Crise entre Brasil e EUA: Missão do Senado tenta barrar tarifa do Governo Trump enquanto Governo Lula planeja contramedidas

A missão oficial do Senado em Washington busca reverter a tarifa de 50% imposta pelos EUA sobre produtos brasileiros. A medida de Donald Trump, com forte componente político, ameaça setores estratégicos como aviação, agronegócio e indústria. O governo Lula prepara retaliações com base na Lei de Reciprocidade Econômica, enquanto parlamentares e empresários tentam evitar prejuízos bilaterais iminentes.
Missão oficial do Senado, liderada por Nelsinho Trad, visita o Capitólio e a redação do jornal Politico, em Washington, para tentar barrar a tarifa de 50% imposta por Donald Trump às exportações brasileiras. Comitiva articula apoio de parlamentares e empresários norte-americanos, enquanto o Governo Lula prepara contramedidas com base na Lei de Reciprocidade Econômica.

Esta quarta-feira (29/07/2025)  marca a contagem de dois dias para entrada em vigor da tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, determinada pelo governo de Donald Trump, uma comitiva oficial do Senado Federal realiza articulações em Washington D.C. para tentar frear os efeitos da medida. Os parlamentares buscam apoio de membros do Congresso norte-americano, tanto do Partido Democrata quanto do Partido Republicano, além de representantes do setor empresarial e da imprensa dos Estados Unidos.

A agenda foi coordenada pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE). Ele afirmou que o objetivo da missão é demonstrar que o Senado brasileiro está disposto ao diálogo institucional, ainda que não tenha poder para reverter, por si só, a medida tarifária.

“Não viemos com bandeira ideológica, viemos com dados e responsabilidade”, declarou Trad, destacando o caráter técnico da missão.

Encontros políticos e empresariais reforçam pressão diplomática

A comitiva foi recebida na redação do jornal Politico e realizou encontros com parlamentares, como o senador Martin Heinrich (Democrata-NM), cujo estado importa ao menos dez produtos brasileiros. Os senadores entregaram uma carta-convite para visita ao Brasil e apresentaram projeções de prejuízos bilaterais provocados pela tarifa.

Na segunda-feira (28/07), o grupo se reuniu com representantes da Câmara Americana de Comércio e com executivos de empresas como Cargill, ExxonMobil, Johnson & Johnson e Caterpillar. Houve articulação para o envio de manifesto conjunto ao governo dos EUA, solicitando o adiamento da vigência da tarifa.

Além de Nelsinho Trad, integram a missão os senadores Carlos Viana (Podemos-MG), Jacques Wagner (PT-BA), Rogério Carvalho (PT-SE), Teresa Cristina (PP-MS), Esperidião Amin (PP-SC), Marcos Pontes (PL-SP) e Fernando Farias (MDB-AL).

Impactos do tarifaço nas exportações brasileiras

Segundo o consultor legislativo Henrique Salles Pinto, da área de Economia e Agricultura do Senado, o tarifaço anunciado tem viés geopolítico e institucional, mais do que econômico. Ele alerta que o Brasil pode ser o único país entre os principais exportadores a enfrentar tarifa de 50%, o que equivaleria a um embargo econômico indireto.

“Trump já sinaliza reduções tarifárias com a União Europeia e China, mas mantém o Brasil sob penalidade máxima”, disse Salles Pinto.

Setores mais afetados:

  • Aviação: Embraer, em São José dos Campos (SP)

  • Alimentos processados: suco de laranja, frutas e café beneficiado (Sergipe, Espírito Santo e Minas Gerais)

  • Exportação de combustíveis: eixo Rio de Janeiro

  • Equipamentos e máquinas industriais: setor com forte presença em São Paulo e Minas Gerais

Esses setores dependem fortemente do mercado norte-americano e a nova tarifa pode inviabilizar economicamente parte expressiva da produção nacional.

Reações do governo brasileiro

Rui Costa: “Brasil pode deixar de comprar dos EUA”

O ministro da Casa Civil, Rui Costa, declarou que o Brasil não precisa manter relações comerciais com os EUA diante da falta de interesse americano no diálogo. Ele afirmou que medidas recíprocas estão sendo preparadas, caso o tarifaço seja confirmado em 1º de agosto.

“O Brasil também pode comprar de outros países. A recusa dos EUA ao diálogo está clara”, disse Costa.

Fernando Haddad: impacto pode reduzir preços internos

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, argumentou que a entrada de produtos no mercado interno, antes destinados à exportação, pode reduzir preços para os consumidores brasileiros. Apesar do possível efeito positivo, reconheceu que empresas exportadoras terão que se adaptar, inclusive com demissões ou redirecionamento de produção.

“Nosso objetivo principal é proteger o emprego”, afirmou Haddad, sinalizando apoio governamental ao setor produtivo.

Lei de Reciprocidade Econômica: resposta legal do Brasil

Durante conferência da União Interparlamentar (IPU), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu a aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica, sancionada em 14 de julho. A norma permite suspensão de concessões comerciais e de propriedade intelectual contra países que adotem medidas unilaterais prejudiciais ao Brasil.

“É uma resposta serena, mas firme contra protecionismo e ingerência externa”, declarou Motta.

Resistência interna à comitiva e polarização

O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmou que atua para impedir que a comitiva do Senado tenha êxito nos diálogos com autoridades dos EUA. Para ele, o problema é político e relacionado ao Supremo Tribunal Federal (STF), não comercial.

“Trump deixou claro que a motivação é institucional. Negociar agora é enfraquecer a posição brasileira”, declarou Bolsonaro, acusando os senadores de “prolongar o sacrifício dos brasileiros”.

EUA cogitam isentar café, cacau e manga

Em paralelo às tensões diplomáticas com o Brasil, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, sinalizou a possibilidade de isentar produtos não cultivados nos EUA, como café, cacau e manga, da tarifa de 50%. A declaração foi dada durante negociações com a China em Estocolmo.

O café brasileiro, que representa cerca de 1/3 do consumo dos EUA, poderia ser poupado, embora o Brasil não tenha sido citado diretamente.

Tarifaço unilateral

A comitiva do Senado atua sob forte pressão diplomática e institucional para evitar os efeitos de um tarifaço unilateral imposto pelo governo de Donald Trump, cuja motivação extrapola o campo comercial. O cenário é agravado pela ausência de canais formais de negociação com a Casa Branca e pela retórica política acirrada em ambos os países. O governo brasileiro, por sua vez, articula medidas legais e comerciais para proteger seus setores estratégicos e tenta redirecionar exportações a mercados alternativos.


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