Tarifaço do Governo Trump contra o Brasil expõe disputa geopolítica, pressiona agronegócio e fortalece alianças no BRICS

O tarifaço de 50% dos EUA atinge 4% das exportações brasileiras, com impacto concentrado no agronegócio e em commodities estratégicas. O Brasil respondeu acionando a OMC e buscando negociações diretas. A crise intensificou alianças com China e Rússia no BRICS e expôs a dimensão política da medida, conectada a sanções contra Alexandre de Moraes. Especialistas defendem que o país aproveite o momento para diversificar mercados e fortalecer sua base industrial.
Tarifaço de Trump atinge 4% das exportações brasileiras e amplia disputa geopolítica com o BRICS. Brasil aciona OMC, reforça alianças com China e Rússia e prepara plano emergencial para exportadores.

O tarifaço de 50% imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma parte significativa das exportações brasileiras, atinge diretamente setores estratégicos como café, frutas e carnes e intensifica a tensão geopolítica envolvendo Brasil, EUA e o BRICS.

Embora o impacto represente 4% das exportações brasileiras, o governo estima que metade desse volume possa ser redirecionada para outros mercados. A medida, contudo, foi interpretada por especialistas como uma retaliação política e parte de um movimento mais amplo de pressão contra potências emergentes.

Durante a 5ª reunião plenária do CDESS, o ministro Fernando Haddad destacou que a economia brasileira vive um momento positivo, com menor taxa de desemprego da história (5,8%), queda da inflação e saída do Mapa da Fome.
Mesmo assim, advertiu que a sobretaxa exige atenção especial, sobretudo em setores com alta empregabilidade, como a fruticultura.

“Não é porque apenas 1,5% das exportações será afetado diretamente que vamos baixar a guarda”, afirmou Haddad.

O ministro enfatizou que o governo está comprometido em socorrer famílias e empresas impactadas, classificando a ação norte-americana como “injusta e indevida”, incompatível com os 200 anos de relações diplomáticas bilaterais.

Acionamento da OMC e abertura de negociações

O Itamaraty apresentou um pedido formal de consultas à Organização Mundial do Comércio (OMC), acusando os EUA de violarem compromissos como o princípio da nação mais favorecida e os tetos tarifários negociados.
A medida abre uma primeira etapa de diálogo antes de eventual painel de disputa.

Paralelamente, a Secretaria do Tesouro dos EUA contatou o Ministério da Fazenda para negociações bilaterais, com Haddad indicando a possibilidade de incluir minerais críticos e terras raras na pauta, itens de alto valor estratégico para a indústria tecnológica.

Motivações políticas e o “imperialismo judicial”

Segundo Trump, as tarifas são resposta ao processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Jair Bolsonaro, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.
A ação foi interpretada como retaliação direta à prisão domiciliar do ex-presidente e às restrições impostas ao bolsonarismo no Brasil.

Analistas como Afonso de Albuquerque (UFF) classificam a sanção contra Moraes como exemplo de “imperialismo judicial”, no qual os EUA ampliam sua jurisdição para além das próprias fronteiras. Já Hugo Albuquerque vê o caso como um “laboratório” para testar intervenções em outros países, evidenciando a mudança na postura americana — de supremacia velada para ingerência aberta.

Conexão com o BRICS e disputa pelo sistema monetário

A ofensiva norte-americana é vista como tentativa de enfraquecer o BRICS, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que recentemente incorporou novos membros e defende maior uso de moedas locais nas transações comerciais.
Especialistas apontam que o dólar tem sido “armamentizado” como ferramenta de pressão política, mas essa estratégia pode comprometer a própria confiança internacional na moeda.

China e Rússia ampliam apoio à soberania brasileira

A crise tarifária gerou movimentos diplomáticos de aproximação.
O chanceler chinês Wang Yi declarou apoio firme à defesa da soberania brasileira, criticou interferências externas e propôs cooperação ampliada em comércio, finanças e tecnologia.
O presidente russo Vladimir Putin, em telefonema a Lula, reafirmou o compromisso de fortalecer as relações bilaterais e a atuação conjunta no BRICS, além de discutir iniciativas para a resolução da crise ucraniana.

Agronegócio: o setor mais atingido e o paradoxo político

O agronegócio, um dos maiores apoiadores de Bolsonaro, está entre os mais prejudicados pelo tarifaço.
Ainda assim, especialistas como João Feres e Rodrigo Prando avaliam que a bancada ruralista, marcada por fidelidade ideológica e pragmatismo econômico, dificilmente se alinhará ao governo Lula, mesmo com políticas de apoio ao setor.

A Frente Parlamentar da Agropecuária reúne 324 deputados e 50 senadores, exercendo forte influência legislativa. Apesar disso, a força política nem sempre se converte em votos, já que o Centro-Oeste, maior produtor de grãos, é a região com menor eleitorado proporcional.

Plano emergencial do Governo Lula 3

O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou que até 12/08/2025 será apresentado um plano emergencial de apoio aos exportadores, utilizando critérios para medir a dependência de cada setor em relação ao mercado norte-americano.
Setores com mais de 50% da produção voltada aos EUA terão prioridade, com linhas de crédito e possibilidade de contratos governamentais para absorver perdas.

Reações políticas e internacionais

Além das tensões com Washington, a crise revelou articulações externas de Eduardo Bolsonaro, que anunciou lobby na Europa e no Mercosul para ampliar sanções contra Alexandre de Moraes.
A postura foi criticada por parlamentares e analistas, que apontam a incoerência de celebrar medidas que prejudicam a economia nacional.

Pressão geopolítica

O tarifaço de Trump extrapola a dimensão comercial e insere-se em um contexto de pressão geopolítica sobre países emergentes, especialmente os membros do BRICS.

A medida reforça a necessidade de diversificação de mercados, mas expõe a dependência brasileira de commodities e a fragilidade de sua indústria de transformação.

A reação articulada com China e Rússia indica um realinhamento estratégico, mas o desafio permanece: transformar a crise em oportunidade para reindustrialização e fortalecimento de cadeias produtivas internas.


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