Bolsonarismo: fundamentos ideológicos, contexto histórico e estrutura sociopolítica | Por Carlos Augusto

bolsonarismo continua a ocupar posição central na análise política do Brasil contemporâneo. Surgido com a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018, o fenômeno extrapola sua figura individual, conformando-se como um movimento ideológico, social e político duradouro, estruturado sobre bases conservadoras, autoritárias, antissistêmicas e reacionárias. O bolsonarismo conecta-se a uma tendência internacional de ascensão da nova direita, marcada pela crítica às instituições liberais, ao globalismo e à ordem democrática construída no pós-Guerra Fria.

Origens e ascensão do bolsonarismo

O bolsonarismo emerge no vácuo criado pela crise de representação política no Brasil, agravada após as Jornadas de Junho de 2013, a recessão econômica de 2014 e os escândalos de corrupção associados à Operação Lava Jato. Nesse ambiente de desgaste institucional e do Lulopetismo, Jair Bolsonaro, até então parlamentar de pouca expressão, capitalizou um discurso contra o “sistema”, centrado no combate à corrupção, na rejeição ao petismo e na evocação de valores morais conservadores.

A crise das forças políticas tradicionais, somada à popularização das redes sociais e à judicialização seletiva da política, criou as condições para a verticalização do discurso bolsonarista, que passou a agregar setores militares, religiosos, empresariais e parcelas das classes médias urbanas.

Características ideológicas do bolsonarismo

O bolsonarismo se sustenta em cinco pilares ideológicos fundamentais:

  • Conservadorismo moral: defesa da família heteronormativa, combate à chamada “ideologia de gênero”, crítica ao feminismo e exaltação da tradição cristã ocidental.

  • Autoritarismo político: valorização da hierarquia, do militarismo e da “ordem” em detrimento da democracia participativa e dos mecanismos institucionais de controle.

  • Anticomunismo: retórica centrada na existência de um “inimigo interno” — a esquerda — associada à corrupção, à subversão moral e à ameaça à soberania nacional.

  • Negacionismo científico: desconfiança sistemática em relação à ciência, à imprensa e às universidades, intensificada durante a pandemia de COVID-19.

  • Culto à personalidade: identificação do líder como salvador da pátria, rejeição à mediação institucional e mobilização direta das massas.

Olavismo e guerra cultural

O olavismo, expressão do pensamento de Olavo de Carvalho, influenciou decisivamente o bolsonarismo. Sua teoria do “marxismo cultural” afirma a existência de uma conspiração ideológica para corroer os valores ocidentais. Essa concepção embasou a atuação da “ala ideológica” do governo Bolsonaro, que buscou enfrentar o que considerava inimigos culturais, como a imprensa, o meio acadêmico, os movimentos sociais e as artes.

A chamada guerra cultural promovida por esse grupo teve como ferramentas o uso estratégico das redes sociais, a produção de conteúdo audiovisual de caráter ideológico e a difusão de uma visão conspiratória do mundo. Essa retórica contribuiu para a erosão da confiança pública nas instituições democráticas e no conhecimento científico.

Militarismo e armamentismo

O governo Bolsonaro foi marcado por uma militarização crescente da máquina pública, com a nomeação de milhares de militares da ativa e da reserva para cargos civis. Simultaneamente, promoveu a ampliação do acesso às armas, vinculando a posse armada à ideia de liberdade individual e de autodefesa contra o “Estado opressor”.

Projetos como o de escolas cívico-militares e a reinterpretação da ditadura de 1964 como “revolução” exemplificam a tentativa de reabilitação do regime militar e de construção de um novo imaginário autoritário.

Messianismo e religiosidade

O apoio das igrejas evangélicas neopentecostais foi crucial para o fortalecimento do bolsonarismo. O movimento se apropriou de uma retórica messiânica, apresentando Jair Bolsonaro como “escolhido por Deus” e incorporando elementos da linguagem religiosa na política. O lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” sintetiza essa fusão entre fé e Estado.

Essa instrumentalização da religião incluiu ataques à laicidade do Estado, intolerância religiosa, especialmente contra religiões afro-brasileiras, e a difusão de uma moral religiosa conservadora nos debates públicos.

Autoritarismo e ataque às instituições

O bolsonarismo operou em permanente tensão com as instituições republicanas, em especial o STF, o TSE e o Congresso Nacional. A retórica de confronto com a imprensa e os meios de comunicação reforçou a percepção de cerco ao líder, alimentando a mobilização permanente de sua base.

O uso recorrente de decretos presidenciais, a politização das Forças Armadas, a tentativa de intervenção em órgãos de investigação e os ataques ao sistema eleitoral configuram um projeto de subversão das regras democráticas em nome da soberania popular encarnada na figura de Bolsonaro.

Política externa e alinhamento internacional

A política externa do governo Bolsonaro marcou uma ruptura com a tradição diplomática brasileira, historicamente multilateralista e pragmática. O alinhamento com os Estados Unidos de Donald Trump, com governos nacionalistas de direita, como o de Benjamin Netanyahu, e o desprezo por organismos multilaterais como a ONU e o Mercosul, sinalizaram um novo paradigma ideológico e estratégico.

O discurso antiglobalista foi acompanhado de hostilidade contra a China, Venezuela, Cuba e países do Sul Global, em nome de uma defesa do “Ocidente cristão” e de valores morais conservadores.

Relação com o fascismo e com a extrema-direita

Estudiosos apontam afinidades eletivas entre o bolsonarismo e o fascismo histórico, como o culto ao líder, o apelo à violência política, o nacionalismo exacerbado e a intolerância à pluralidade. No entanto, o bolsonarismo apresenta características próprias, adaptadas ao século XXI: uso intensivo das redes sociais, desinstitucionalização programada e um discurso populista de massa.

Autores como João Cezar de Castro Rocha argumentam que o bolsonarismo vai além do fascismo tradicional, ao defender a eliminação simbólica dos opositores, recusando o diálogo democrático e promovendo um projeto excludente e persecutório.

Bases sociais e eleitorais do bolsonarismo

O bolsonarismo conquistou apoio em segmentos diversos da sociedade brasileira, como:

  • Empresariado do agronegócio e da indústria armamentista

  • Oficiais das Forças Armadas e das polícias

  • Lideranças evangélicas e fiéis neopentecostais

  • Classes médias urbanas, ressentidas com a perda de status econômico e político

  • Jovens homens, particularmente ativos nas redes digitais

Segundo dados das eleições de 2018 e 2022, esse núcleo corresponde a cerca de 30% a 35% do eleitorado, apresentando alta fidelidade e engajamento militante, tanto online quanto nas ruas.

Institucionalização e continuidade após 2022

Apesar da derrota eleitoral em 2022, o bolsonarismo manteve presença significativa no Congresso Nacional, com bancadas robustas no PL e em partidos aliados. O movimento:

  • Organizou atos políticos em datas simbólicas, como o 7 de Setembro

  • Internacionalizou sua pauta, estreitando laços com conservadores americanos e europeus

  • Reivindicou a condição de perseguido político, reforçando a narrativa de vitimização do líder

  • Articulou alianças eleitorais com lideranças como Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro

A Teoria Bolsonarista sob a ótica weberiana liberal-conservadora

Autoridade carismática e o papel do líder populista

A teoria da dominação legítima de Max Weber, especialmente sua tipologia sobre os tipos ideais de dominação — racional-legal, tradicional e carismática — fornece uma das chaves centrais para compreender o bolsonarismo. No caso brasileiro, Jair Bolsonaro se insere no tipo carismático, conforme a definição clássica de Weber:

“Dominação carismática é aquela fundada na devoção extraordinária à santidade, heroísmo ou exemplaridade de uma pessoa, e às ordens por ela emanadas.”
(Weber, Economia e Sociedade, 1922)

O bolsonarismo constrói-se sobre a personalização do poder, com rejeição às instituições intermediárias (partidos, imprensa, universidades), reiterando a centralidade de um líder “acima das regras”, que se apresenta como “escolhido” para restaurar a ordem moral e combater o “sistema”.

Autores como Andreas Kalyvas e Pierre Rosanvallon, ainda que não liberais-conservadores no sentido estrito, ajudam a pensar a erosão da autoridade legal-racional nas democracias e a ascensão de formas de poder baseadas em afetos, ressentimento e excepcionalismo — elementos claramente presentes no bolsonarismo.

O bolsonarismo como reação ao desencantamento do mundo

Para Weber, a modernidade é marcada pelo desencantamento do mundo (Entzauberung der Welt), ou seja, pela substituição das explicações religiosas e míticas por formas racionalizadas e burocráticas de organização social. O bolsonarismo, ao contrário, promove uma reencantação neorreligiosa e moralista, baseada no cristianismo evangélico e na guerra cultural.

Nesse sentido, o movimento pode ser interpretado como uma resposta reacionária ao desencantamento moderno, conforme analisado por Peter Berger (em The Sacred Canopy) e Steve Bruce, que estudam a persistência e o ressurgimento de formas religiosas de identidade política em sociedades seculares.

O liberalismo conservador, à la Raymond Aron ou Michael Oakeshott, reconhece a modernidade como processo irreversível, mas defende a preservação das instituições tradicionais como forma de limitar os impulsos revolucionários. A crítica desses autores ao populismo messiânico, mesmo quando oriundo da direita, aplica-se diretamente ao caso brasileiro, pois o bolsonarismo rompe com o equilíbrio institucional gradualista defendido pelo conservadorismo weberiano clássico.

A racionalidade política e o anti-intelectualismo bolsonarista

Weber também distingue entre ética da convicção (Gesinnungsethik) e ética da responsabilidade (Verantwortungsethik). O bolsonarismo se ancora majoritariamente na ética da convicção, defendendo posições absolutas (como a rejeição à vacina ou ao aquecimento global), mesmo que essas gerem consequências deletérias à coletividade.

Autores como Wilhelm Hennis, um dos mais importantes intérpretes de Weber no pós-guerra, alertam para os riscos da política sem responsabilidade, dominada por impulsos, valores subjetivos e irracionalismos carismáticos.

Além disso, o bolsonarismo propaga um forte anti-intelectualismo, desprezando universidades, ciência e produção de conhecimento técnico, em oposição à valorização weberiana da burocracia especializada e da racionalidade instrumental como fundamentos do Estado moderno.

Ordem, autoridade e a nostalgia do Estado forte

A teoria política liberal-conservadora, inspirada em Weber, valoriza a ordem social, a autoridade legítima e a estabilidade institucional. No entanto, o bolsonarismo, ao invés de promover um Estado racional-legal forte, tende ao personalismo, à militarização da política e à deslegitimação das instituições republicanas (Congresso, STF, imprensa).

Autores como Eric Voegelin, Leo Strauss e Carl Schmitt — ainda que com diferenças fundamentais — exploram a tensão entre autoridade, ordem e crise da modernidade, sendo frequentemente evocados por intelectuais de perfil liberal-conservador ou da nova direita. Contudo, mesmo esses autores criticariam a ausência de densidade teórica e o uso instrumental da tradição no bolsonarismo.

Para Voegelin, por exemplo, o risco de “gnosticismo político” — a crença de que o mal está no mundo e só pode ser derrotado por um grupo iluminado — reaparece no populismo bolsonarista como doutrina de salvação nacional, com o líder messiânico como figura central.

Fenômeno contraditório

A partir da tradição weberiana liberal-conservadora, o bolsonarismo aparece como um fenômeno contraditório: embora invoque a defesa da ordem, da autoridade e dos valores tradicionais, na prática mina os fundamentos racionais-legais do Estado moderno, substituindo-os por uma lógica personalista e carismática. A crítica a esse modelo político, conforme demonstrado por intérpretes de Weber como Hennis, Aron e Voegelin, revela os riscos de uma política dominada pela emoção, pelo ressentimento social e pela rejeição à técnica e à institucionalidade.

Como a teoria marxista analisa o Bolsonarismo

Bolsonarismo e a democracia liberal: um antagonismo estrutural

Com base em teóricos como Steven Levitsky, Daniel Ziblatt e Yascha Mounk, o bolsonarismo é classificado como forma de democracia iliberal ou de autocracia eleitoral, em que o sufrágio é mantido, mas os direitos civis, a liberdade de imprensa e o equilíbrio entre os Poderes são sistematicamente atacados.

A deslegitimação do Judiciário, o estímulo à ruptura institucional e a politização do aparelho estatal refletem a fragilidade do pacto democrático de 1988, sob ameaça direta do projeto bolsonarista.

Leitura marxista do bolsonarismo: entre ideologia e crise do capital

Sob a ótica marxista, o bolsonarismo é compreendido como resposta autoritária das frações dominantes do capital diante da crise do neoliberalismo. Para Ricardo Antunes, ele representa uma forma de dominação adaptada à era da precarização do trabalho e da financeirização da economia, canalizando o ressentimento social para pautas conservadoras e antiesquerdistas.

Ruy Braga denomina o fenômeno de “neoliberalismo autoritário”, que combina ultraliberalismo econômico com repressão política. Já Armando Boito Jr., em chave gramsciana, entende o bolsonarismo como instrumento da burguesia interna aliada ao capital financeiro, voltado à desmontagem dos direitos sociais e à repressão do conflito de classes.

Marxismo e o papel da ideologia no bolsonarismo

A partir da teoria de Louis Althusser, os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs) são reconfigurados pelo bolsonarismo para reforçar a dominação de classe. As igrejas evangélicas, a mídia digital e o sistema educacional militarizado operam como mecanismos de reprodução da ideologia dominante, ocultando a contradição entre capital e trabalho.

A guerra cultural bolsonarista, ancorada na lógica algorítmica e na retórica anticomunista, atua como forma de falsa consciência, promovendo a alienação e desviando o foco da exploração econômica para conflitos morais e identitários.

Bolsonarismo como sintoma do colapso da democracia burguesa

A leitura de autores como Nancy Fraser, Wolfgang Streeck e Perry Anderson permite entender o bolsonarismo como sintoma da crise terminal da democracia representativa liberal, capturada por interesses financeiros e incapaz de responder à desigualdade estrutural.

Nesse vácuo, o bolsonarismo assume a forma de restauração autoritária do Estado capitalista, abandonando os compromissos sociais da Constituição de 1988 e consolidando um regime de desdemocratização funcional ao grande capital.

Forma de representação política inédita no Brasil

O bolsonarismo representa uma forma inédita de autoritarismo no Brasil contemporâneo, combinando elementos do fascismo clássico, do populismo digital e do fundamentalismo religioso, articulado a interesses do capital neoliberal. Seu sucesso político deriva da capacidade de mobilizar afetos, ressentimentos e valores tradicionais, convertendo o descontentamento social em adesão militante. Tanto as abordagens liberal-conservadoras quanto as marxistas convergem na crítica à destruição da racionalidade institucional promovida pelo bolsonarismo.

*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.


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One response to “Bolsonarismo: fundamentos ideológicos, contexto histórico e estrutura sociopolítica | Por Carlos Augusto”

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