brasileiros e chineses

O núcleo operacional do esquema foi coordenado por três doleiros brasileiros presos pela Lava Jato, em colaboração com um doleiro de origem chinesa. Segundo os delatores, o operador chinês mantinha acordos com comerciantes da 25 de Março para recolher o numerário das vendas em troca de pagamento a fornecedores na China, o que configurava um circuito de remessa ilegal de valores ao exterior.

Esse sistema funcionou entre 2013 e 2015 e permitiu o abastecimento de um fluxo contínuo de recursos em espécie, utilizados para alimentar a rede de corrupção político-partidária investigada nas fases mais avançadas da Lava Jato.

Estados Unidos lançam investigação e citam a 25 de Março

Na terça-feira (15/07/2025), o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) anunciou a abertura de investigação comercial contra o Brasil, com base na Seção 301 da Lei Comercial de 1974. O procedimento foi iniciado a pedido do presidente Donald Trump, que acusa o país de promover “práticas comerciais desleais”.

O relatório do USTR destaca a Rua 25 de Março como símbolo do que chama de “distribuição e uso generalizados de produtos falsificados”, além de citar “dispositivos de burla, consoles modificados e streaming ilícito”. O documento também menciona o uso do sistema Pix como suposto fator de evasão de controle financeiro.

Apesar de o relatório alegar déficit comercial dos EUA com o Brasil, os dados da balança comercial oficial não confirmam tal desequilíbrio. Segundo especialistas, o uso da Seção 301 tem sido recorrente por Trump para justificar tarifas punitivas em contextos geopolíticos.

Reação no Brasil: protestos e defesa da soberania

Na sexta-feira (18/07/2025), comerciantes e militantes realizaram manifestação na Rua 25 de Março, criticando a medida do governo norte-americano e defendendo a soberania do comércio brasileiro. O protesto foi convocado pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo (SECSP) e contou com encenações satíricas.

Figurantes caracterizados como Donald Trump carregando sacos de dinheiro, acompanhado de um Jair Bolsonaro vestido de presidiário, foram usados para denunciar o uso político da investigação americana. Representantes do comércio local alegaram que, embora haja irregularidades, a responsabilidade pela fiscalização é das autoridades brasileiras.

“Pode haver pirataria na 25 de Março, como em outros locais, mas quem deve resolver isso são as instituições brasileiras, não o governo dos Estados Unidos”, afirmou Ricardo Patah, presidente do SECSP.

Contexto geopolítico e uso político do comércio popular

A utilização da 25 de Março como exemplo de “pirataria institucionalizada” por parte do governo Trump reflete uma estratégia de pressão econômica com motivações políticas, segundo especialistas em comércio internacional. A inclusão do nome do ex-presidente Jair Bolsonaro, réu no STF, como um dos fatores para a tarifação, reforça o viés ideológico da medida.

A associação entre práticas de pirataria comercial e esquemas de corrupção política, como o que envolveu a Odebrecht, pode impactar negativamente a imagem externa do Brasil e prejudicar as exportações de São Paulo, estado que concentra grande parte do comércio exterior brasileiro.


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