Pesca brasileira enfrenta falta de dados e impactos da crise climática, aponta estudo

Relatório da Oceana indica ausência de diagnósticos para quase metade dos estoques pesqueiros do país.
Relatório da Oceana indica ausência de diagnósticos para quase metade dos estoques pesqueiros do país.

A pesca no Brasil enfrenta desafios estruturais relacionados à ausência de dados confiáveis sobre estoques pesqueiros e aos impactos da crise climática. É o que revela a 5ª edição da Auditoria da Pesca Brasil, divulgada pela Oceana na quarta-feira (13/08/2025), em Brasília (DF). O estudo é considerado o levantamento mais abrangente sobre a gestão pesqueira nacional e, nesta edição, analisa especialmente os efeitos ambientais e sociais provocados pelas mudanças climáticas.

Situação dos estoques pesqueiros

Segundo o relatório, 47% dos estoques marinhos e estuarinos explorados comercialmente não têm diagnóstico atualizado. Entre os que possuem avaliação, 68% estão sobrepescados, com biomassa abaixo dos níveis sustentáveis. Além disso, mais de 90% carecem de plano de gestão atualizado e de medidas de limitação de captura para evitar a sobrepesca.

O diretor-geral da Oceana, Ademilson Zamboni, afirma que o conhecimento disponível é limitado e, quando existe, vem de iniciativas isoladas. Ele defende a criação de um programa permanente de pesquisa e monitoramento que permita avaliações periódicas.

Efeitos da crise climática

A análise aponta que o sistema pesqueiro brasileiro está despreparado para lidar com impactos climáticos já em curso, como elevação da temperatura da água, alteração das correntes marítimas e eventos extremos — a exemplo das enchentes no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia.

O diretor-científico da Oceana, Martin Dias, explica que mudanças nas condições naturais, como temperatura, salinidade e volume de chuvas, afetam diretamente os estoques e a sobrevivência das comunidades pesqueiras. Ele cita a Lagoa dos Patos (RS) e rios da Amazônia como áreas já afetadas.

Depoimentos de pescadores reforçam o diagnóstico. No Pará, Josana Pinto da Costa relata escassez de peixes causada pela seca. No Rio Grande do Sul, Daniel da Veiga afirma que 2024 foi o pior ano de pesca, devido ao excesso de chuvas e ao aumento de resíduos no mar.

Orçamento e gestão

Em 2024, o orçamento do Ministério da Pesca e Aquicultura aumentou 85%, atingindo R$ 350 milhões. Ainda assim, é o segundo menor entre os ministérios do Executivo Federal, e apenas 39% foi executado. Somente R$ 32 milhões foram aplicados em ações finalísticas de pesca.

Para Zamboni, o valor destinado à sustentabilidade e gestão é insuficiente. Ele cita falhas como ausência de monitoramento, estatísticas pesqueiras incompletas e falta de controle de desembarques.

Propostas e caminhos

A Auditoria da Pesca 2025 recomenda um plano nacional estruturado de monitoramento e adaptação das pescarias, com base científica, contemplando emergência climática, sustentabilidade e justiça social.

O Projeto de Lei 4789/2024, em análise no Senado Federal, propõe obrigatoriedade na elaboração de planos de gestão, monitoramento de estoques e responsabilização do governo. Para Zamboni, adaptar as pescarias à nova realidade climática é urgente, pois a inação trará custos sociais e econômicos elevados.


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