Mal-Estar na Civilização: análise crítica das crises subjetivas, tecnológicas e sociais no século XXI | Por Carlos Augusto

A noção de mal-estar na civilização tornou-se um eixo fundamental para compreender as crises subjetivas, sociais e culturais que atravessam o século XXI. O conceito foi formulado por Sigmund Freud, em Das Unbehagen in der Kultur (Mal-estar na Civilização, 1930), onde analisa o conflito inevitável entre os impulsos pulsionais do indivíduo e as exigências repressivas da vida em sociedade. Para Freud, “a civilização impõe renúncias ao próprio erotismo e exige do homem sacrifícios em sua agressividade” (FREUD, 1930, p. 83).

O conceito freudiano e sua atualidade

Freud argumenta que o progresso civilizacional exige a repressão dos desejos humanos mais primitivos, particularmente os impulsos sexuais e agressivos, como condição de possibilidade para a vida coletiva. Essa repressão, porém, gera sofrimento e constitui o cerne do mal-estar moderno. No século XXI, esse dilema assume novos contornos diante da hiperexposição digital, da cultura da performance e da precarização dos laços comunitários.

Conforme observa Elisabeth Roudinesco, em Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo (2014), o pensamento freudiano ainda fornece instrumentos fundamentais para entender a “desordem subjetiva” contemporânea, marcada pela dissolução simbólica e pela intensificação do sofrimento psíquico.

Transformações tecnológicas e subjetividade

A chamada quarta revolução industrial, caracterizada por big data, plataformas digitais e inteligência artificial, tem alterado profundamente as relações humanas. Segundo Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2015), o sujeito contemporâneo está imerso em uma positividade excessiva, marcada pela autoexploração, ansiedade e depressão, tornando-se “empreendedor de si mesmo” e prisioneiro de uma lógica produtivista.

O mal-estar psíquico não decorre apenas da repressão, mas também da compulsão à produtividade e à visibilidade. A vigilância digital, o culto à imagem e o consumo narcítico geram insegurança existencial, dissolução identitária e sentimento de inutilidade social.

A leitura de Herbert Marcuse: repressão social e capitalismo

No clássico Eros e Civilização (1955), Herbert Marcuse, da Escola de Frankfurt, propõe uma crítica marxista a Freud, ao afirmar que o “princípio de realidade” freudiano é, na verdade, um produto histórico do capitalismo. Segundo ele, a repressão é intensificada além do necessário para manter a ordem, sendo utilizada como método de domínio econômico e político.

Marcuse propõe uma civilização não-repressiva, onde os impulsos libidinais seriam liberados de forma não destrutiva. Para ele, “a organização repressiva do trabalho e do tempo é a principal fonte de sofrimento psíquico sob o capitalismo industrial” (MARCUSE, 1955, p. 92).

Lucien Sève e o inconsciente socialmente determinado

O filósofo marxista Lucien Sève propõe, em Marxismo e Teoria da Personalidade (1974), uma articulação entre psicanálise e materialismo histórico. Para ele, o inconsciente não pode ser compreendido como uma estrutura universal e atemporal, mas como uma instância historicamente condicionada pelas relações sociais de produção.

Assim, o mal-estar psíquico resulta das contradições objetivas do mundo social. A alienação do trabalhador, a expropriação do tempo livre e o esvaziamento da vida cultural moldam uma subjetividade marcada por frustração crônica e impotência simbólica.

Slavoj Žžek: ideologia, desejo e vazio estrutural

Em O Mais Sublime dos Histéricos (1989) e Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa (2009), Slavoj Žžek retoma Freud via Lacan e propõe que o mal-estar não é apenas um efeito colateral da civilização, mas parte de uma impossibilidade estrutural de satisfação.

Žžek associa essa impossibilidade à ideologia capitalista, que promete liberdade plena enquanto reforça mecanismos de dominação invisível. O consumo é apresentado como solução para o mal-estar, mas apenas intensifica o vazio subjetivo, pois perpetua o ciclo de insatisfação e desejo não realizado.

Michael Löwy e a utopia como resposta ao colapso

O sociólogo Michael Löwy, em Ideologias e Ciências Sociais (2006), identifica no pensamento utópico uma resposta concreta ao mal-estar civilizacional. Ele argumenta que a degradação ambiental, a mercantilização da vida e o declínio das formas comunitárias são expressões do fracasso da racionalidade capitalista.

Para Löwy, a utopia não é ilusão, mas necessidade histórica: “A crise ecológica e civilizatória exige a construção de novos horizontes de sentido” (LÖWY, 2006, p. 107). A superação do mal-estar exige, portanto, transformação estrutural e horizonte pós-capitalista.

Declínio das mediações simbólicas e fragmentação social

A crise das instituições tradicionais — família, escola, religião e partidos — compromete a transmissão simbólica intergeracional. Sem essas instâncias de referência, o indivíduo torna-se vulnerável à radicalização, ao isolamento e à lógica do consumo imediato.

Como destaca Pierre Dardot e Christian Laval, em A Nova Razão do Mundo (2009), o neoliberalismo internaliza a concorrência e transforma o sujeito em empresa de si, deslocando para o indivíduo a responsabilidade pelo fracasso e pelo sofrimento.

Saídas possíveis e desafios coletivos

A superação do mal-estar exige mais do que soluções individuais ou técnicas. Implica uma reforma estrutural das condições de vida, com o fortalecimento das políticas públicas, da educação humanista, da cultura e da saúde mental.

Também é necessário recuperar o valor das mediações simbólicas e promover formas coletivas de pertencimento, alicerçadas em princípios democráticos, solidários e inclusivos. A filosofia, a psicanálise e o marxismo oferecem instrumentos fundamentais para compreender e enfrentar a crise subjetiva e civilizatória do presente.

A subcategorias teóricas do mal-estar na civilização

A partir da análise da categoria geral mal-estar na civilização, emergem as seguintes subcategorias teóricas:

  • Mal-estar econômico-material: vinculado à exploração do trabalho, à desigualdade social e à precarização das condições de vida.
  • Mal-estar subjetivo-psíquico: relacionado à repressão pulsional, ansiedade, desamparo e depressão.
  • Mal-estar simbólico-cultural: referente à crise de sentido, à perda de referências e ao esvaziamento das instituições.
  • Mal-estar tecnológico-digital: resultante da hiperconectividade, da vigilância e da alienação digital.
  • Mal-estar ecológico-civilizacional: ligado à destruição ambiental e à insustentabilidade do modelo econômico vigente.
  • Mal-estar ideológico-político: expressão do esvaziamento democrático, da manipulação discursiva e da radicalização social.

Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Avatar de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

Valorize o jornalismo crítico, plural, rigoroso e comprometido com a verdade factual, a democracia, o Estado de Direito e o interesse público. Escolha o Jornal Grande Bahia (JGB) como fonte preferida no Google: clique aqui.

Sua confiança também fortalece nosso trabalho: avalie o JGB

Selecione o JGB e receba nossas notícias com mais destaque.


Deixe um comentário


Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo